8 it was RED: 2009

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

"Dorminhoco", Woody Allen e Chapolin

Recentemente soube que no Rio de Janeiro ocorreu a mostra cinematográfica A Elegância de Woody Allen, a qual exibe a extensa filmografia do diretor novaiorquino. A notícia me lembrou da existência desse importante cineasta, instigando-me a explorar sua obra. Como moro em Porto Alegre, a solução para conhecer as películas de Allen foi passar em alguma locadora e pegar todos os seus filmes que vi nas prateleiras. Agora que estou em férias, a falta de tempo, único obstáculo entre minha cinefilia e minha rotina, é inexistente; logo, nessa sexta-feira aluguei, além de outros sete filmes, oito DVD’s do cineasta. Os longas selecionados foram: O que é que há, gatinha?(1965), Dorminhoco(1973), A Rosa Púrpura do Cairo(1985), Poderosa Afrodite(1995), Todos Dizem Eu Te Amo(1996), Celebridades(1998), Trapaceiros(2000) e Dirigindo no Escuro(2002). Até agora, assisti a dois dos filmes citados: A Rosa Púrpura do Cairo(1985) e Dorminhoco(1973). Antes de assistir a esses dois longas, já havia assistido a outros de Allen: Vicky Cristina Barcelona (2009), Scoop – o grande furo (2006) e Zelig(1983).

O que percebi em todas as fitas de Woody as quais contemplei até agora foi a presença marcante de um humor Chapolin. Todos os argumentos poderiam perfeitamente dar luz a episódios do herói mexicano. O dono das "Anteninhas de Vinil" poderia ser inserido em A Rosa Púrpura do Cairo (1985) e ajudar na captura do astro que fugiu das telas; também ajudaria Miles em Dorminhoco (1973); além disso, a personagem criada por Roberto Gómez Bolaños auxiliaria na busca pelo assassino em Scoop – o grande furo(2006). A única película que se distancia desse ponto é Vicky Cristina Barcelona(2009). El Chapulín Colorado surgiu em 1970, enquanto que o primeiro filme escrito por Allen, O que é que há, gatinha?, é de 1965. No entanto, o criador de Chaves escreve desde 1958. Não há como dizer se um influenciou o outro; se essa influência é inexistente, e as semelhanças são apenas interseções das obras dos dois; ou, ainda, afirmar que ambos bebem da mesma fonte de inspiração. Descartaria a primeira opção.

Para comentar, escolhi o filme que, por enquanto, considero obra-prima de Woody Allen.
Dorminhoco (Sleeper, 1973)
Direção: Woody Allen
Roteiro: Woody Allen, Marshall Brickman

Dorminhoco é um tímido filme da filmografia de Woody Allen, o qual se esconde atrás de grandes nomes como A Rosa Púrpura do Cairo, Zelig e Noivo Neurótico, Noiva Nervosa(1977). A película de 1973 conta a história de Miles Monroe (o próprio Woody Allen), que acorda depois de 200 anos após um acidente de hospital. O protagonista descobre um futuro controlado por um governo opressor de direita conservadora. Como Monroe representa um perigo ao estável kitch ditatorial imposto pelas autoridades, o protagonista é perseguido pela polícia; a perseguição dá luz à diversas cenas carregadas com o humor chapolinesco, as quais, na minha opinião, empobrecem o filme.

Os cientistas responsáveis pelo descongelamento de Miles o levam a uma casa a fim de estudar o protagonista e fazer com que esse se recupere do longo estado de dormência. Nessa fração da película, Woody mostra inteligência ao colocar os instruídos nas ciências realizando uma série de perguntas a Monroe sobre “artefatos históricos” cujas datas variam entre 1950 a 2000, período o qual, não apenas a personagem principal, mas também os espectadores da película têm total conhecimento. São exibidas fotos, uma revista Playboy, um bate-dentes e uma televisão. Os cientistas acreditam que o tubo de raios catódicos era uma tortura a qual os governantes destinavam a alguns infratores; Miles, após pensar um pouco, confirma a visão dos estudiosos.

A polícia aparece pela primeira vez no longa na casa dos cientistas. Lá, ela consegue capturá-los; enquanto isso, Miles alcança sua escapada ao entrar em um caminhão de robôs os quais foram criados para realizar serviços domésticos. A solução encontrada pelo protagonista para uma fuga bem sucedida foi travestir-se de robô, camuflando-se, assim, no meio dos verdadeiros serviçais do futuro. O esconderijo encontrado por Monroe era um veículo de entregas, assim, ele é deixado frente a uma residência para ser o novo criado computadorizado de Luna (Diana Keaton), uma pseudo-intelectual satisfeita com o estilo de vida imposto pelo governo.

Em uma fuga da polícia, Miles acaba fugindo com Luna e revela sua verdadeira identidade a ela. A moça, como uma obediente marionete do governo, entrega o protagonista às autoridades. No entanto, além de querer apagar a mente de Monroe, os restauradores da ordem também pretendiam reprogamar o cérebro da pseudo-intelectual, pois sua convivência com o protagonista era uma ameaça à calmaria da alienação. A situação abre os olhos da moça e faz com que ela sofra um gradual processo de equerdização.

Ressucitar Miles foi um ato de oposição ao governo, devido à falta de alienação da personagem principal; se os cientistas e o protagonista fossem pegos, eles teriam seus cérebros reprogramados. Em resposta a esse governo, existe a Resistência - um grupo de rebeldes que pretende acabar com a opressão, fazendo uma revolução para derrubar o Grande Líder. Se em Alphaville, obra do célebre Jean-Luc Godard, o controlador do catastrófico futuro é o robô Alpha 60, em Dorminhoco, o responsável pelo caos maquiado é um nariz. Um nariz! A Resistência pretende acabar com uma autoridade administrativa guiada por um nariz!

No decorrer do filme, temia uma visão política maniqueísta da parte de Woody. Nos primeiros minutos do longa, já tomamos conhecimento das críticas à direita, mas o retrato da esquerda ainda estava oculto. Felizmente, Allen critica as duas perspectivas. As críticas são feitas através da pseudo-intelectual, que, revelando um fascínio infantil pelas palavras de Marx, encarna o estereótipo de novo-esquerdista-imaturo-deslumbrado-que-acha-que-sabe-tudo-e-que-pode-mudar-o-mundo. Ao não idealizar nenhum dos dois lados, o cineasta dá um inteligente destino a sua película.

Se de um lado vemos a esquerdização da pseudo-intelectual, do outro observamos a troca de lado imposta a Monroe. O protagonista nunca foi da esquerda, apenas fora colocado lá ao ser descongelado; do mesmo modo, ele também foi forçado a entrar no capitalismo ao ter sua mente reprogramada. Miles é passivo em sua visão política. Reprogramado e alienado, a personagem principal abraça o kitch e leva um estilo de vida completamente vazio: tem sua rotina insignificante, sua labuta insignificante, seu cachorro-robô insignificante e suas preocupações insiginificantes.

Imagine se, ao invés de Monroe, fosses tu, leitor, que despertasse após 200 anos congelado. O que pensarias? Como te encaixarias em uma sociedade completamente diferente da qual estavas habituado? Como seria saber que todos teus amigos e familiares morreram? Woody Allen prefere não dar atenção a essas questões existenciais individualistas. Ao invés disos, o cineasta foca sua lente em um plano mais amplo; à mostrar questões referentes a apenas um ser, Allen prefere exibir os problemas da sociedade: um grupo egoísta liderado por um nariz, o qual tem todas suas atenções desviadas pelos confortos dos robôs domésticos, máquinas produtoras de orgasmos e alucinógenos em forma de uma esfera metálica. Além de criticar a sociedade, Allen também mostra o destino de algumas questões pertinentes que vivenciamos no presente. Um exemplo disso é a utilização de fertilizantes na agricultara: no futuro criado pelo cineasta, haverá frutas e legumes de proporções gigantescas.
Orb, a esfera metálica alucinógena

Considero Dorminhoco a obra-prima de Allen. O tom crítico do roteiro contrasta com o humor chapolinesco de inúmeras cenas. A película me conquistou na inteligência dos questionamentos, mas me desagradou com as seqüências pastéis. Woody Allen criou um futuro o qual é uma hipérbole do nosso presente, assim, não devemos esquecer que os cômicos rumos traçados por Allen são, na verdade, os caminhos que trilhamos hoje, porém em escala assombrosa. Maquiada pelo humor está uma excelente crítica a sociedade.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Atividade Paranormal + Selos

Ganhei três selos dos blogs Cine Europeu - o qual recentemente tive o prazer de descobrir – e Fotograma Digital – que tenho a felicidade de acompanhar há uma boa fração da minha vida de blogueiro. Muito obrigado aos dois! Um dos selos (“Este blog dá vontade de abraçar”) tem como regra responder a três perguntas:
1- Quem mais gostas de abraçar, no presente: minha namorada Stephanie, pessoa importantíssima na minha vida.
2- Quem nunca abraçarias: clichês ambulantes.
3- A quem davas tudo para poder abraçar: cinéfilamente falando, David Lynch.
4- A quem davas o teu melhor abraço: minha namorada.

Respondida as perguntas, indicarei seis blogs para os três selos. Como de praxe, insisto na preocupação com a qualidade dos indicados, pois os selos devem ser um símbolo da qualidade do blog, e não apenas um mero enfeite.

Parabéns aos indicados!


