8 it was RED: Novembro 2009

sábado, 28 de novembro de 2009

soco no estômago 04: Laranja Mecânica, o peso e a leveza, a evolução de minha cinefilia

Laranja Mecânica (A Clockwork Orange, 1971)
Direção: Stanley Kubrick
Roteiro: Stanley Kubrick, Anthony Burgess
Antes de inicar meu humilde retrato sobre mais um magnífico flagelo do meu espírito, gostaria de compartilhar com vocês um pensamento. Atualmente estou lendo A insustentável leveza do ser, um excelente livro de Milan Kundera. O romance enriquece a história de quatro personagens ao flertar com a filosofia, fazendo referências a famosos pensadores, como Nietzche e Descartes, além de abordar delicados assuntos de uma forma singular. Alguns devem estar pensando: “Mas isso é um blog de cinema! Por que diabos ele está falando sobre literatura e filosofia?”. Acalmem-se, queridos leitores. Um dos principais pensamentos desse livro é a relação entre e o peso e a leveza do ser. Ilustrarei essa idéia com uma passagem da obra.

“Mas será mesmo atroz o peso e bela a leveza?
“O mais pesado dos fardos nos esmaga, verga-nos, comprime-nos contra o chão. Na poesia amorosa de todos os séculos, porém, a mulher deseja receber o fardo do corpo masculino. O mais pesado dos fardos é, portanto, ao mesmo tempo a imagem de realização vital mais intensa. Quanto mais pesado é o fardo, mais próxima da terra está nossa vida, e mais real e verdadeira ela é.
“Em compensação, a ausência total de fardo leva o ser humano a se tornar mais leve do que o ar, leva-o a voar, a se distanciar da terra, do ser terrestre, a se tornar semi-real, e leva seus movimentos a ser tão livres como insignificantes.
“O que escolher, então? O peso ou a leveza?”.
“... Só uma coisa é certa. A contradição pesado/leve é a mais misteriosa e a mais ambígua de todas as contradições.”.

É exatamente assim que me sinto em relação à sétima arte. Obras que perturbam e ferem minha alma, estão esmagando-me contra o solo. Ao ser comprimido, sinto-me vivo e é nesse ponto que reside minha paixão pelo cinema. Meus filmes prediletos são aqueles que, quando assisto, fazem jorrar da tela uma torrente de emoções a qual me envolve e acende em mim a luz de minha existência, tornando-me mais vivo naquele momento. Ao mesmo tempo em que esse pensamento explica meu fascínio por certas películas, ele ilustra meu desgosto por outras. Os longas que me provocam repulsa, em geral, são aqueles formados por uma natureza leve. Infelizmente, a cena mainstream cinematográfica é constituída de um vazio imensurável; o fantasma da ignorância está assombrando a maioria das salas de projeção do mundo todo (se Porto Alegre for culturalmente uma pequena amostragem do que ocorre no resto do globo). As fitas que se formam dessa leveza não me tocam em nada (minto, elas me provocam desprezo). A falta de apreço nasce da total ausência de peso que elas trazem, pois quando às assisto, sinto minha existência se aproximar à de uma folha de papel. Enfim, o bom cinema é aquele que me faz viver.

O peso das obras da sétima arte não vem, necessariamente, em forma de flagelos ao espírito. Essa é apenas uma das faces que estou abordando, devido ao tema da série a qual pertence esse texto. Há facetas as quais são outros sentimentos aparentemente ruins: tristeza, confusão, náusea, etc. Parece estranho, mas um filme que faz alguém chorar é normalmente considerado por esse alguém uma excelente obra; isso ocorre porque esse alguém apenas sentiu sua existência mais real.

Obviamente, meu gosto cinematográfico não se limita apenas a filmes pesados. Como disse em “soco no estômago 03”, minha preferência cinéfila é pseudo-antagônica (quem quiser entender, leia o texto – é só clicar no título que citei anteriormente). Obras mais leves - como The Rocky Horror Picture Show (1975), por exemplo - também me agradam. Por quê? Não sei explicar ao certo. Como Milan Kundera disse: “... Só uma coisa é certa. A contradição pesado/leve é a mais misteriosa e a mais ambígua de todas as contradições.”.

