8 it was RED

sexta-feira, 12 de março de 2010

Paris, Texas

Paris, Texas (Paris, Texas, 1984)
Direção: Wim Wenders
Roteiro:
L.M. Kit Carson, Sam Shepard

Quão árdua é a tarefa de fazer um filme que toque sem ser piegas. Há milhares de películas as quais, a fim de tocar o espectador, exageram na emoção e acabam banalizando essa. Dentro dessa lista inclui-se a faceta adocicada de Gus Van Sant, Invictus, Titanic, e tantos outros títulos que são amados por inúmeras pessoas. A emoção barata encontra seus pilares na trilha sonora excessiva e pegajosa – Invictus é um excelente exemplo -, nos sentimentos vindos de um coração arregaçado e em takes previsivelmente exagerados – uma das cenas finais de Finding Forester (a qual não descreverei a fim de evitar spoilers) ilustra perfeitamente minha idéia. O que, na maioria das vezes, falta no gênero drama é – ironicamente – humanidade. Um ser humano não demonstra sua carga emocional vomitando um discurso piegas em cima do outro; ele revela seu íntimo por meio de sutilizas, expressões, gestos. O que já é lamentável no roteiro, afunda-se mais ainda ao encontrar na direção uma preferência por cores claras e amenas que se exibem em uma paisagem bela e ensolarada; mesmo quando há a tentativa de mostrar um local sujo, esse é exibido de uma maneira limpa – é como uma patricinha de 12 anos que rasga a calça nos joelhos para mostrar seu lado “punk” (as famosas punkizinhas – denominação conceitualmente contraditória). Como se isso não bastasse, na edição o que já era meloso fica insuportável, ao ser acrescentada uma trilha sonora lamentável a essa receita indigesta.

No entanto, filmes são filmes e realidade é realidade. Nunca vi um fauno, muito menos uma chuva de sapos , mas sou apaixonado por Labirinto do Fauno e Magnólia. Às vezes a incoerência com o real ocorre de modo mais sutil, como nas matanças tarantinescas e no universo coloridíssimo de Almodóvar. Mas se a arte não deve ser uma reprodução fiel da realidade, em que se baseia minha crítica? Aí entra o aspecto fundamental da arte: subjetividade. Percebo em dramas hollywoodianos a frustrada tentativa de mostrar a realidade, a “complexidade” do ser humano. Por que considero Almodóvar um gênio, e não cubro de elogios a falsidade de filmes como esses? Pelo mesmo motivo que glorifico Dalí e não prestigio uma criança de 7 anos que está aprendendo a desenhar. Ao analisar os desenhos de um garoto, é notável a tentativa de reproduzir o que ele enxerga, mas, no entanto, essa acaba esbarrando em aspectos como a perspectiva – desenhos infantis normalmente são em duas dimensões -, traços grosseiros, etc. A criança tentou reproduzir o que enxergava, mas não o fez com sucesso. Ao observar Dalí, é gritante a não-tentativa de reproduzir a realidade; em momento algum seus quadros passam a impressão de um projeto falho. Essa comparação é aplicável a toda a Arte Moderna – o mundo não é os cubos de Picasso, nem os rabiscos de Pollock.

Vista a tempestade que paira sobre o gênero drama, é digna de atenção uma película que emocione de verdade. O filme em questão é Paris, Texas, de Wim Wenders – cineasta o qual venho descobrindo.

A história de Travis - um homem sem memória que é abrigado por seu irmão, Walt, o qual está cuidando do filho de Travis, Hunter – é um prato cheio para ser um drama-pegajoso-irritante. O protagonista surge no início da película vagando por Texas; lá, após ser encaminhado a um hospital, é levado por Hunter – o qual foi convocado por um médico – para sua casa em Los Angeles. À cidade que é normalmente - e clichemente – relacionada a sol, luxo e beleza, Paris, Texas prefere exibir um local pobre e rústico, mas que, ainda assim, oculta certa harmonia.