Atividade Paranormal (Paranormal Activity, 2007)
Direção: Oren Peli
Roteiro: Oren Peli




Em uma era repleta de filmes de terror megalomaníacos, nos quais os monstros abusam dos efeitos especiais e as mortes das personagens ocorrem a todo instante como se fosse algo comum, Atividade paranormal surge como uma obra dissonante ao exagerado gênero. A película, que ficou famosa por seu baixíssimo orçamento e por sua altíssima rentabilidade, mostra a história do casal Micah (Micah Sloat) e Katie (Katie Featherston). A personagem feminina presencia, desde sua infância, inexplicáveis eventos sobrenaturais causados por um demônio que a persegue. Micah compra uma câmera para filmar as atividades paranormais que ocorrem, e é essa única câmera que nos guiará durante todo o longa.



Oren Peli



O filme inicia com uma atmosfera acolhedoramente caseira ao mostrar Micah filmando sua namorada enquanto os dois brincam como um casal comum. O clima acolhedor reside não somente na normal relação dos dois, mas também na fotografia responsável pela câmera digital, pois, se em minhas órbitas, ao invés de olhos eu possuísse câmeras, essas câmeras seriam digitais. Além da câmera, a iluminação natural deixa a verossimilhança fluir na sala de projeção.

Fui assistir à película sabendo apenas do famosíssimo fato do orçamento; não vi nenhum trailer e nem li nenhuma resenha antes de entrar no cinema. O que eu esperava na fração inicial da obra era que, como em qualquer longa de terror, “surpreendentemente” (hoje isso já ficou tão clichê que já não causa surpresa nenhuma), aparecesse algum espírito e me assustasse, quebrando o agradável clima residencial que pairava até então, e assim surgisse um tosco letreiro escrito Atividade Paranormal. Entretanto, isso felizmente não ocorreu. Passam-se vários minutos e continuamos sendo envolvidos pela fraternal verossimilhança do filme. O casal janta, conversa, brinca, namora e leva sua vida normal. Vamos sendo inteirados dos problemas de Katie aos poucos através das conversas entre as personagens. Micah, a fim de registrar os bizarros acontecimentos, coloca a câmera sobre um tripé para filmar a noite de sono do casal. É no quarto que ocorrem sutilmente todos os eventos sobrenaturais.

A originalidade de Atividade Paranormal é fruto de sua sutileza. A trama nos envolve gradativamente, não apenas ao nos informar aos poucos os problemas de Katie, mas também ao nos revelar os pequenos eventos sobrenaturais que cada vez perturbam mais o casal. Não vemos nenhum monstro, demônio ou fantasma; o que vemos são cenas que parecem extremamente possíveis de acontecer na realidade: uma porta batendo, passos na escada, sombras aparecendo, etc. Ao não dar uma face ao demônio que persegue a personagem feminina, o filme demonstra sagacidade, pois está mexendo com nossa imaginação, a qual é capaz de nos assustar mais do que qualquer monstro cinematograficamente físico. Essa ferramenta já foi utilizada em outros longas, como em Bebê de Rosemary; nessa película, Polansky não dá um rosto ao filho do diabo, o que fertiliza nossa mente e nos perturba mais do que uma aberração concreta. Outro trunfo de Atividade Paranormal é quebrar com os clichês do terror. Durante vários momentos, após algum manifesto fantasmagórico, a câmera procura evidências em lugares como atrás da cortina, e tubulações de ar. Em outras ocasiões, durante cenas mais enérgicas, a câmera passa rapidamente por espelhos. Seqüências como essas são um prato cheio para ornar o filme com habituais sustos; no entanto, a película prefere não o fazer, escolha que a torna muito mais realista. Além disso, ao escolher esse caminho, a fita brinca com nossa mente, pois ela conhece todos os pontos comuns de uma obra de terror. Assim, somos induzidos a pensar que há algum ser atrás da cortina ou dentro da tubulação de ar e, conseqüentemente, assustamo-nos.

Atividade Paranormal vai nos assustando de forma gradativa. No decorrer do filme, envolvemo-nos com a trama e nos perturbamos com sua direção. O longa acaba de forma brusca, sendo que não há os habituais créditos que nos lembram que tudo aquilo é apenas uma película. Sendo assim, vamos para nossas casas ainda sob a mórbida atmosfera da obra. Ao chegarmos em nossas residências é quando a obra tem maior impacto; é como se estivéssemos dentro dela. Quem que assistiu à fita e não teve medo de ter seu pé puxado por alguma força estranha? Confesso que tive. Ontem minha namorada se levantou para buscar água. No longa, Katie se ergue da cama e fica em pé olhando estaticamente Micah durante horas. Tenho que admitir que as semelhanças me incomodaram um pouco (obviamente minha namorada não ficou estática observando-me, mas mesmo assim aquilo me assustou). O quarto ao qual estamos tão acostumados toma formas sombrias após Atividade Paranormal, e é essa a maior qualidade da película.

Atividade Paranormal é um dos melhores filmes de terror a que já assisti. O longa inteligentemente mexe com nosso imaginário, sabendo que esse é mais poderoso que qualquer recurso estético cinematográfico. Além disso, a verossimilhança presente nos permite construir pontes que conectam a película à realidade, o que pode nos perturbar durante noites.

PS: A série “soco no estômago” não acabou; ela terá sempre sua presença garantida aqui no it was RED.

sábado, 28 de novembro de 2009

soco no estômago 04: Laranja Mecânica, o peso e a leveza, a evolução de minha cinefilia

Laranja Mecânica (A Clockwork Orange, 1971)
Direção: Stanley Kubrick
Roteiro: Stanley Kubrick, Anthony Burgess
Antes de inicar meu humilde retrato sobre mais um magnífico flagelo do meu espírito, gostaria de compartilhar com vocês um pensamento. Atualmente estou lendo A insustentável leveza do ser, um excelente livro de Milan Kundera. O romance enriquece a história de quatro personagens ao flertar com a filosofia, fazendo referências a famosos pensadores, como Nietzche e Descartes, além de abordar delicados assuntos de uma forma singular. Alguns devem estar pensando: “Mas isso é um blog de cinema! Por que diabos ele está falando sobre literatura e filosofia?”. Acalmem-se, queridos leitores. Um dos principais pensamentos desse livro é a relação entre e o peso e a leveza do ser. Ilustrarei essa idéia com uma passagem da obra.

“Mas será mesmo atroz o peso e bela a leveza?
“O mais pesado dos fardos nos esmaga, verga-nos, comprime-nos contra o chão. Na poesia amorosa de todos os séculos, porém, a mulher deseja receber o fardo do corpo masculino. O mais pesado dos fardos é, portanto, ao mesmo tempo a imagem de realização vital mais intensa. Quanto mais pesado é o fardo, mais próxima da terra está nossa vida, e mais real e verdadeira ela é.
“Em compensação, a ausência total de fardo leva o ser humano a se tornar mais leve do que o ar, leva-o a voar, a se distanciar da terra, do ser terrestre, a se tornar semi-real, e leva seus movimentos a ser tão livres como insignificantes.
“O que escolher, então? O peso ou a leveza?”.
“... Só uma coisa é certa. A contradição pesado/leve é a mais misteriosa e a mais ambígua de todas as contradições.”.

É exatamente assim que me sinto em relação à sétima arte. Obras que perturbam e ferem minha alma, estão esmagando-me contra o solo. Ao ser comprimido, sinto-me vivo e é nesse ponto que reside minha paixão pelo cinema. Meus filmes prediletos são aqueles que, quando assisto, fazem jorrar da tela uma torrente de emoções a qual me envolve e acende em mim a luz de minha existência, tornando-me mais vivo naquele momento. Ao mesmo tempo em que esse pensamento explica meu fascínio por certas películas, ele ilustra meu desgosto por outras. Os longas que me provocam repulsa, em geral, são aqueles formados por uma natureza leve. Infelizmente, a cena mainstream cinematográfica é constituída de um vazio imensurável; o fantasma da ignorância está assombrando a maioria das salas de projeção do mundo todo (se Porto Alegre for culturalmente uma pequena amostragem do que ocorre no resto do globo). As fitas que se formam dessa leveza não me tocam em nada (minto, elas me provocam desprezo). A falta de apreço nasce da total ausência de peso que elas trazem, pois quando às assisto, sinto minha existência se aproximar à de uma folha de papel. Enfim, o bom cinema é aquele que me faz viver.

O peso das obras da sétima arte não vem, necessariamente, em forma de flagelos ao espírito. Essa é apenas uma das faces que estou abordando, devido ao tema da série a qual pertence esse texto. Há facetas as quais são outros sentimentos aparentemente ruins: tristeza, confusão, náusea, etc. Parece estranho, mas um filme que faz alguém chorar é normalmente considerado por esse alguém uma excelente obra; isso ocorre porque esse alguém apenas sentiu sua existência mais real.

Obviamente, meu gosto cinematográfico não se limita apenas a filmes pesados. Como disse em “soco no estômago 03”, minha preferência cinéfila é pseudo-antagônica (quem quiser entender, leia o texto – é só clicar no título que citei anteriormente). Obras mais leves - como The Rocky Horror Picture Show (1975), por exemplo - também me agradam. Por quê? Não sei explicar ao certo. Como Milan Kundera disse: “... Só uma coisa é certa. A contradição pesado/leve é a mais misteriosa e a mais ambígua de todas as contradições.”.

Terminado meu devaneio, vamos ao filme. Laranja Mecânica é uma polêmica película de Stanley Kubrick que foi baseada no livro homônimo de Anthony Burgess. A obra, que se passa no futuro, mostra o rumo da mente de Alex, o protagonista da película. Inicialmente ele é um vândalo. Em um de seus atos, a personagem principal é presa e, na cadeia, é escolhida para um novo tratamento que promete recuperar os delinqüentes. O novo método é uma espécie de lavagem cerebral, a qual varrerá toda a violência contida na mente dos prisioneiros.