Terminado meu devaneio, vamos ao filme. Laranja Mecânica é uma polêmica película de Stanley Kubrick que foi baseada no livro homônimo de Anthony Burgess. A obra, que se passa no futuro, mostra o rumo da mente de Alex, o protagonista da película. Inicialmente ele é um vândalo. Em um de seus atos, a personagem principal é presa e, na cadeia, é escolhida para um novo tratamento que promete recuperar os delinqüentes. O novo método é uma espécie de lavagem cerebral, a qual varrerá toda a violência contida na mente dos prisioneiros.

Aí está o ponto principal do filme, ao analisar os aspectos da manipulação da mente humana. A história é muito bem explorada, ao mostrar as várias conseqüências do controle sobre o intelecto humano. O que pensariam os religiosos, os políticos, os policiais e os intelectuais? A trama consegue percorrer pelos caóticos caminhos resultantes da intervenção no livre-arbitrio. O roteiro também é enriquecido pela inserção de neologismos nas falas das personagens.

Essa história extremamente bem elaborada foi ilustrada com maestria por Kubrick. Laranja Mecânica é um filme visualmente incrível! O caótico futuro descrito no roteiro torna-se ainda mais desordenado nas mãos do diretor: as cores jorram na tela, os figurinos são bizarríssimos - como a peruca da mãe de Alex -, o cenário é incrível, e a câmera capta todas as ações com destreza. Outro ponto forte da película é a magnífica atuação de Alex, além da excelente trilha sonora, que conta com composições de Beethoven. Além disso, o filme possui um rítmo incrível: a obra, em momento algum, perde sua fluidez, pois estamos, a todo o momento, sendo flagelados por sua original extravagância estética e por seu turbulento roteiro.

Stanley Kubrick

Considerei o filme perturbador, devido à violência explícita que ocorre principalmente no início do longa, como na cena em que o grupo de Alex invade uma residência para praticar um pouco da velha ultra-violence. Tudo é feito com muita crueldade, porém de forma natural. Lá eles estupram uma mulher e espancam seu marido enquanto cantam alegremente “Singing in the rain” - uma canção que, na película homônima, é uma clara demonstração de alegria. Em Laranja Mecânica a canção tem a mesma função: mostrar a felicidade. Mas agora, essa não é mais fruto do amor por uma mulher, mas sim do prazer de prejudicar o próximo. Além dessa, há outras cenas que devem ter perturbado muito a alguns espectadores. Um exemplo é uma seqüência na qual Alex ouve Beethoven no seu quarto, e lá há uma escultura com vários Jesuses dançando com a habitual feição de sofrimento. É uma passagem discreta, mas deve ter mexido com muitos.


(SPOILER) Um dos grandes momentos do filme é quando Alex - após ter sua mente lavada, sua liberdade adquirida e seu corpo surrado - vaga perdido pelas ruas e procura abrigo, acidentalmente, na mesma casa onde havia estuprado uma mulher e espancado seu marido. Para sua sorte, ele estava mascarado na data do ataque, assim, o propriétario da casa - que agora está em uma cadeira de rodas, devido aos golpes que levara naquele trágico dia – não o reconheceu e o ajudou. Alex vai a uma banheira para se recuperar, e lá, tomado por uma incontrolável alegria, começa a cantarolar novamente “Singing in the rain”. O senhor, reconhecendo a voz do cantor, sofre uma espécia de ataque nervoso. A cena é genial, devido ao modo com o qual ela lentamente toma forma. A situação vai gradualmente agravando-se, ao mesmo tempo em que a cantoria de Alex aumenta de volume; no fim, tudo culmina na brilhantemente filmada (pseudo)convulsão do pobre senhor.

Laranja Mecânica critica a tudo e a todos: vândalos, políticos, religiosos, intelectuais que defendem os vândalos, e conservadores que os acusam. Essa película é uma das melhores que já vi, no entanto, não consigo dizer que ela é a obra-prima de Kubrick, pois fico entre essa e a visualmente extasiante 2001: A Space Odyssey.