O longa começa esboçando a problemática de um homem, mas no seu desenrolar, acaba tecendo a relação entre pai e filho. Logo que criei o it was RED, li no blog “Acento Negativo” um post o qual mostrava os inesquecíveis pais do cinema, pois na data era dia dos pais. Se hoje fosse responder, citaria o nome de Travis. O mais incrível na personagem é sua organicidade; Travis possui defeitos os quais são revelados de maneira humana. O pai que não observou seu filho crescer mostra uma sincera e natural vontade de se reconciliar com a criança. O maior trunfo de Paris, Texas é o retrato magnífico da relação entre pai e filho; as cenas que exibem esse relacionamento são extremamente belas. Um excelente contraponto para a relação pai e filho em Paris, Texas, é a de O Paizão. Nesse filme, Sonny Koufax – personagem de Adam Sandler - apesar de não ser pai biológico, assume o papel de protetor de Julian. Tanto Sonny quanto Julian possuem defeitos, como qualquer outro indivíduo; no entanto, isso ocorre de maneira artificial. As imperfeições dos dois não são frutos de seus conflitos pessoais; elas foram incrustadas em seus espíritos. Travis e Hunter são personagens incríveis que enriquecem demasiadamente a película.

Wim Wenders não foca sua lente apenas na relação entre Travis e Hunter. Também é questionado o medo de Walt e sua mulher de perderem o garoto, pois até então eles criavam a criança. Além disso, Travis pretende reencontrar sua esposa Jane para, junto com Hunter, formarem novamente uma família.

Se as obras cinematográficas melosas possuem uma trilha sonora exagerada, tocada por uma orquestra gigantesca a qual esfrega acordes menores incessantemente nos ouvidos do espectador, em Paris, Texas ocorre o oposto. O que a audição capta nesse maravilhoso filme é uma trilha formada por músicas tocadas basicamente por um violão de aço o qual abusa – com grande gosto – dos slides. Esse violão acentua o tom reflexivo das imagens do filme.

Paris, Texas é um magnífico retrato, não apenas da relação pai-filho, mas – muito além disso – do ser humano. A película revela a complexidade das relações pessoais e a ausência de simplicidade no desfecho dos problemas da vida não só nas palavras, mas –principalmente – nas imagens.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Em uma escaldante noite de fevereiro (A estúpida visão sobre a sétima-arte)

Em uma escaldante noite de fevereiro, estava eu atirado em minha cama a procura de algo decente que estivesse passando na TV. Mesmo prevendo o fracasso da minha jornada - afinal 90% do que se concentra nesse entretenimento massificado é desprezível -, movido por algum impulso irracional, continuei zapeando. (In)Felizmente encontrei algo que considerava inicialmente assistível. Tratava-se do Manhattan Connection, uma espécie de mesa redonda na qual se debatem "n" assuntos, entre eles cinema. Sentados à mesa estavam cinco sujeitos: Diogo Mainardi – famoso redator da revista Veja -, Ricardo Amorim, Lucas Mendes – o líder da mesa -, Caio Blinder e Pedro Andrade. Antes do programa, não tinha nenhuma opinião formada sobre os integrantes daquilo que eu descobria ser a Assembléia Do Pedantismo E Da Ignorância (API). Meu desprezo começou a tomar forma quando se iniciaram as discussões políticas, na qual os participantes opinavam de maneira débil e pretensiosa; um dos comentários mais infelizes foi o de Diogo Mainardi – escritor que, até aquele momento, era indiferente a mim, mas agora eu o repudio -, que disse “socialismo é coisa de analfabeto”. Os outros integrantes da API eram um pouco mais sensatos que Diogo, e discordaram da sua opinião.


Assim como um indivíduo que pega um filme no meio e que não acompanha o nome das personagens, eu não sabia o nome dos integrantes da mesa. Assim, criei natural e mentalmente um apelido para um sócio da API. Diogo Mainardi não necessitava de um cognome, pois já o conhecia; Pedro Andrade foi mencionado no decorrer do programa, assim tomei conhecimento de como ele se chamava; Caio Blinder e Lucas Mendes não possuíam nenhuma notável característa da qual se pudesse extrair uma designação alusiva a ela; Ricardo Amorim, devido a sua notável arcada dentária extremamente alva – nunca na minha vida eu havia visto dentes tão claros –, foi mentalmente batizado de Dente Branco (o nível de claridade de sua guarnição maxilar era tão elevado quanto o seu pedantismo; sua dentição era a manifestação física de sua pateticidade; ele poderia perfeitamente ser uma das personagens pedantes que constantemente aparecem nos filmes de Woody Allen – com a única diferença de que Amorim não possuía nenhum conhecimento.). Devo admitir que um dos membros da Assembléia não merecia estar lá; Pedro Andrade fazia comentários sensatos e parecia ter pesquisado sobre os tópicos do programa, ao contrário dos outros, os quais provavelmente foram dominados por uma absurda auto-confiança prepotente, a qual os fez julgar não necessária a busca por conhecimento sobre os assuntos a serem debatidos na mesa.