Aí está o ponto principal do filme, ao analisar os aspectos da manipulação da mente humana. A história é muito bem explorada, ao mostrar as várias conseqüências do controle sobre o intelecto humano. O que pensariam os religiosos, os políticos, os policiais e os intelectuais? A trama consegue percorrer pelos caóticos caminhos resultantes da intervenção no livre-arbitrio. O roteiro também é enriquecido pela inserção de neologismos nas falas das personagens.

Essa história extremamente bem elaborada foi ilustrada com maestria por Kubrick. Laranja Mecânica é um filme visualmente incrível! O caótico futuro descrito no roteiro torna-se ainda mais desordenado nas mãos do diretor: as cores jorram na tela, os figurinos são bizarríssimos - como a peruca da mãe de Alex -, o cenário é incrível, e a câmera capta todas as ações com destreza. Outro ponto forte da película é a magnífica atuação de Alex, além da excelente trilha sonora, que conta com composições de Beethoven. Além disso, o filme possui um rítmo incrível: a obra, em momento algum, perde sua fluidez, pois estamos, a todo o momento, sendo flagelados por sua original extravagância estética e por seu turbulento roteiro.

Stanley Kubrick

Considerei o filme perturbador, devido à violência explícita que ocorre principalmente no início do longa, como na cena em que o grupo de Alex invade uma residência para praticar um pouco da velha ultra-violence. Tudo é feito com muita crueldade, porém de forma natural. Lá eles estupram uma mulher e espancam seu marido enquanto cantam alegremente “Singing in the rain” - uma canção que, na película homônima, é uma clara demonstração de alegria. Em Laranja Mecânica a canção tem a mesma função: mostrar a felicidade. Mas agora, essa não é mais fruto do amor por uma mulher, mas sim do prazer de prejudicar o próximo. Além dessa, há outras cenas que devem ter perturbado muito a alguns espectadores. Um exemplo é uma seqüência na qual Alex ouve Beethoven no seu quarto, e lá há uma escultura com vários Jesuses dançando com a habitual feição de sofrimento. É uma passagem discreta, mas deve ter mexido com muitos.


(SPOILER) Um dos grandes momentos do filme é quando Alex - após ter sua mente lavada, sua liberdade adquirida e seu corpo surrado - vaga perdido pelas ruas e procura abrigo, acidentalmente, na mesma casa onde havia estuprado uma mulher e espancado seu marido. Para sua sorte, ele estava mascarado na data do ataque, assim, o propriétario da casa - que agora está em uma cadeira de rodas, devido aos golpes que levara naquele trágico dia – não o reconheceu e o ajudou. Alex vai a uma banheira para se recuperar, e lá, tomado por uma incontrolável alegria, começa a cantarolar novamente “Singing in the rain”. O senhor, reconhecendo a voz do cantor, sofre uma espécia de ataque nervoso. A cena é genial, devido ao modo com o qual ela lentamente toma forma. A situação vai gradualmente agravando-se, ao mesmo tempo em que a cantoria de Alex aumenta de volume; no fim, tudo culmina na brilhantemente filmada (pseudo)convulsão do pobre senhor.

Laranja Mecânica critica a tudo e a todos: vândalos, políticos, religiosos, intelectuais que defendem os vândalos, e conservadores que os acusam. Essa película é uma das melhores que já vi, no entanto, não consigo dizer que ela é a obra-prima de Kubrick, pois fico entre essa e a visualmente extasiante 2001: A Space Odyssey.

Acima de um excelente trabalho, considero Laranja Mecânica uma obra importantíssima na minha vida, pois ela me ensinou algumas lições sobre cinema. A primeira vez que assisti ao longa, há dois anos atrás, odiei-o. Aquilo era apenas um filme comprido, chato, que ia do nada ao lugar nenhum. Isso havia ocorrido por simplesmente um motivo: eu não havia compreendido a obra. Na época, estava começando a me interessar por cinema e resolvi alugar o filme. Errei ao escolher essa película para compor o início de minha cinefilia, pois Laranja Mecânica é um filme de difícil acesso: é uma obra violenta, crua, excêntrica, esteticamente vibrante (o que é estranho para alguém que não está acostumado) e com um anti-herói como protagonista. Imaginem isso para alguém que está apenas engatinhando no mundo do cinema, para alguém que era fã de Adam Sandler (Sim! Eu era fã do Adam Sandler!), Rob Schneider e qualquer outro ator que aparecesse em comédias pastéis. Minha namorada, Stephanie, é testemunha do meu péssimo gosto da época, além da minha completa incapacidade de assistir a algo mais sério do que aquilo. Um simples filme policial já era o suficiente para me deixar completamente entediado, fazendo com que eu me distanciasse da tela. Há dois anos atrás, a indirença quanto à maioria dos filmes não era devido ao vazio desses, mas sim a minha falta de percepção.

Há vezes em que não gosto de um filme devido ao vazio desse, mas há outras nas quais meu desgosto é apenas uma conseqüência da minha incompreensão daquilo que deveria ser compreendido. Essa última afirmativa (“incompreensão daquilo que deveria ser compreendido”) pode parecer redundande, mas não é. Há casos em que o cineasta intencionalmente confunde o espectador ao não expressar uma interpretação irrefutável – como nas obras de David Lynch, realizador do qual sou fã -, mas também há vezes em que simplesmente não conseguimos absorver a riqueza das obras de interpretação aproximadamente linear (quando assisti pela primeira vez a Laranja Mecânica, por exemplo). Além desses dois acontecimentos, há um terceiro, o qual nasce da falta de capacidade de não assimilar a existência de idéias que não eram para ser necessariamente compreendidas (como quem, ao ver algum filme de Lynch, não compreende a inexistência de uma verdade semântica absoluta).

Laranja Mecânica me ensinou a escutar meu bom senso, a saber o porquê de minha indiferença quanto a algumas obras. O período de dois anos pode parecer pequeno, mas para mim não foi. Nesse tempo pesquisei longas e cineastas, procurei na internet listas e listas de importantes obras, fui a locadoras com uma listagem dessas fitas na mão e perguntava filme por filme aos atendentes (era uma lista de 5 páginas; alías, ainda é, pois ainda não assisti a todas as películas que nela estão); fui cada vez me apaixonando mais por cinema, e assim o it was RED nasceu. Ao invés de engatinhar, começo a esboçar os primeiros passos de minha cinefilia, no entanto, estou longe de conseguir caminhar com total desenvoltura, de correr pelo mundo da sétima-arte. Espero um dia chegar lá.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Selo

Recentemente, Fotograma Digital me presenteou com mais um selo. Primeiramente gostaria de agradecer ao blog, não apenas pelo selo, mas também pela sua constante participação aqui no "it was RED". Como escolhido, devo repassar o selo para outros 10 blogs. Assim como em outras vezes, preocupei-me bastante com a qualidade dos indicados, a fim de tornar o selo uma referência de excelência. Os selecionados são alguns blogs que descobri recentemente e outros os quais eu já acompanhava há algum tempo, no entanto, eu ainda não havia repassado selo algum a eles. Sem mais delongas, os escolhidos foram:


  1. Cinema e Eu

  2. Museu do Cinema

  3. Diz que fui eu aí...

  4. Cinecabeça

  5. Plano-Sequência

  6. Um olhar além da tela

  7. TUDO [é] Crítica

  8. Cinema sem tempo

  9. Cenas de Cinema

  10. Cinema

Os escolhidos devem repassar o selo para outros 10 blogs. Abraço e parabéns a todos!

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

soco no estômago 03: Lady Vingança (Chan-wook Park, Trilogia da Vingança e meus antagonismos)

Lady Vingança (Chinjeolhan geumjassi, 2005)
Direção: Chan-wook Park
Roteiro: Seo-Gyeong Jeong, Chan-wook Park

Chan-wook Park é o autor da Trilogia da Vingança, composta por Mr. Vingança (2002), Oldboy (2003) e Lady Vingança (2005). As três obras têm em comum, além do tema principal, o uso excessivo da violência. O estilo exagerado do diretor foi criticado por alguns no seu novo filme, Thirst (2009). Ao contrário dos que criticaram, sou seduzido pela falsidade presente na obra do cineasta.

O diretor me faz refletir sobre os possíveis antagonismos presentes no meu gosto pela sétima arte. Ora encanto-me com o realismo presente nas obras de Bergman, ora sou seduzido pelo universo onírico presente na obra de David Lynch; maravilho-me com os golpes que Gaspar Noé dá na minha alma, mas também amo a delicadeza das películas de Almodóvar; fico extasiado com a densidade dos filmes de Godard, porém, mesmo assim, adoro ver The Rocky Horror Picture Show (1975) e ficar cantarolando as músicas desse excelente musical. Mas seria isso um ato antagônico? Provavelmente sim. Entretanto, encaro essa contradição como um evento natural, pois, caso contrário, iria apenas desfrutar de uma parcela ínfima das obras cinematográficas; ficaria restrito à apenas um estilo; seria, culturalmente, o pior tipo de cego existente.

Chan-wook Park


Já li a respeito de uma semelhança entre Quentin Tarantino e Chan-wook Park, essa refletida principalmente na comparação entre Lady Vingança e Kill Bill. O estado-unidense e o sul-coreano têm em comum apenas o tema violência. As semelhanças acabam por aí, pois cada um trata de uma maneira essa ampla temática. Quentin dá uma intenção humorística aos seus filmes, enquanto que Park visa o lirismo, através da fotografia de extrema beleza e da trilha sonora igualmente formosa. Quanto a Lady Vingança e Kill Bill, ambos tratam sobre mulheres que buscam vingança. Naquele, temos o olhar de um diretor que vê a violência de forma poética; nesse, temos a visão do cineasta que olha a violência de forma divertida.