Acima de um excelente trabalho, considero Laranja Mecânica uma obra importantíssima na minha vida, pois ela me ensinou algumas lições sobre cinema. A primeira vez que assisti ao longa, há dois anos atrás, odiei-o. Aquilo era apenas um filme comprido, chato, que ia do nada ao lugar nenhum. Isso havia ocorrido por simplesmente um motivo: eu não havia compreendido a obra. Na época, estava começando a me interessar por cinema e resolvi alugar o filme. Errei ao escolher essa película para compor o início de minha cinefilia, pois Laranja Mecânica é um filme de difícil acesso: é uma obra violenta, crua, excêntrica, esteticamente vibrante (o que é estranho para alguém que não está acostumado) e com um anti-herói como protagonista. Imaginem isso para alguém que está apenas engatinhando no mundo do cinema, para alguém que era fã de Adam Sandler (Sim! Eu era fã do Adam Sandler!), Rob Schneider e qualquer outro ator que aparecesse em comédias pastéis. Minha namorada, Stephanie, é testemunha do meu péssimo gosto da época, além da minha completa incapacidade de assistir a algo mais sério do que aquilo. Um simples filme policial já era o suficiente para me deixar completamente entediado, fazendo com que eu me distanciasse da tela. Há dois anos atrás, a indirença quanto à maioria dos filmes não era devido ao vazio desses, mas sim a minha falta de percepção.

Há vezes em que não gosto de um filme devido ao vazio desse, mas há outras nas quais meu desgosto é apenas uma conseqüência da minha incompreensão daquilo que deveria ser compreendido. Essa última afirmativa (“incompreensão daquilo que deveria ser compreendido”) pode parecer redundande, mas não é. Há casos em que o cineasta intencionalmente confunde o espectador ao não expressar uma interpretação irrefutável – como nas obras de David Lynch, realizador do qual sou fã -, mas também há vezes em que simplesmente não conseguimos absorver a riqueza das obras de interpretação aproximadamente linear (quando assisti pela primeira vez a Laranja Mecânica, por exemplo). Além desses dois acontecimentos, há um terceiro, o qual nasce da falta de capacidade de não assimilar a existência de idéias que não eram para ser necessariamente compreendidas (como quem, ao ver algum filme de Lynch, não compreende a inexistência de uma verdade semântica absoluta).

Laranja Mecânica me ensinou a escutar meu bom senso, a saber o porquê de minha indiferença quanto a algumas obras. O período de dois anos pode parecer pequeno, mas para mim não foi. Nesse tempo pesquisei longas e cineastas, procurei na internet listas e listas de importantes obras, fui a locadoras com uma listagem dessas fitas na mão e perguntava filme por filme aos atendentes (era uma lista de 5 páginas; alías, ainda é, pois ainda não assisti a todas as películas que nela estão); fui cada vez me apaixonando mais por cinema, e assim o it was RED nasceu. Ao invés de engatinhar, começo a esboçar os primeiros passos de minha cinefilia, no entanto, estou longe de conseguir caminhar com total desenvoltura, de correr pelo mundo da sétima-arte. Espero um dia chegar lá.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Selo

Recentemente, Fotograma Digital me presenteou com mais um selo. Primeiramente gostaria de agradecer ao blog, não apenas pelo selo, mas também pela sua constante participação aqui no "it was RED". Como escolhido, devo repassar o selo para outros 10 blogs. Assim como em outras vezes, preocupei-me bastante com a qualidade dos indicados, a fim de tornar o selo uma referência de excelência. Os selecionados são alguns blogs que descobri recentemente e outros os quais eu já acompanhava há algum tempo, no entanto, eu ainda não havia repassado selo algum a eles. Sem mais delongas, os escolhidos foram:


  1. Cinema e Eu

  2. Museu do Cinema

  3. Diz que fui eu aí...

  4. Cinecabeça

  5. Plano-Sequência

  6. Um olhar além da tela

  7. TUDO [é] Crítica

  8. Cinema sem tempo

  9. Cenas de Cinema

  10. Cinema

Os escolhidos devem repassar o selo para outros 10 blogs. Abraço e parabéns a todos!

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

soco no estômago 03: Lady Vingança (Chan-wook Park, Trilogia da Vingança e meus antagonismos)

Lady Vingança (Chinjeolhan geumjassi, 2005)
Direção: Chan-wook Park
Roteiro: Seo-Gyeong Jeong, Chan-wook Park

Chan-wook Park é o autor da Trilogia da Vingança, composta por Mr. Vingança (2002), Oldboy (2003) e Lady Vingança (2005). As três obras têm em comum, além do tema principal, o uso excessivo da violência. O estilo exagerado do diretor foi criticado por alguns no seu novo filme, Thirst (2009). Ao contrário dos que criticaram, sou seduzido pela falsidade presente na obra do cineasta.