Ricardo Amorim, o Dente Branco (infelizmente, não encontrei nenhuma foto na qual a sábia figura exibisse sua bela arcada dentária)

Mas o que isso tem a ver com a sétima arte? Como disse no primeiro parágrafo, um dos assuntos debatidos no programa é cinema. A vítima dessa arte pela qual sou apaixonado a que eu assisti ser açoitada foi A Fita Branca, último longa de Michael Haneke. O cineasta me encantou com Funny Games U.S e Caché; além disso, já conheço a fama de sua última obra, a qual ganhou a Palm d’Or no Festival de Cannes (premiação a qual eu respeito muito) e o Globo de Ouro de melhor filme estrangeiro (essa premiação já não tem meu apreço). Pedro iniciou a discussão fazendo um belo comentário sobre o filme, dizendo que Haneke buscou uma estética clássica para a película. Dente Branco e Diogo não entenderam o comentário, e pensaram – se é que aqueles dois seres pensam – que o diretor pretendia que sua obra fosse um clássico, pretensão a qual Pedro jamais incluíra em seu comentário. O resultado da ignorância dos dois mais nobres membros da API foi uma seção de piadas cretinas sobre a falsa arrogância de Haneke. Espero que os outros espectadores tenham detectado o mal entendido, mantido suas mentes intactas após aquela lavagem cerebral putrefata, e não distorcido a imagem do austríaco. Outro trecho do debate o qual me irritou profundamente foi quando perguntaram a opinião de Diogo sobre Haneke. Mainardi disse que havia apenas visto um filme sobre dois garotos que entravam em uma casa e torturaram a família (ele estava referindo-se a Funny Games). O redator da Veja disse que havia achado o filme muito parado – acho que ele está mais acostumado com enlatados estadunidenses – e que o cineasta retratava de coisas muito pesadas – declaração que confirma meu pensamento anterior – e não o achava normal por causa disso. Definitivamente não suporto quem confunda a obra do realizador com o próprio realizador – ou quem não consegue distinguir o gosto do indivíduo e o próprio indivíduo. Ilustrando minha idéia: Chan Wook-Park não é um sanguinário por ter filmado Oldboy, e quem assistiu a Trilogia da Vingança não é um feroz assassino. Em uma declaração de Guillermo Arriaga – roteirista da Trilogia da Perda, filmada por Alejandro Gonzalez Iñarritu – mostrava sua falta de apreço por indivíduos artisticamente sádicos, como Quentin Tarantino. O desrespeito ao gosto dos outros devido a uma tentativa frustrada de transmitir benevolência a qual se transforma em uma cegueira cultural é de uma inocência ímpar. Não bastasse isso, Caio Blinder começou a dizer erroneamente que o nome da película a qual Diogo Mainardi se referia era Caché; Pedro Andrade educadamente tentava retificar o colega, falando que o nome do filme era Funny Games. No entanto, as tentativas do singular membro da API foram em vão, pois Blinder não apenas dizia o que ele pensava ser o nome do filme, ele metralhava o equivocado título em cima de todos. A Assembléia parecia um zoológico com aquela saraivada de equívocos; isso apenas comprova a jactância dos componentes da mesa ao não pesquisarem sobre os assuntos debatidos.

Para finalizar a discussão cinematográfica, Dente Branco declarou que filmes como os de Haneke não eram divertidos, mas que divertido era Avatar. Por tratar-se do intelecto de Ricardo Amorim, não traduzi a frase como um sarcasmo, mas sim como uma afirmação que revela o vácuo que há na caixa craniana desse ser humano. Pedro Andrade reproduziu meu pensamento de que A Fita Branca pode ser muito mais divertido do que Avatar para alguns.