A Trilogia da Vingança traz algumas idéias em comum, como a dos dois tipos de seqüestro: o bom e o ruim. O que beneficia é aquele que mantém o refém intacto e o devolve à família em troca de uma quantia de dinheiro que não fará falta a ela; com o reecontro, familiares e seqüestrado se aproximam e o amor existente entre eles cresce. Além disso, os seqüestradores ganham o dinheiro. Assim, todos saem ganhando. O que prejudica é aquele que tem como final a morte do seqüestrado. Desse modo, a família tem a perda de um ente querido e os seqüestradores acabam presos.

Lady Vingança é o meu filme predileto da Trilogia da Vingança. Apesar de ter o roteiro um pouco menos engenhoso do que Oldboy e Mr. Vingança, a película é a que contém o tom mais poético. Dessa forma, é como se fossemos atingidos na alma por uma flor, mas uma flor que fere. É esse romper do falso paralelo violência/lirismo que me seduziu na película que encerra a trilogia.

O longa-metragem mostra a história de Geum-ja Lee (Yeong-ae Lee), que ficou presa durante treze anos devido à falsa acusação de homicídio de um garoto para ocultar o verdadeiro culpado, seu ex-namorado Baek. No presídio Geum-ja Lee arquiteta um plano para se vingar do ex-namorado e, com seu objetivo em mente, ela busca a simpatia de cada um através de favores para que, desse modo, todos possam colaborar com seu plano.

Quando Geum-ja Lee é libertada, ela pretende colocar em prática tudo o que arquitetou. A protagonista, que antes era uma moça recatada, tornou-se uma mulher ativa. Essa mudança ocorre também no modo como ela se veste, o que é mostrado diversas vezes durante o longa, como quando a personagem principal é indagada sobre sua maquiagem. “Geum-ja Lee, por que essa sombra vermelha?”. Vermelho: a cor do sangue. Acredito que a cor não fora escolhida por acaso.




O maior choque que levamos é durante a vingança de Geum-ja Lee. (SPOILER)A protagonista consegue capturar seu ex-namorado e junta evidências de que quem matou o menino foi ele. As provas são filmes que o assassino gravava sempre antes de matar as crianças, além de objetos pessoais das vítimas os quais ele guardava. A personagem principal reúne os pais das crianças e o policial responsável pelo caso para mostrar a eles as fitas. É absurdamente chocante. O cineasta não deixa escapar nada: ele exibe sem piedade o assassinato das crianças e, ao mesmo tempo, revela a dor dos pais, tudo isso feito com muita criatividade. Após os pais terem assistido às filmagens, eles perguntam para que o seqüestrador queria o dinheiro. A resposta: para comprar um iate. Silêncio é a reação dos abalados pais. Então, a protagonista pergunta a eles e ao policial o que deveriam fazer com o assassino: deixar nas mãos da polícia e da justiça, ou permitir que eles realizassem sua vingança? O interessante é que Park tenta tornar a situação extremamente real. Cada um começa com uma opinião; há casais que já se separaram; existem os mais sedentos por vingança, mas também os mais cautelosos estão presentes. O mais instigante é a questão moral levantada. O que você faria? Eu não tenho filhos, mas imagino que não deve ser a melhor sensação do mundo assistir à execução de um. Ao dirigir a pergunta aos pais, Geum-ja Lee pede uma resposta a mim, a ti e a quem assiste ao filme. Após alguma discussão, é decidido que eles mesmos resolveriam o problema. Mas aí se encontra outra questão: quem será o primeiro a saciar sua sede por vingança? Com questionamentos como esses, Park aproxima arte da realidade. (FIM DO SPOILER).

Durante Lady Vingança, as personagens são postas frente a vários questionamentos morais. Será que a vingança resolve alguma coisa? Não seria apenas uma paixão que arde e que, após saciada, teria o seu lugar tomado por um imenso vazio? O que é moralmente correto? Chan-wook Park comunica-se com seu público ao pontuar seu filme com esses problemas.



Lady Vingança é um singular soco no estômago: poético, emocionante e dolorido. A película aparentemente se contradiz, pois, simultaneamente, mostra um universo exagerado e realista. No entanto, é esse antagonismo que me encanta. Lady Vingança é um filme antagônico, assim como nós.


PS: A série "soco no estômago" ainda não acabou, pois outras postagens com o mesmo tema virão. Gostaria que vocês sugerissem filmes para eu incluir na série, assim como fez Marcos Ribeiro, do blog Epipocando, que sugeriu Elephant - brilhante obra de Gus van Sant a qual brevemente será comentada aqui. Abraço a todos os leitores!

terça-feira, 10 de novembro de 2009

soco no estômago 02: Anticristo

Anticristo (Antichrist, 2009)
Direção: Lars von Trier
Roteiro: Lars von Trier



Antichrist é a última e controversa obra do nada humilde Lars von Trier, dinamarquês que se considera o melhor diretor do mundo. O cineasta foi responsável por Dogville (2003) – um filme que, apesar de aclamado pela crítica e público, pouco me agradou -, O Grande Chefe (2006) – uma película interessante -, além de ser um dos idealizadores do movimento cinematográfico internacional Dogma 95.

Lars von Trier


A película em questão conta a história do casal anônimo protagonizado por Willem Dafoe e Charlotte Gainsbourg que, durante uma calorosa transa, não percebe que o filho deles sai do berço em direção à janela e se joga dela. A cena é de uma beleza singular, contrastando com seu horror semântico e com o resto do filme: a explícita exibição da sexualidade existente entre os dois ocorre em slow motion, preto e branco, com o casal de baixo de um chuveiro; a água cai lentamente, a câmera foca o prazer no rosto das personagens, além de estabelecer semelhanças corporais entre a queda da criança e a transa do casal. A fração inical de Antichrist mostra detalhadamente a penetração durante a relação do casal, incomodando os mais puritanos. Esses não sabiam o que os esperavam.


A mulher é quem mais sofre com a perda da criança, e é esse sofrimento que Lars quer mostrar para nós. O homem, que é psicólogo, tenta tratar a mulher do modo o qual ele acha que é certo, mesmo que para isso seja necessário contrariar os outros médicos. Pronto. As personagens foram construídas e Lars preparado para, não nos fazer mergulhar em um mundo sombrio, mas nos afogar nele. É nesse universo que está o maior trunfo, mas também o maior prejuízo do filme.

SEMPRE que alguém fala sobre Antichrist eu escuto a mesma coisa: “E aquela cena em que ele faz isso? E naquela que ela faz aquilo? E na outra que acontece isso?”. A obra ficou conhecida pela grande maioria apenas por suas cenas fortes. A fama das perturbadoras seqüências é tão grande que se sobrepõe a da própria película. O que vejo em vários espectadores é que eles fecharam os olhos para a grandiosidade da obra, tornando essa apenas uma pausa entre uma cena chocante e outra. Não estou dizendo que as cenas perturbadoras são ruins; pelo contrário, as acho geniais. Mas é uma grande perda ignorar o resto da obra.

Uma das cenas que chocou as platéias foi a da raposa falando com a personagem de Dafoe. Antes de assistir a película eu já tinha conhecimento dessa seqüência e esperava que ela fosse um desastre. Como uma fala proferida por uma raposa poderia ser assustadora? Imaginava algo completamente computadorizado, de uma falsidade que, ao invés de me assustar, me faria rir. Surpreendemente a cena que vi foi muito aterrorizante e natural. As palavras ditas pela raposa (“Chaos reigns”) acompanham um movimento que seria verossímil na boca do animal.

Mas mais do que as cenas chocantes, Antichrist perturba pelo seu clima pesado. A obra é muito escura e, nas cenas que são rodadas dentro do apartamento do casal, conseguimos sentir perfeitamente a atmosfera do local. Diria que é possível até sentir aquele cheiro de ambiente fechado com um clima de tristeza. Além da atmosfera, o drama psicológico enfrentado pela personagem de Charlotte Gainsbourg atingiu-me em cheio. Que significado teria tua sexualidade após teres perdido teu único filho durante uma transa? Trier responde a essa pergunta com maestria. Não é por acaso que o cineasta escreveu o roteiro durante uma crise de depressão. Antichrist é, acima de um excelente soco no estômago, a melhor obra que assisti de Lars von Trier.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

soco no estômago 01: Seul contre tous (x Irréversible)

Sozinho contra todos (Seul contre tous, 1998)
Direção: Gaspar Noé
Roteiro: Gaspar Noé



Para que vemos filmes? Para que apreciamos a arte? Ora, eu o faço procurando que as mais diversas emoções sejam despertadas em minha alma: tristeza, felicidade, ansiedade, perturbação... Pretendo nos próximos 3 posts (ou mais) dar uma atenção especial às obras cinematográficas que provoquem a última emoção citada. Sou um apreciador do cinema-perturbador, pois, como disse Chan-wook Park, se tu queres te sentir bem não vá ver um filme, mas vá a um SPA. Entretanto, as películas não devem abalar o espírito apenas por abalar; deve haver um objetivo com isso, mesmo que esse seja abstrato, afinal, cinema é arte. Digo isso, pois há inúmeros filmes que se valem de imagens fortes que buscam apenas atrair o espectador para, assim, encher os bolsos das produtoras.