O diretor me faz refletir sobre os possíveis antagonismos presentes no meu gosto pela sétima arte. Ora encanto-me com o realismo presente nas obras de Bergman, ora sou seduzido pelo universo onírico presente na obra de David Lynch; maravilho-me com os golpes que Gaspar Noé dá na minha alma, mas também amo a delicadeza das películas de Almodóvar; fico extasiado com a densidade dos filmes de Godard, porém, mesmo assim, adoro ver The Rocky Horror Picture Show (1975) e ficar cantarolando as músicas desse excelente musical. Mas seria isso um ato antagônico? Provavelmente sim. Entretanto, encaro essa contradição como um evento natural, pois, caso contrário, iria apenas desfrutar de uma parcela ínfima das obras cinematográficas; ficaria restrito à apenas um estilo; seria, culturalmente, o pior tipo de cego existente.

Chan-wook Park


Já li a respeito de uma semelhança entre Quentin Tarantino e Chan-wook Park, essa refletida principalmente na comparação entre Lady Vingança e Kill Bill. O estado-unidense e o sul-coreano têm em comum apenas o tema violência. As semelhanças acabam por aí, pois cada um trata de uma maneira essa ampla temática. Quentin dá uma intenção humorística aos seus filmes, enquanto que Park visa o lirismo, através da fotografia de extrema beleza e da trilha sonora igualmente formosa. Quanto a Lady Vingança e Kill Bill, ambos tratam sobre mulheres que buscam vingança. Naquele, temos o olhar de um diretor que vê a violência de forma poética; nesse, temos a visão do cineasta que olha a violência de forma divertida.

A Trilogia da Vingança traz algumas idéias em comum, como a dos dois tipos de seqüestro: o bom e o ruim. O que beneficia é aquele que mantém o refém intacto e o devolve à família em troca de uma quantia de dinheiro que não fará falta a ela; com o reecontro, familiares e seqüestrado se aproximam e o amor existente entre eles cresce. Além disso, os seqüestradores ganham o dinheiro. Assim, todos saem ganhando. O que prejudica é aquele que tem como final a morte do seqüestrado. Desse modo, a família tem a perda de um ente querido e os seqüestradores acabam presos.

Lady Vingança é o meu filme predileto da Trilogia da Vingança. Apesar de ter o roteiro um pouco menos engenhoso do que Oldboy e Mr. Vingança, a película é a que contém o tom mais poético. Dessa forma, é como se fossemos atingidos na alma por uma flor, mas uma flor que fere. É esse romper do falso paralelo violência/lirismo que me seduziu na película que encerra a trilogia.

O longa-metragem mostra a história de Geum-ja Lee (Yeong-ae Lee), que ficou presa durante treze anos devido à falsa acusação de homicídio de um garoto para ocultar o verdadeiro culpado, seu ex-namorado Baek. No presídio Geum-ja Lee arquiteta um plano para se vingar do ex-namorado e, com seu objetivo em mente, ela busca a simpatia de cada um através de favores para que, desse modo, todos possam colaborar com seu plano.

Quando Geum-ja Lee é libertada, ela pretende colocar em prática tudo o que arquitetou. A protagonista, que antes era uma moça recatada, tornou-se uma mulher ativa. Essa mudança ocorre também no modo como ela se veste, o que é mostrado diversas vezes durante o longa, como quando a personagem principal é indagada sobre sua maquiagem. “Geum-ja Lee, por que essa sombra vermelha?”. Vermelho: a cor do sangue. Acredito que a cor não fora escolhida por acaso.