A mídia brasileira televisiva está fadando seus telespectadores à eterna ignorância. Enquanto esses não abrirem seus olhos para a lavagem cerebral que sofrem, a cena cultural nacional será sempre a mesma: a valorização da cultura vazia, reproduzindo a idéia de que a arte que nos faz pensar é chata, entediante, monótona. A TV vende o Rebolation, vende os blockbusters, vende o vazio cerebral. O pior de tudo: há quem compre. Para a apreciação da verdadeira arte – pois não considero arte vazia uma arte – é necessário uma mudança de mentalidade que é feita com o questionamento sobre aquilo o que nos é oferecido na TV. A televisão é – em suas devidas proporções – a nossa teletela de 1984, de Gerge Orwell.


domingo, 7 de fevereiro de 2010

Ascensor para o cadafalso (e o escritor filho da puta)

Ascensor para o cadafalso (Ascenseur pour l'échafaud, 1958)
Roteiro: Roger Nimier, Louis Malle, Noël Calef

Direção: Louis Malle

Um dos melhores filmes ao qual ultimamente tive o imensurável prazer de assistir foi Ascenseur pour l'échafaud, o primeiro longa de Louis Malle. Aluguei a película por acaso, pois pretendia apenas conhecer alguma parcela do extenso trabalho do cineasta francês; minha sede foi aguçada quando em Los abrazos rotos (2009), de Pedro Almodóvar, a personagem Harry Caine (Lluís Homar) faz uma citação da obra de Malle. A preferência do realizador do qual sou fã catalisou minha curiosidade e inseriu uma obra-prima da sétima arte em meu aparelho de DVD.
Felicíssima decisão a qual tomei de não ler as sinopses contidas nos versos dos DVD's. Qual é a dificuldade de escrever um resumo de uma trama sem revelar o desfecho de pequenas questões levantadas no decorrer dela? Após assistir a Ascenseur pour l'échafaud, fiz um experimento rotineiro em minha vida cinéfila: mensurar minha indignação com a síntese das películas. O resultado foi um dos mais decepcionantes já diagnosticado em meu laboratório fílmico, pois o longa de Malle possui um roteiro extremamente engenhoso que constitui suas engrenagens de pequenas trágicas surpresas as quais, no escoar do filme, compõem um quadro mais trágico ainda; cada diminuto ato inesperado é um pequeno tragi-fragmento de um catastrófico mosaico genialmente elaborado. Entretanto, o que deveria ser uma abreviada descrição sobre a obra acaba se estendendo e cobrindo todos imprevistos que surgem no primoroso artefato constituído desses. Se o mosaico ao qual contemplamos é formado por surpresas, o objeto artístico se estilhaça com a perda dessas. Alguns cinéfilos, infelizmente, foram vítimas de um filho da puta que, em algumas 10 linhas, fez o feito de destruir o que poderia ser uma excelentíssima experiência cinematográfica. O pior de tudo é que o escritor imbecil foi pago pela sua chacina em forma de texto. Um texto-bomba. Filho da puta.

Louis Malle

Se eu fosse o responsável pela sinopse de Ascenseur pour l'échafaud escreveria apenas: “O genial retrato sobre indivíduos que se fodem”. O verbo foder, com exceção da conotação sexual, nunca poderia ser tão perfeitamente utilizado. Não há outra expressão que retrate de modo mais perfeito o catastrófico destino das personagens do horrivelmente belo mosaico do ex-assistente de Robert Bresson (sim, Malle assistiu o renomado diretor de Pickpocket (1959)). Louis revela detalhadamente a queda de um homem; o trágico destino dos indivíduos retratado no roteiro é ilustrado de modo magistral com elegantíssimas imagens em preto e branco – a película não funcionaria tão bem em cores. O roteiro do filme traça uma diretriz racionalmente tangível das nossas emoções, as quais explodem dentro de nós no decorrer dessa obra de arte.

Não posso deixar de comentar a excelente atuação de Jeanne Moreau e a incrível trilha sonora de Miles Davis. A fascinante atriz está presente em inesquecíveis cenas, como a da abertura, na qual sua personagem declara emocionadamente repetidas vezes ao telefone: “J’taime”. Moreau consegue expressar silenciosamente e verbalmente o tom trágico da película. A música de Miles ilustra sonoramente a obra do cineasta excluído da nouvelle vague (Malle foi rejeitado da panelinha do movimento francês, pois possuia um estilo diferente dos representantes; interessante ver um realizador que foi marginalizado, mas mesmo assim conquistou seu espaço na sétima arte).