O primeiro selecionado é Seul contre tous, obra-prima de Gaspar Noé. O diretor, que é um adepto do cinema-escroto, tem Irréversible (2002) como seu filme de maior sucesso. Essa película choca pelas imagens fortes (vide as famosas cenas do extintor e do estupro). Entretanto, por mais pertubador que seja assistir uma mulher sendo violentada durante quase 10 minutos, por mais horrível que seja olhar um homem ter sua cabeça esmagada por um extintor, esse desconforto é momentâneo. Já em Seul contre tous, temos nosso espírito ferido de um modo diferente.


A primeira película de Noé começa declarando que deveriam ser feitos filmes sobre homens comuns. O diretor franco-argentino resolve esse problema ao selecionar um açougueiro sem nome (Philippe Nahon) para protagonizar seu longa. O homem de meia-idade é aparentemente um sujeito comum, porém, isso é apenas uma ilusão. Ele é um indivíduo completamente perturbado, e é esse lado que é exibido para o expectador em Seul contre tous.

Gaspar Noé
Em poucos minutos, Gaspar nos informa a biografia do homem de 50 anos, orfão cuja mãe o abandonou e o pai morreu na 2ª Guerra Mundial. O protagonista teve sua virgindade consumida ao ter sido estuprado por um docente em nome de Jesus. Após aprender o ofício de açougueiro e abrir seu próprio negócio, ele conhece uma jovem trabalhadora têxtil e tira-lhe a virgindade em um hotel localizado em frente da fábrica onde ela trabalhava. Esse acontecimento resultaria em uma filha, Cynthia. A mãe não quer saber da criança, deixando-a para o pai cuidar. O indivíduo é atraído sexualmente pela menina ao ver as transformações que ela sofre durante a puberdade. Após achar que ela foi violentada por um pedreiro, ele assassina quem ele supõe que abusou de sua garota, mas tira a vida da pessoa errada. A personagem principal é presa e a filha vai para um conservatório. Após libertado o pai solteiro vai trabalhar em um café, onde ele começa a se relacionar com a dona do estabelecimento. A mulher engravida, vende a instalação e hospeda o açougueiro em sua casa. Lá ele vive com sua sogra e sua mulher.
Noé, em poucos minutos, nos conta toda a trajetória do açougueiro, a qual renderia um filme inteiro. Mas por que, ao invés de filmar a parte mais agitada da vida desse homem, Gaspar decide mostrar um momento de sua existência aparentemente menos turbulento? Digo que o cineasta tenta mostrar a parte normal de um homem normal. No entanto, a aparência pacata é apenas uma maquiagem que cobre um ser repleto de uma filosofia completamente negativista. Durante o longa, somos metralhados com idéias perturbadoras, que abrem feridas em nossos espíritos. Essas, ao contrário de em Irréversible, continuam sangrando após o término do filme.

Philippe Nahon interpretou excelentemente o açougueiro perturbado. Somos presenteados com sua brilhante atuação durante todo o longa, pois o que assistimos é praticamente um monólogo. Philippe encarna de maneira esplêndida um homem que é ao mesmo tempo aparentemente comum e psicologicamente perturbado, com raiva de tudo e de todos: homossexuais, negros, imigrantes, empresários, etc.

Sou obrigado a comentar o final de Seul contre tous, parcela a qual é responsável pela maior ferida que abre o filme abre. O próprio diretor nos adverte do perigo que corremos ao assistir o desfecho ao mostrar na tela: “Você tem 30 segundos para abandonar a sala de projeção”. Assim começa a contagem regressiva para o maior soco no estômago cinematográfico que levaria na minha vida. (SPOILER). O açougueiro resolve buscar sua filha no reformatório e levá-la para o mesmo quarto de hotel em que desvirginou sua mulher. Lá ele resolve violentar sua filha e depois matá-la. Ele dispara um tiro em seu pescoço. A garota agoniza no chão. O pai está desesperado, não sabe o que fazer. Vendo o desespero da filha o homem dá outro tiro nela, acabando com seu sofrimento. O homem resolve se matar. Pestaneja, não sabe o que fazer. Batem na porta do quarto para saber o que está acontecento. O homem começa a se assustar. Somos bombardeados com vários pensamentos da personagem, uma espécie de síntese de todo negativismo contido na película. O açougueiro decide se matar. Bum!

(SPOILER) Entretanto, tudo não passou de uma alucinação. A personagem interpretada por Philippe Nahon tinha apenas imaginado como seria matar a filha e se matar depois. O açougueiro se arrepende de ter pensado nesse possível futuro. Ele abraça sua filha, diz que a ama mais do que tudo. Inicialmente achamos que estamos diante de um amor paterno, mas o abraço começa a se prolongar e beijos começam a ser dados. Percebemos que não estamos mais diante de uma relação normal entre pai e filha. Nos é mostrado o açougueiro acariciando as coxas de Cynthia, exatamente como fizera com sua mãe. O filme acaba com um discurso do protagonista, defendendo a relação entre ele e sua menina, justificando que, se o tipo de amor entre eles é proibido, é porque é grande demais para as pessoas aceitarem. Fim. Tudo acaba como se fosse normal. Noé deixa uma sensação de que tudo é pacato ao filmar, durante a exposição do raciocínio do açougueiro, uma sucessão de eventos banais: uma estrada com crianças brincando e carros passando. No entanto, o amor entre Cynthia e seu pai não tem nada de regular! Está aí a maior ferida de todas! Gaspar, ao intencionalmente banalizar a bizarra relação entre o protagonista e sua filha, parece querer encaixar uma peça errada em um quebra-cabeça, e isso incomoda. E muito!(FIM DO SPOILER)

Seul contre tous é muito perturbador. Após vê-lo fiquei dois dias com seu clima mórbido. Essa genial obra deveria ser assistida por todos!

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Inglourious Basterds e Tarantino

Bastardos Inglórios (Inglourious Basterds, 2009)

Direção: Quentin Tarantino

Roteiro: Quentin Tarantino





Um músico amigo meu certa vez disse que um grande compositor é aquele que consegue agradar desde o mais erudito fã de música até o indivíduo que não tem nenhum conhecimento musical. Como exemplo ele citou Tom Jobim, falando que praticamente todos conhecem e apreciam suas composições. Uma prova disso é que, durante uma tarde em que estudava, meu amigo ouviu sua empregada cantando distraidamente “Garota de Ipanema”.


Se Tom Jobim conseguiu isso na música, Quentin Tarantino o fez no cinema. Uma prova desse fato é Inglourious Basterds: o cineasta conseguiu agradar desde o mais “erudito” cinéfilo, até o mais simples acompanhante da cena mainstream da sétima arte.


Tarantino faz parte dos "Cineastas do VCR”, uma geração de cineastas que não frequentou faculdades e que teve como escola a cinefilia. Outro profissional do cinema que faz parte desse grupo é Paul Thomas Anderson, amigo do diretor. Quentin afirmou que, se Inglourious Basterds foi um grande filme, em parte, é por culpa de There will be blood – último filme de p.t.a -, pois a qualidade dessa obra é um insentivo para ele realizar uma película à altura.


No entanto, assim como há quem não goste de Tom Jobim – não por falta de conhecimento, mas apenas por uma questão de gosto –, há quem não goste de Tarantino. Minha relação com o diretor beira o antagonismo. Ora amo seus filmes, ora eles não me agradam. Não diria que desgosto dele, pois sou fã de Pulp Fiction, me apaixonei por Inglourious Basterds e gostei muito de Reservoir Dogs. Apesar disso, não diria que ele é um dos meus diretores prediletos, pois Kill Bill e Jackie Brown não me agradaram.


O novo filme do diretor é uma singular releitura da Segunda Guerra Mundial na qual ele colocou todos os elementos característicos presentes em sua filmografia: o rítmo ágil do filme manifesta-se em várias cenas, como na cena da taverna – uma seqüência genial, na qual, em poucos segundos (literalmente), o rumo da cena é totalmente deslocado; os diálogos ousados e elaborados nos divertem e nos atraem em takes que, apesar de longos, não nos cansam em momento algum; e as referências a cultura pop aproximam o espectador do conflito reinventado por Quentin.



Duas atuações em Inglourious Basterds são dignas de destaque. Brad Pitt está muito bom no papel de Aldo Raine, entretanto, ele é ofuscado por Christoph Waltz, ganhador do prêmio de melhor ator no Festival de Cannes. Christoph está genial no papel de Hans Landa, o coronel que é conhecido pelo apelido “The Jew Hunter” (o caçador de judeus). O educado e excêntrico poliglota é responsável por cenas inesquecíveis.


Outra qualidade de Inglourious Basterds é o modo com o qual a obra transforma pequenas ações em atos imponentes, como na cena em que Shosanna (Mélanie Laurent) prepara o projetor para sabotar a grande estréia do filme "Orgulho da nação". Tarantino fez cada simples movimento realizado pela atriz parecer grandioso. Alguém poderia dizer que isso ocorre apenas devido ao encadeamento de idéias, pois aqueles feitos seriam cruciais para o destino da guerra; no entanto, o que torna a cena tensa é muito mais do que o contexto, é a maneira com a qual a cena foi feita e filmada. Quentin consegue deixar o espectador completamente tenso com um simples puxar de alavanca.