O maior choque que levamos é durante a vingança de Geum-ja Lee. (SPOILER)A protagonista consegue capturar seu ex-namorado e junta evidências de que quem matou o menino foi ele. As provas são filmes que o assassino gravava sempre antes de matar as crianças, além de objetos pessoais das vítimas os quais ele guardava. A personagem principal reúne os pais das crianças e o policial responsável pelo caso para mostrar a eles as fitas. É absurdamente chocante. O cineasta não deixa escapar nada: ele exibe sem piedade o assassinato das crianças e, ao mesmo tempo, revela a dor dos pais, tudo isso feito com muita criatividade. Após os pais terem assistido às filmagens, eles perguntam para que o seqüestrador queria o dinheiro. A resposta: para comprar um iate. Silêncio é a reação dos abalados pais. Então, a protagonista pergunta a eles e ao policial o que deveriam fazer com o assassino: deixar nas mãos da polícia e da justiça, ou permitir que eles realizassem sua vingança? O interessante é que Park tenta tornar a situação extremamente real. Cada um começa com uma opinião; há casais que já se separaram; existem os mais sedentos por vingança, mas também os mais cautelosos estão presentes. O mais instigante é a questão moral levantada. O que você faria? Eu não tenho filhos, mas imagino que não deve ser a melhor sensação do mundo assistir à execução de um. Ao dirigir a pergunta aos pais, Geum-ja Lee pede uma resposta a mim, a ti e a quem assiste ao filme. Após alguma discussão, é decidido que eles mesmos resolveriam o problema. Mas aí se encontra outra questão: quem será o primeiro a saciar sua sede por vingança? Com questionamentos como esses, Park aproxima arte da realidade. (FIM DO SPOILER).

Durante Lady Vingança, as personagens são postas frente a vários questionamentos morais. Será que a vingança resolve alguma coisa? Não seria apenas uma paixão que arde e que, após saciada, teria o seu lugar tomado por um imenso vazio? O que é moralmente correto? Chan-wook Park comunica-se com seu público ao pontuar seu filme com esses problemas.



Lady Vingança é um singular soco no estômago: poético, emocionante e dolorido. A película aparentemente se contradiz, pois, simultaneamente, mostra um universo exagerado e realista. No entanto, é esse antagonismo que me encanta. Lady Vingança é um filme antagônico, assim como nós.


PS: A série "soco no estômago" ainda não acabou, pois outras postagens com o mesmo tema virão. Gostaria que vocês sugerissem filmes para eu incluir na série, assim como fez Marcos Ribeiro, do blog Epipocando, que sugeriu Elephant - brilhante obra de Gus van Sant a qual brevemente será comentada aqui. Abraço a todos os leitores!

terça-feira, 10 de novembro de 2009

soco no estômago 02: Anticristo

Anticristo (Antichrist, 2009)
Direção: Lars von Trier
Roteiro: Lars von Trier



Antichrist é a última e controversa obra do nada humilde Lars von Trier, dinamarquês que se considera o melhor diretor do mundo. O cineasta foi responsável por Dogville (2003) – um filme que, apesar de aclamado pela crítica e público, pouco me agradou -, O Grande Chefe (2006) – uma película interessante -, além de ser um dos idealizadores do movimento cinematográfico internacional Dogma 95.

Lars von Trier


A película em questão conta a história do casal anônimo protagonizado por Willem Dafoe e Charlotte Gainsbourg que, durante uma calorosa transa, não percebe que o filho deles sai do berço em direção à janela e se joga dela. A cena é de uma beleza singular, contrastando com seu horror semântico e com o resto do filme: a explícita exibição da sexualidade existente entre os dois ocorre em slow motion, preto e branco, com o casal de baixo de um chuveiro; a água cai lentamente, a câmera foca o prazer no rosto das personagens, além de estabelecer semelhanças corporais entre a queda da criança e a transa do casal. A fração inical de Antichrist mostra detalhadamente a penetração durante a relação do casal, incomodando os mais puritanos. Esses não sabiam o que os esperavam.


A mulher é quem mais sofre com a perda da criança, e é esse sofrimento que Lars quer mostrar para nós. O homem, que é psicólogo, tenta tratar a mulher do modo o qual ele acha que é certo, mesmo que para isso seja necessário contrariar os outros médicos. Pronto. As personagens foram construídas e Lars preparado para, não nos fazer mergulhar em um mundo sombrio, mas nos afogar nele. É nesse universo que está o maior trunfo, mas também o maior prejuízo do filme.

