Direção: Tim Burton
Roteiro: Linda Woolverton, Lewis Carroll

Aviso: contém spoilers desse lamentável filme
Patético. A releitura timburtoniana de Alice no País das Maravilhas e Alice no País dos Espelhos (afinal, Tim Burton’s Alice in Wonderland não é uma reprodução cinematográfica de nenhum dos dois títulos) foi extremamente aguardada. Comentava-se ela na internet, na TV – houve uma matéria no Fantástico sobre o filme –, nas revistas, jornais, rádios, enfim, em todas as mídias. Assim, antes mesmo de sua estréia, a película já tinha virado febre, chegando a influenciar a moda. Após seu lançamento, todas as bocas que gritavam notícias sobre a obra se calaram. Estranhei o nítido contraste entre sua espera e sua estréia e, a fim de ver o porquê do brusco silêncio, dirigi-me ao cinema.

O filme começa com cenas piegas, na qual o pai de Alice mostra seu doce amor a sua meiguíssima filhota e esboça um belo e emocionantíssimo discurso elogiando a loucura (“all the best people are mad”, passagem que deve ter sido abraçada calorosamente por inúmeros adolescentes que se consideram doidinhos). Alguns anos depois, após a morte da figura paternal, Alice vai a uma festa a qual era, na verdade, cerimônia na qual seria pedida em casamento – fato que a protagonista viria saber apenas no decorrer do evento. Lá, ela se vê em um dilema, pois não quer casar com seu pretendente, pois não o ama; no entanto, sua família insiste para que a protagonista se ligue pelo casamento com o aspirante a marido (alguém já não viu essa história em algum lugar?). Quando Alice é pressionada a tomar uma decisão ao ter sua mão pedida em público, ela, ao observar um coelho correndo, o segue, fugindo assim da multidão que esperava sua resposta. Ao seguir o coelho, a personagem principal cai em um buraco e, então, entra em Wonderland.

Esperava que se iniciasse, nesse momento, a parte psicodélica do filme, o tão esperado resultado da interpretação que Tim Burton daria à obra de Lewis Carrol, a explosão criativa do resultado da fecundação dessas duas tortuosas mentes. Infelizmente, todas minhas expectativas se esvaíram trágica e lentamente no decorrer da torturante obra. Burton destruiu Wonderland ao transformar esse rico universo em um lugar que abusa das tecnologias, mas carece de criatividade; os cenários eram o profundo reflexo dessa moderna carência da capacidade de criar e ousar. O mais lamentável é que a obra tinha um potencial enorme para ser exatamente o contrário do que se passou na tela.
As personagens também foram completamente lamentáveis, inclusive o esperado Mad Hatter, interpretado por Johnny Depp. Em momento nenhum eu esperava que explorassem profundamente as figuras dramáticas da obra, mas aguardava ansiosamente por inventividade e trejeitos marcantes. Todavia, as peças que solidificavam a película eram vultos acinzentados que vagavam em um quadro branco, tridimensional e caro, murmurando falas pessimamente escritas, as quais tinham a pretensão (bem sucedida) de terem suas sílabas clonadas nas cordas vocais de jovens apreciadores do mais barato – intelectualmente falando - lixo.

A Alice de Burton percorre uma aventura completamente simétrica e com um norte muito bem definido. A jovem garota deve, para salvar Wonderland, derrotar o Jaguadarte, criatura pertencente à Rainha Vermelha (o lado negro do maniqueísta universo do filme) com a Espada Vorpal, a fim de que a Rainha Branca (a face branca da maniqueísta película) tome o lugar da Rainha Vermelha. Ou seja, assim como disse um amigo meu, Alice percorre uma quest.
Um momento lamentavelmente marcante no filme é a extremamente (utilizo muito o vocábulo anterior, mas nesse momento gostaria de elevá-lo à enésima potência, tamanho é meu desprezo) digna de escárnio dança realizada por Johnny Depp, o Futterwacken. No final do filme, após voltar para o mundo real e recusar casar-se com o sujeito que havia lhe pedido a mão, Alice também reproduz o Futterwacken, no entanto, de modo extremamente (novamente gostaria de elevar o último vocábulo a enésima potência) embaraçador. Raramente sinto vergonha por terceiros, mas nesse caso foi inevitável, já que a extravagância da protagonista era ridiculamente artificial; era uma excentricidade muito bem ensaiada, polida e lustrada.
No decorrer da película, comparei a Alice... de Burton com vários filmes; a comparação que melhor demonstra meu sentimento é a entre essa obra e Labirinto(1986), de Jim Henson. No filme de 1986, a criatividade é gritante, devido às criaturas marcantes, ousadas e inventivas, e aos cenários muito bem desenhados, engenhosos e encantadores. Acredito profundamente que Burton não tentou copiar Henson, mas me arrisco a declarar que Alice no país das maravilhas é um Labirinto frustrado.

Alice no País das Maravilhas é o puro retrato da carência criativa do contemporâneo mainstream cinematográfico, uma indústria que está fodendo para o resultado artístico de suas realizações, e se preocupa somente com o resultado financeiro delas. O que está mandando na sétima arte é o dinheiro, e não a criatividade. A conseqüência da inversão dessa pirâmide é a decadência do considerado cinema-arte. Entretanto, sustentar uma película com efeitos caríssimos e não com idéias parece ser um modelo de cinema muito bem recebido pelo público; Alice no País das Maravilhas é a maior bilheteria de abertura da Walt Disney no Brasil. Não grito por um fim ao consumo do mainstream, mas por um apreço consciente.
P.S:Recentemente descobri a existência de uma versão de Alice... feita por Jan Svankmajer, um artista surrealista checo, o qual, ironicamente, influenciou Burton. Ainda não tive a oportunidade de ver sua versão, mas vi alguns vídeos dela no YouTube, e me impressionei com o trabalho, que se mostra criativo, minimalista e envolvente. Se alguém conhece essa obra, comente sua opinião acerca dela.