Tarantino se redimiu com Inglourious Basterds, pois, desde Pulp Fiction, o cineasta não realizava nada REALMENTE bom. O seu último longa é excelente e muito divertido. Essa é a obra-prima de Quentin, como o diretor dá a entender na cena final com a fala de Brad Pitt “I think this is my masterpiece”. Não lembro de ter me empolgado tanto com a película de 1994.

domingo, 11 de outubro de 2009

Giulietta, Fellini e Noites de Cabíria

Noites de Cabíria (Le notti di Cabiria, 1957)

Direção: Federico Fellini



Roteiro: Federico Fellini
Ennio Flaiano
Tullio Pinelli
Pier Paolo Pasolini
Maria Molinari




Quem foi o maior diretor de todos os tempos? Embora eu acredite que essa questão não tenha uma solução, a essa pergunta muitos dariam a mesma resposta: Federico Fellini. Esse importantíssimo cineasta foi o responsável por Noites de Cabíria, uma das minhas películas prediletas. A obra mostra as andanças de Cabíria, brilhantemente interpretada por Giulietta Masina – uma das minhas atrizes prediletas, se não A predileta – pelas ruas de Roma. O diretor casou-se com a atriz em 1942, permanecendo com ela até 1993, ano em que o mundo se despediu do mestre do cinema.

Como em todas as obras de Fellini que assisti até agora (81/2, La Strada, La dolce vita e I clowns), Le Notti di Cabiria possui um ar circense o qual é evidenciado ao longo do filme através de alguns elementos, como o show de ilusionismo, os músicos da cena final, a trilha sonora que remete a temas circenses e o show em um bar.


A parceria Giullieta–Federico teve sua estréia no cinema em La Strada. Fellini adorou a atuação de Masina, mas os produtores estavam preocupados com a aparência da atriz, a qual não possuía os atributos físicos esperados de uma protagonista da época. Com a insistência do diretor, Masina conseguiu o papel.

Federico Fellini e Giulietta Masina

Em Le Notti di Cabiria, Masina se identificou muito com a personagem principal e talvez esse seja o motivo de uma atuação tão magistral. Le Notti di Cabiria é o melhor trabalho de Fellini que já vi. O grande diferencial do filme é sua protagonista. Cabíria, apesar de ser uma prostituta, carrega um ar de menina consigo. Quando ela insulta, parece uma criança emburrada; quando está feliz, não consegue esconder sua satisfação; quando está triste, é incapaz de segurar as lágrimas . Masina encarnou perfeitamente essa fantástica personagem; foi uma das melhores atuações que já tive a oportunidade de ver.


A inocência de Cabíria nos é exibida durante todo o longa. Sua ingenuidade aparece na primeira cena da película. A protagonista é apresentada como uma garota que acaba de ser roubada e abandonada por seu namorado, e é nesse momento que conhecemos a relação entre a personagem principal e o amo: essa acredita na existência desse na sua mais perfeita forma.


Há uma cena em que Cabíria encontra um ator famoso o qual , após uma briga com sua companheira, resolve sair com a protagonista. É lindo quando ela demonstra seu fascínio infantil diante da situação ao se deslumbrar com o glamour do mundo dos artistas e sair gritando para todos que está com uma celebridade; quando seus olhos brilham como os de uma criança ao perceber que está dentro da mansão de um astro do cinema; quando ela observa todo luxo contido naquela residência e compara inocentemente com sua humilde casinha.


Na cena em que ela vai a um show de ilusionismo, é magnífico como ela se deixa convencer a subir no palco, como ela cai nos encantos do ilusionista e se irrita com a platéia que ri da sua situação. Essa cena se revela uma das mais belas da obra. Cabíria sobe ao palco e é hipnotizada. O ilusionista a faz acreditar que ela está em um belo parque na companhia de um homem. Cabíria fica muito feliz, seu rosto esboça um sorriso sincero e puro; ela está tranqüila, tudo está bem; tudo está como deveria estar. O ilusionista, vendo que mexeu com o lado sensível de uma garota que está procurando um companheiro, a faz acordar. Quando ela desperta, percebe que tudo não passou de uma ilusão e enxerga todos rindo dela. A cena é brilhantemente construída; o tempo todo nos é mostrado apenas o local onde ocorre o espetáculo, no entanto, conseguimos ver e sentir o que Cabíria vê e sente. Fellini é genial ao transmitir de maneira perfeita os sentimentos que a protagonista experimenta.

Cabíria sendo hipnotizada

Há uma cena de caráter crítico/reflexivo que é mais discreta, mas me chamou muito a atenção. Após uma prossição em louvor à Virgem Maria na qual todos fizeram promessas, acenderam velas, gritaram e rezaram calorosamente em nome da santa, Cabíria e seus amigos se reúnem ao lado de fora da igreja. Cabíria, com a inocência de uma criança, exclama indignadamente que todos continuaram iguais. Após rezarem, gritarem, chorarem, se amontoarem e esmagarem uns aos outros dentro da igreja, tudo continuou igual; ninguém mudou. Uma cena discreta, mas que faz uma bela crítica à relação entre seres humanos e religião.


Le Notti di Cabiria é um filme genial. Masina consegue interpretar perfeitamente a contradição de uma criança em corpo de mulher que, devido ao acaso ou à miséria, virou uma prostituta; a relação desse paradoxo ambulante com o amor e as pessoas, além da sua inserção em uma sociedade torta e tumultuada. Genial.

sábado, 26 de setembro de 2009

Um selo e um pedido de desculpas

Primeiramente gostaria de me desculpar pela minha ausência; essa semana foi bastante puxada na faculdade. Em breve estarei postando novamente.

Sobre o selo: recentemente ganhei um do blog Fotograma Digital (valeu, Alexandre!). Então, o repassarei para 10 blogs; alguns deles descobri recentemente. Me preocupei bastante com a qualidade dos selecionados, portanto, parabéns a todos!








quinta-feira, 24 de setembro de 2009

The Rocky Horror Picture Show - Horrivelmente sexy

The Rocky Horror Picture Show (1975)
Direção: Jim Sharman
Roteiro: Richard O'Brien e Jim Sharman




Hoje escolhi para comentar um dos meus filmes prediletos (preferência evidenciada no canto superior esquerdo desse blog) : The Rocky Horror Picture Show. A obra, baseada na peça homônima de Richard O'Brien, é um musical rock que satiriza os gêneros terror e ficção científica. O longa é composto por canções excelentes; a cada vez que o assisto, gosto mais dele.


O filme conta a história de um típico casal estadosunidense, Brad (Barry Bostwick) e Janet (Susan Sarandon). Completamente esterotipados, a mulher está toda hora a gemer “Oh Brad!” com sua comunzíssima voz de donzela norte-americana de filme hollywodiano; enquanto isso, o homem, que também atua de forma canastrona, é o típico macho que acha que sempre tem o controle da situação.

De cara já nos é revelado o tom sátirico-músical da obra; logo após a abertura da 20th Century Fox, escutamos a canção “Science fiction/ Double Feature”, enquanto é exibido na tela o nome dos responsáveis pela obra em letras cujas fontes remetem a filmes B de terror - filmes B eram a segunda metade de sessões duplas (Double Feature) de cinema; assim, a música nos revela que iremos assistir segunda metade de uma sessão dupla de ficção científica -. Após isso há o casamento entre Brad e Janet, que nos é mostrado enquanto os dois cantam calorosamente a música “Dammit, Janet”, contrastando com a inexpressividade dos camponeses ao redor. A próxima cena nos apresenta o narrador criminologista do longa (Charles Gray), um ser bizarro que nos revela, em um tom toscamente aterrorizante, que o casal sairia para visitar um amigo, o Dr. Everett Von Scott (Jonathan Adams).

Mostrando novamente Brad e Janet, os vemos furarem um pneu do carro durante a viagem em um intenso temporal, assim eles são obrigados a parar. Em busca de ajuda, os dois acabam encontrando o esteriótipo de um castelo mal-assombrado. Enquanto se aproximam do quintal, o casal canta alegremente “There is a light over at the Frankenstein place” (Há uma luz na casa de Frankenstein), achando que a sorte havia sorrido para eles ao encontrar uma ajuda, mas estavam enganados. A música simboliza esse equívoco, ao contrapor luz – um claro símbolo de esperança, alegria – e casa de Frankenstein – algo assustador, sombrio -.

Ao entrarem no castelo é que The Rocky Horror Picture Show realmente começa. O casal é recebido pelo bizarríssimo Riff Raff (Richard O'Brien), o mórbido corcunda empregado do castelo. O criado abre a porta para o casal, que escuta barulhos, como os de uma festa. Magenta (Patricia Quinn), outra criada, surge do nada e, com isso, Riff Raff começa a cantar uma das melhores músicas da obra: “Time Warp”. Enquanto o excêntrico corcunda canta e caminha pelo castelo, nos é exibido o cenário composto por esqueletos, cortinas escuras e empoeiradas, teias de aranha e animais empalhados. Na hora do refrão, Riff Raff abre uma porta e nos deparamos com a Convenção Anual dos Transilvanians.







Transilvanians: os figurantes dançando e cantando "Time Warp"

Preciso de um parágrafo só para os figurantes que interpretam os transilvanians; eles merecem, pois são de importância fundamental para o tom tosco de The Rocky Horror Picture Show. Onde é que encontraram pessoas tão bizarras? Na minha vida, nunca vi um grupo de indivíduos tão estranho. Há um anão, um homem/ mulher (não sei o que aquele ser é) que parece o Joey Ramone, velhas absurdamente esquisitas, além de outras espécies singulares. Não há como descrever toda a extravagância contida naqueles sujeitos. Se já não bastasse serem bizarros por natureza, eles trajam um figurino completamente tosco, barato, de má qualidade; as vestes são formadas por chapéus de festa, um chapéu de pirata (aquele com a caveira), chapéus pequeníssimos e mega-coloridos, além de excêntricos óculos escuros . Os mesmos figurantes que aparecem nessa cena (e em outras partes do filme que acontecem dentro do castelo) foram utilizados no início do filme (pelo menos alguns deles), na seqüência do casamento.