SEMPRE que alguém fala sobre Antichrist eu escuto a mesma coisa: “E aquela cena em que ele faz isso? E naquela que ela faz aquilo? E na outra que acontece isso?”. A obra ficou conhecida pela grande maioria apenas por suas cenas fortes. A fama das perturbadoras seqüências é tão grande que se sobrepõe a da própria película. O que vejo em vários espectadores é que eles fecharam os olhos para a grandiosidade da obra, tornando essa apenas uma pausa entre uma cena chocante e outra. Não estou dizendo que as cenas perturbadoras são ruins; pelo contrário, as acho geniais. Mas é uma grande perda ignorar o resto da obra.

Uma das cenas que chocou as platéias foi a da raposa falando com a personagem de Dafoe. Antes de assistir a película eu já tinha conhecimento dessa seqüência e esperava que ela fosse um desastre. Como uma fala proferida por uma raposa poderia ser assustadora? Imaginava algo completamente computadorizado, de uma falsidade que, ao invés de me assustar, me faria rir. Surpreendemente a cena que vi foi muito aterrorizante e natural. As palavras ditas pela raposa (“Chaos reigns”) acompanham um movimento que seria verossímil na boca do animal.

Mas mais do que as cenas chocantes, Antichrist perturba pelo seu clima pesado. A obra é muito escura e, nas cenas que são rodadas dentro do apartamento do casal, conseguimos sentir perfeitamente a atmosfera do local. Diria que é possível até sentir aquele cheiro de ambiente fechado com um clima de tristeza. Além da atmosfera, o drama psicológico enfrentado pela personagem de Charlotte Gainsbourg atingiu-me em cheio. Que significado teria tua sexualidade após teres perdido teu único filho durante uma transa? Trier responde a essa pergunta com maestria. Não é por acaso que o cineasta escreveu o roteiro durante uma crise de depressão. Antichrist é, acima de um excelente soco no estômago, a melhor obra que assisti de Lars von Trier.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

soco no estômago 01: Seul contre tous (x Irréversible)

Sozinho contra todos (Seul contre tous, 1998)
Direção: Gaspar Noé
Roteiro: Gaspar Noé



Para que vemos filmes? Para que apreciamos a arte? Ora, eu o faço procurando que as mais diversas emoções sejam despertadas em minha alma: tristeza, felicidade, ansiedade, perturbação... Pretendo nos próximos 3 posts (ou mais) dar uma atenção especial às obras cinematográficas que provoquem a última emoção citada. Sou um apreciador do cinema-perturbador, pois, como disse Chan-wook Park, se tu queres te sentir bem não vá ver um filme, mas vá a um SPA. Entretanto, as películas não devem abalar o espírito apenas por abalar; deve haver um objetivo com isso, mesmo que esse seja abstrato, afinal, cinema é arte. Digo isso, pois há inúmeros filmes que se valem de imagens fortes que buscam apenas atrair o espectador para, assim, encher os bolsos das produtoras.

O primeiro selecionado é Seul contre tous, obra-prima de Gaspar Noé. O diretor, que é um adepto do cinema-escroto, tem Irréversible (2002) como seu filme de maior sucesso. Essa película choca pelas imagens fortes (vide as famosas cenas do extintor e do estupro). Entretanto, por mais pertubador que seja assistir uma mulher sendo violentada durante quase 10 minutos, por mais horrível que seja olhar um homem ter sua cabeça esmagada por um extintor, esse desconforto é momentâneo. Já em Seul contre tous, temos nosso espírito ferido de um modo diferente.


A primeira película de Noé começa declarando que deveriam ser feitos filmes sobre homens comuns. O diretor franco-argentino resolve esse problema ao selecionar um açougueiro sem nome (Philippe Nahon) para protagonizar seu longa. O homem de meia-idade é aparentemente um sujeito comum, porém, isso é apenas uma ilusão. Ele é um indivíduo completamente perturbado, e é esse lado que é exibido para o expectador em Seul contre tous.

Gaspar Noé
Em poucos minutos, Gaspar nos informa a biografia do homem de 50 anos, orfão cuja mãe o abandonou e o pai morreu na 2ª Guerra Mundial. O protagonista teve sua virgindade consumida ao ter sido estuprado por um docente em nome de Jesus. Após aprender o ofício de açougueiro e abrir seu próprio negócio, ele conhece uma jovem trabalhadora têxtil e tira-lhe a virgindade em um hotel localizado em frente da fábrica onde ela trabalhava. Esse acontecimento resultaria em uma filha, Cynthia. A mãe não quer saber da criança, deixando-a para o pai cuidar. O indivíduo é atraído sexualmente pela menina ao ver as transformações que ela sofre durante a puberdade. Após achar que ela foi violentada por um pedreiro, ele assassina quem ele supõe que abusou de sua garota, mas tira a vida da pessoa errada. A personagem principal é presa e a filha vai para um conservatório. Após libertado o pai solteiro vai trabalhar em um café, onde ele começa a se relacionar com a dona do estabelecimento. A mulher engravida, vende a instalação e hospeda o açougueiro em sua casa. Lá ele vive com sua sogra e sua mulher.
Noé, em poucos minutos, nos conta toda a trajetória do açougueiro, a qual renderia um filme inteiro. Mas por que, ao invés de filmar a parte mais agitada da vida desse homem, Gaspar decide mostrar um momento de sua existência aparentemente menos turbulento? Digo que o cineasta tenta mostrar a parte normal de um homem normal. No entanto, a aparência pacata é apenas uma maquiagem que cobre um ser repleto de uma filosofia completamente negativista. Durante o longa, somos metralhados com idéias perturbadoras, que abrem feridas em nossos espíritos. Essas, ao contrário de em Irréversible, continuam sangrando após o término do filme.

Philippe Nahon interpretou excelentemente o açougueiro perturbado. Somos presenteados com sua brilhante atuação durante todo o longa, pois o que assistimos é praticamente um monólogo. Philippe encarna de maneira esplêndida um homem que é ao mesmo tempo aparentemente comum e psicologicamente perturbado, com raiva de tudo e de todos: homossexuais, negros, imigrantes, empresários, etc.

Sou obrigado a comentar o final de Seul contre tous, parcela a qual é responsável pela maior ferida que abre o filme abre. O próprio diretor nos adverte do perigo que corremos ao assistir o desfecho ao mostrar na tela: “Você tem 30 segundos para abandonar a sala de projeção”. Assim começa a contagem regressiva para o maior soco no estômago cinematográfico que levaria na minha vida. (SPOILER). O açougueiro resolve buscar sua filha no reformatório e levá-la para o mesmo quarto de hotel em que desvirginou sua mulher. Lá ele resolve violentar sua filha e depois matá-la. Ele dispara um tiro em seu pescoço. A garota agoniza no chão. O pai está desesperado, não sabe o que fazer. Vendo o desespero da filha o homem dá outro tiro nela, acabando com seu sofrimento. O homem resolve se matar. Pestaneja, não sabe o que fazer. Batem na porta do quarto para saber o que está acontecento. O homem começa a se assustar. Somos bombardeados com vários pensamentos da personagem, uma espécie de síntese de todo negativismo contido na película. O açougueiro decide se matar. Bum!

(SPOILER) Entretanto, tudo não passou de uma alucinação. A personagem interpretada por Philippe Nahon tinha apenas imaginado como seria matar a filha e se matar depois. O açougueiro se arrepende de ter pensado nesse possível futuro. Ele abraça sua filha, diz que a ama mais do que tudo. Inicialmente achamos que estamos diante de um amor paterno, mas o abraço começa a se prolongar e beijos começam a ser dados. Percebemos que não estamos mais diante de uma relação normal entre pai e filha. Nos é mostrado o açougueiro acariciando as coxas de Cynthia, exatamente como fizera com sua mãe. O filme acaba com um discurso do protagonista, defendendo a relação entre ele e sua menina, justificando que, se o tipo de amor entre eles é proibido, é porque é grande demais para as pessoas aceitarem. Fim. Tudo acaba como se fosse normal. Noé deixa uma sensação de que tudo é pacato ao filmar, durante a exposição do raciocínio do açougueiro, uma sucessão de eventos banais: uma estrada com crianças brincando e carros passando. No entanto, o amor entre Cynthia e seu pai não tem nada de regular! Está aí a maior ferida de todas! Gaspar, ao intencionalmente banalizar a bizarra relação entre o protagonista e sua filha, parece querer encaixar uma peça errada em um quebra-cabeça, e isso incomoda. E muito!(FIM DO SPOILER)

Seul contre tous é muito perturbador. Após vê-lo fiquei dois dias com seu clima mórbido. Essa genial obra deveria ser assistida por todos!