Durante a mesma cena ocorre outra repetição de atores, dessa vez com Richard O'Brien – que interpreta Riff Raff -, o qual atua como um dos inexpressivos camponeses. No entanto, essa repetição aparenta ser intencional, já que, dentro do castelo, instantes antes da música “Time Warp” começar a ser cantada, observamos um quadro no qual está pintado Riff Raff e uma mulher, ambos trajados como camponeses.


Em “Time Warp” temos a aparição de Columbia, outra criada, que faz um solo de sapateado completamente malfeito. Além disso, há a participação do narrador criminologista nessa canção, o qual canta e nos mostra didaticamente a dança. Assustada com o clima exótico, Janet pretende fugir, mas Brad não, pois achava que tinha o controle da situação. Enquanto discutem, os dois encontram a genial personagem interpretada por Tim Curry: Dr. Frank-N-Furter.





Sem Dr. Frank-N-Furter, The Rocky Horror Picture Show não seria nada. Ele é a alma do filme, a qual traz o tom sexual da obra. Tim Curry fez uma das melhores interpretações que eu já vi na minha vida. Mick Jagger queria interpretar o papel, mas felizmente não conseguiu. Ao entrar em cena, a personagem, enquanto rebola, canta “Sweet transvestite”, revelando que é um travesti que veio do planeta Transexual, da galáxia Transilvânia. Porra! Genial! Ele é um extraterrestre gay! Como se isso não bastasse, ele também está construindo um “monstro” (que, na verdade, se trata de Rocky, um bonitão criado para fins sexuais), como Frankstein (o que já havia sido ilustrado anteriormente na canção “Over at the Frankenstein place”).

O filme se desenrola de uma maneira surpreendentemente trash, com seus figurinos toscos, atuações canastronas, cenários mal feitos, referências a Capela Sistina, David de Michelangelo e tantas outras obras, os aparatos tecnológicos (como o oscilador sônico, por exemplo) e suas brilhantes canções que não saem da cabeça. Um dos exemplos da trashice da obra é quando Dr. Frank-N-Furter mergulha em uma piscina e, após sair, tem sua tatuagem muito borrada, ficando assim por um bom tempo. O estilo trash revela-se também nas constantes as passagens de cenas feitas de maneira completamente tosca, como na qual a nova seqüência escorre como sangue pela tela.

The Rocky Horror Picture Show é um filme para se assistir milhares de vezes. Sua simplicidade, sensualidade, excêntricidade e qualidade musical me conquistaram e fizeram essa obra entrar para a minha lista.

OBS: No site do fã clube, há uma notícia de que a MTV planeja fazer um remake de The Rocky Horror Picture Show. Como fã do filme, acho impossível que a nova versão se iguale à original.



quinta-feira, 17 de setembro de 2009

O segundo selo

Ganhei meu segundo selo, novamente do grande parceiro Cinemótica, blog que eu tenho que agradecer pelo imenso apoio que vem me dando. Valeu Cinemótica! Tenho como dever repassar esse selo para 15 blogs. A seguir, estão os blogs que, junto com o Cinemótica, formam o time dos melhores blogs sobre cinema que conheço.



Portal Cinema
CinePipocaCult
Os Filmes
Letters from Louis
Cinema, música, filosofia e mais alguns egoísmos
Sala de Arte
Cinema - Filmes e Seriados
Acento Negativo
Publicando!
Blog do Salomão
Cineroad
BS Movies
Epipocando
ClubCinéfilo
Cinema Rodrigo

terça-feira, 15 de setembro de 2009

A primeira vez a gente não esquece

Ganhei meu primeiro selo! O responsável pela minha primeira vez foi o blog Cinemótica, um blog muito interessante, que sempre comenta ótimos filmes! Muito obrigado Cinemótica! O blog está com uma proposta muito interessante: criar um Clube do filme virtual. A idéia foi baseada no livro Clube do filme (livro interessante para os cinéfilos). Achei a idéia muito boa e pretendo participar. Para quem quiser conferir: http://awardmovies.blogspot.com/2009/09/um-selo-uma-ideia-e-uma-estreia-bem.html .

Outro ganhador do selo foi o blog Cinema Rodrigo e, para minha total surpresa, ele me deu o selo novamente; ou seja, ganhei o selo duas vezes! Obrigado Cinema Rodrigo!





Voltando a falar sobre o selo, é meu dever repassar esse para outros blogs. Escolhi os melhores blogs que eu acompanho; TODOS, sem exceção, vale a pena conferir. Sem mais delongas, aqui vão eles:

- Acento Negativo

- Receio de Remorso

- Cinema – Filmes e Seriados

- Sala de Arte

- Blog do Salomão

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Quase famosos - Em busca do cool

Quase Famosos (Almost Famous, 2000)
Direção: Cameron Crowe
Roteiro: Cameron Crowe
1973. Elaine Miller (Frances McDormand) é uma professora universitária que impõem aos seus filhos suas inflexíveis regras, como celebrar o Natal em setembro e proibir o Rock dentro de sua residência. Diante desse quadro, sua filha Anita Miller (Zooey Deschanel) foge de casa para ser aeromoça e deixa para seu irmão William (Patrick Fugit) sua bela coleção de discos de rock.

Aos 15 anos, William escreve críticas amadoras sobre o estilo. Lester Bangs (Philip Seymour Hoffman) – crítico que existiu na vida real -, após ver os textos do garoto, o ajuda dando conselhos. Ele diz para o jovem aspirante ser “honesto e impiedoso” ao escrever sobre uma banda e não criar um laço de amizade com essa. Durante um encontro entre William e Lester Bangs, esse faz uma afirmação que muita gente faz atualmente: “o rock está morto”. Não se esqueça que a história se passa em 1973! Se nessa época o consagrado estilo estava morto, imagine hoje! A lição que se tira disso é que, em qualquer época, sempre haverá alguém dizendo: “Rock is dead”.

William é convidado pela revista Rolling Stone para cobrir a turnê do Stillwater, banda fictícia que o diretor Cameron Crowe criou baseado em três grupos dos quais ele gostava: Led Zeppelin, Allman Brothers e Lynyrd Skynyrd. Com isso, o garoto conhece os Stillwater – ignorando o aviso de Lester, ele se aproxima dos integrantes - e a garota Penny Lane (Kate Hudson) – que existiu na vida real -, pela qual se apaixona. Aí começa o envolvimento do protagonista com a tríade sexo, drogas e Rock’n Roll.

Quase famosos mostra superficialmente as relações familiares (durante o longa vemos a preocupação da mãe Elaine Miller com o filho William, além da relação dessa com sua filha Anita), mas seu maior enfoque é no Rock. O longa exibe a relação do estilo tão consagrado com as drogas - uma ligação que se revela de extrema importância-, o valor da imagem no mundo da música e a distância entre ídolo e fan.

Rock + drogas: A relação é ilustrada durante todo o longa, mas destaca-se na cena na qual o guitarrista do Stillwater, Russell Hammond (Billy Crudup), toma ácido durante uma festa e sobe no telhado. Lá, após gritar “I am a golden god!” (eu sou um deus dourado) – episódio inpirado em uma história com Robert Plant, vocalista do Led Zeppelin – ele diz que vai se jogar em uma piscina que se encontra logo abaixo. Antes de pular Russel diz suas “últimas palavras”, declarando que está totalmente chapado. As pessoas da festa respondem calorosamente a sua manifestação. Gritam, aplaudem, assobiam. O guitarrista decide repensar suas “últimas palavras” e as substitui, dizendo apenas que gosta de música. O resultado da nova despedida foi apenas alguns sussurros e aplausos desanimados. Vendo a decepção do “público”, Russel re-substitui sua “despedida”, falando novamente que está chapado. A recepção das pessoas é tão calorosa quanto a primeira. Nessa cena fica nítida a fundamental importância das drogas no Rock. Importância que, segundo o filme, chega a sobrepor-se à própria música.


A distância entre o fan e o ídolo e a busca por uma imagem: A seqüência na qual Lester conversa ao telefone com William retrata a relação entre fans e os ídolos. Eles discutem sobre o papel do fan, que sempre acaba querendo ser como seus ídolos, ter a mesma imagem cool que eles têm. No entanto, Lester afirma que, mesmo achando que se é um deles, você não é. Se por um lado temos os fans em busca de uma imagem cool, pelo outro temos a banda com o mesmo objetivo. Há uma cena na qual o Stillwater pede para William, ao retratar a banda, o garoto a faça parecer cool, apenas isso. Quase famosos ilustra a obsessão por uma imagem que deixa novamente a música em segundo plano.

Durante o filme, notei que Patrick Fugit aparentava interpretar mal a personagem William, principalmente em uma cena na qual esse discute com Penny Lane. Nessa parte ele deveria demonstrar fúria, mas o fez muito mal. No entanto, minha segunda impressão foi diferente. Percebi que a “má atuação” demonstrava a impotência de William diante de situações novas, a falta de experiência de um garoto de 15 anos que se depara com problemas reais. Essa “má atuação” pode ter sido intencional da parte de Patrick Fugit, ou, ao selecionar os atores, essa característica foi notada e ele foi selecionado.

É impossível comentar Quase famosos sem dizer que a película é baseada na história do próprio diretor Cameron Crowe. O roteiro conta com situções reais vividas por alguns nomes do Rock. Além da já citada cena que se baseou em uma história vivida por Plant, a cena do avião é baseada em uma viagem com o The Who. Também não posso deixar de falar sobre a parte na qual as personagens cantam Tinny Dancer, de Elton John. A música é linda e a cena foi muito bem realizada. Diria que é o melhor momento do filme.

Cameron Crowe mostra através dessa obra um Rock’n Roll que é deixado de lado pelo glamour das drogas e a busca por uma imagem. É um filme interessante, mas não explorou ao máximo os assuntos abordados.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Império dos sonhos - Lynch na sua melhor forma

Império dos Sonhos (Inland Empire, 2006)
Direção: David Lynch
Roteiro: David Lynch

Cinema e literatura são artes muito próximas; por isso, me agrada muito um filme que consegue separar um do outro, ou seja, transformar a sétima arte em uma experiência visual. Isso acontece em Império dos Sonhos, um dos meus filmes prediletos em geral e, com certeza, o melhor de David Lynch. Inland Empire é cinema de verdade.


Gosto muito das obras de David Lynch que vi até agora (falta A Estrada Perdida (1997)). O cineasta possui um estilo diferenciado, uma maneira única de fazer cinema, pois ele se desprende do racional e explicável. Apenas ele poderia realizar seus filmes; ninguém consegue criar aquele clima tenso com cenas surreais, característico de sua filmografia. Tensão é uma sensação que Lynch passa como ninguém, com o auxílio da dramaticidade de suas luzes e os ruídos sempre presentes nas cenas.

Antes de realizar Império dos Sonhos, suas películas possuíam um elo com a razão. Nesse longa - que foi inteiramente filmado com câmera digital - isso não acontece; o diretor foi mais longe do que nunca, pois não há explicação para a obra. Apesar disso, há quem procure um sentido para ela, mas qualquer interpretação não passa de uma mera especulação; cada um cria a sua. Eu, sinceramente, me recuso a criar uma, pois isso tiraria todo o sentido do filme.

Inland Empire conta a história de Nick (Laura Dern), uma atriz que vai interpretar Susan Blue em uma refilmagem de uma produção polonesa cujos protagonistas morreram durante a gravação. Ela é casada com um homem poderoso que alerta Devon, ator sedutor que interpretará Billy Side e contracenará com Nick, para não se envolver com essa. Com o início das filmagens, ela começa a confundir sua vida com a da sua personagem, abrido portas para um confuso universo ilustrado por Lynch com corredores, jogos de luzes, coelhos em uma sala, cortinas vermelhas e outros objetos que, com o toque do cineasta, transformam o filme em uma experiência visual nunca vista antes.

Quem gosta e quem não gosta de Império dos Sonhos tem o mesmo argumento: “Mas isso não faz sentido! Três horas de uma coisa completamente irracional!”. O lado de quem aprecia: com essa proposta, Lynch abre portas para um cinema completamente diferente, no qual não podemos explicar tudo. Ficar racionalizando o que o cineasta faz é destruir completamente sua obra, porque Império dos Sonhos é um filme para se sentir: não há porquês. Aí está toda a magia da obra: abandonando o racional, ele deixa as sensações fluirem na tela.


O nome do blog "it was RED" faz referência a uma das falas desconexas de um dos coelhos de Inland Empire

Digo que Inland Empire é um longa que tem Lynch na sua melhor forma, pois, assistindo a obra, percebemos que diretor gozou de total liberdade para realiza-la, para por toda sua criatividade e ousadia na tela. Nunca a dramaticidade de sua luz foi tão intensa; nunca seu experimentalismo foi tão longe; nunca houve uma experiência visual tão enérgica quanto essa. Diria que nenhum filme, nem Un chien Andalou (Luis Buñuel, 1929) e Eraserhead (David Lynch, 1979), conseguiu tratar, com tamanha maestria, do universo surreal. Aliás, surreal é uma palavra que se encaixa prefeitamente a obra lynchiana. Império dos Sonhos é mais do que um simples filme: é uma experiência única.

PS: Sugiro que para quem não conhece o cineasta não começar por Império dos Sonhos, mas por um longa mais coerente.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

O mais emocionante que já assisti

Ingmar Bergman (1918 - 2007)



Outro cineasta o qual venho assistindo bastante ultimamente é Ingmar Bergman. As obras vistas foram: Persona (1966), A flauta mágica (1975), Sonata de Outono (1978) e Sarabanda (2003). Gostei de todos, com exceção de um: A flauta mágica. O motivo? É uma ópera, porra! Não gosto de óperas, mas apesar disso resolvi assisti-la para descobrir mais sobre o cineasta. Teimei e paguei o preço. No entanto, sobre os outros longas só tenho elogios a dizer. Gostei muito de Persona e Sonata de outono; ambos irão para minha lista. Sarabanda, apesar de um ótimo filme, não me conquistou tanto.


Sonata de Outono, Persona, Sarabanda (Closes nos rostos das personagens)


Persona, Sonata de Outono e Sarabanda têm muitas semelhanças entre si, tanto em aspectos técnicos como na história. Todos têm momentos bem marcantes com câmera estática e apresentam closes no rosto das personagens, além das conversas dessas com a câmera/espectador; a presença de Liv Ullmann, a musa de Bergman - o cineasta teve uma filha com a atriz, além de dirigir 10 filmes com ela, sendo o primeiro Persona -; a temática do conflito pscicológico e dos pais que rejeitam secretamente os filhos. Apesar das semelhanças, cada filme tem seu diferencial. Enquanto Persona mostra o conflito entre duas mulheres, Sarabanda expõe as conseqüências da morte da mãe em uma família e Sonata de Outono é o comovente retrato de uma tumultuada relação entre mãe e filha. Nesse post comentarei Sonata de Outono.





Sonata de Outono (Höstsonaten, 1978)

Direção: Ingmar Bergman
Roteiro: Ingmar Bergman




O filme retrata o reencontro após sete anos entre a mãe Charlotte (Ingrid Bergman) - uma pianista famosa - e a filha Eva (Liv Ullmann) – uma mulher tímida e deprimida. Eva, que é casada com Viktor (Halvar Björk), cuida da irmã deficiente mental Helena (Lena Nyman), a qual é rejeitada por Charlotte. Parece uma história simples com tudo para ser piegas, dramalhão, mas Bergman torna-a uma obra genial sobre relacionamentos familiares e conflitos psicológicos.

Durante o reencontro a tumultuada relação que se esconde atrás de sorrisos e gentilezas entre Charlotte e Eva nos é revelada. O desentedimento entre mãe e filha é primeiramente visto por nós - de uma forma implícita, através de gestos das personagens - na cena em que as duas tocam piano. A discóridia entre elas é explicitada na discussão que ocorre após o pesadelo de Charlotte, o qual acontece como um prenúncio do caos, da explosão que está por vir.

A crescente maneira na qual os conflitos são exibidos, além de envolver o espectador, evidencia a excelente dinâmica da película. É interessante notar que as ações do filme se restringem apenas a conversas entre mãe e filha dentro de uma casa, ou seja, alguém poderia dizer que se trata de um longa parado. No entanto, esse não é o caso. Os diálogos bem escritos, as excelentes atuações e a delicada direção tornam o filme uma obra prima.

É possível notar na obra a delicada fotografia com cores vermelha, verde e amarela, remetendo ao outono, estação na qual ocorre a história. Bergman optou por uma direção mais discreta nesse longa e acertou em cheio, pois se fosse diferente o filme ficaria provavelmente exagerado e com certeza não tão comovente. Digo com total segurança que Sonata de outono foi o filme mais emocionante que já assisti. E tu, qual foi o filme que mais te emocionou?






terça-feira, 11 de agosto de 2009

Sobre "Los olvidados" e Buñuel

Os esquecidos (Los olvidados, 1950)

Direção: Luis Buñuel

Roteiro: Luis Alcoriza e Luis Buñuel





Nos três últimos dias tive uma overdose de Luis Buñuel, grande cineasta mexicano que tem seu nome associado às origens do cinema surrealista. Os filmes que assisti foram: Un Chien Andalou (1929), L’Age d’Or (1930), Los olvidados (1950) e Subida Al Cielo (1951). Minha maior expectativa era quanto ao primeiro; infelizmente, o curta metragem que tem Salvador Dali como roteirista não me agradou, assim como L’Age d’Or e Subida Al Cielo. Para comentar escolhi o que mais me agradou: Los olvidados, longa que rendeu a Buñuel o prêmio de melhor diretor no Festival de Cannes de 1951.






Logo na abertura o narrador anuncia o tom de denúncia da película, ao nos falar sobre a pobreza escondida nas grandes metrópoles, como a cidade do México, local onde é ambientada a história. Em um bairro pobre, nos é mostrado um grupo de garotos que conversa sobre “Jaibo”, jovem que tinha acabado de fugir do reformatório. O fugitivo se reúne com o grupo e, juntos, eles planejam assaltar um cego. Mais tarde, “Pedro” (um dos garotos) se junta a “Ojitos”, um menino que foi abandonado. Em certo momento, “Pedro” presencia um assassinato cometido por “Jaibo”, fato em torno do qual gira a obra.

O olhar pessismista e cruel de Buñuel me encantou com cenas como a do sonho de “Pedro” (para mim a melhor do filme), o assalto ao cego e várias outras que não direi para não estragar a surpresa. O longa revela a realidade da pobreza no México ao contrastar a população (“Pedro” em trabalho semi-escravo empurra um carrocel enquanto outra criança anda no brinquedo), mostrar a violência nas ruas e expor a covardia existente em cada um. Tecnicamente é possível notar um recurso que foi bastante utilizado em Los olvidados: algumas cenas as personagens vêm em direção à câmera e a atravessam (na parte em que as crianças brincam de toureiro, por exemplo - olhar o vídeo de 2:38 a 2:44).





Pretendo conhecer o resto da filmografia de Buñuel. Enquanto não a conheço, digo que o meu predileto do cineasta é Los olvidados. Durante 91 minutos me foi mostrado uma violenta sociedade onde ninguém é isento de culpa, fato que torna o filme realista. Excelente obra!