Jeanne Moreau

Falar –precisamente escrever – sobre Ascenseur pour l'échafaud é uma contradição em forma de texto. Se o escritor da infeliz sinopse redigiu um texto-bomba, eu escrevi um texto-paradoxo. Resenhei a película sem comentar praticamente nenhum aspecto do roteiro; ao invés de me prender à trama, foquei-me quase que exclusivamente nas qualidades de toda a obra. É como se eu estivesse descrevendo uma belíssima mulher a um amigo e dissesse “ela é linda, maravilhosa, uma das mulheres mais belas que já vi”, meu amigo me indagasse “mas como ela é? Loira, morena, ruiva? Os olhos são de que cor? Conte-me mais sobre ela!” e eu permanecesse apenas descrevendo as qualidades da mulher, pois sua formosura está contida em seus surpreendentes traços; se eu revelasse a cor dos seus cabelos e olhos, o formato de boca e rosto, estaria destruindo toda sua complexa harmonia. Espero que meu amigo leitor entenda que boa fração de, não apenas beleza, mas genialidade de Ascenseur pour l'échafaud está no mistério de suas feições. Meu texto, em contraponto ao texto-bomba do Filho da Puta, é, acima de um texto-paradoxo, um sincero desejo de que outros cinéfilos tomem conhecimento dessa formosíssima mulher, desse comovente mosaico, dessa complexa engenhoca, dessa genial tragi-película.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Elephant, Gus Van Sant, Cinema & Literatura

Primeiramente gostaria de dizer que estou de volta, após uma longa ausência devido a uma excelente viagem. Sem mais delongas, aqui está o segundo texto de 2010.


Elefante (Elephant, 2003)

Direção: Gus Van Sant

Roteiro: Gus Van Sant

Gus Van Sant é um cineasta que possui duas facetas completamente distintas. A primeira, composta por traços leves, rasos, facilmente assimiláveis e excessivamente doces, é exibida em longas de cunho comercial como Finding Forrester (2000) e Good Will Hunting (1997); esse semblante, ao simplificar e açucarar demasiadamente suas feições – tanto na estética das obras, quanto no roteiro -, mostra-se pouco atrativo e às vezes até clichê. O outro lado do estado-unidense é marcado por uma beleza ímpar; Van Sant transforma sua câmera em um pincel e compõe excelentes quadros que retratam de maneira extremamente harmônica algumas das diversas condições da natureza humana. Essa segunda vertente está claramente presente nas películas Paranoid Park (2007) e Elephant (2003).


Gus Van Sant


Em um fórum, li uma declaração de uma participante a qual afirmava que Elephant era mais próximo de um quadro do que de um livro. Concordo com esse indivíduo. Já declarei várias vezes que considero o cinema uma experiência visual e – logo - admiro realizadores que enfatizam a aparência de suas obras. No entanto, a (super)valoração da estética é depreciada por alguns. A sétima arte está muito vinculada com a literatura, e, provavelmente, reside aí o desgosto de muitos por obras como Elephant (obviamente, estou tratando do desgosto daqueles que possuem um nível cultural acima da média, e não das vítimas da Globolização). Nos livros, o autor é capaz de se comunicar diretamente com o leitor, enquanto que nos filmes, o cineasta utiliza não apenas palavras para se expressar, assim, esse se comunica com o espectador de forma mais indireta. Quando a subjetividade surge e o silêncio dos gestos substitui as palavras, perde-se boa parcela do público. Às vezes, a falta de compreensão é a responsável por essa perda; em outros casos, o que ocorre é apenas a preferência do explícito ao implícito.


Elephant mostra a famosa tragédia do Columbine High School. O interessante é que Van Sant não foca sua história apenas no atentado em si, mas sim nas relações entre os jovens nas escolas estado-unidenses. Sou incapaz de afirmar que o cineasta revelou com perfeição o que se passa entre os muros dessas instituições norte-americanas, pois nunca estudei em uma (aí reside uma questão interessante; nos colégios do mundo inteiro há problemas de convívio, mas nos Estados Unidos esses parecem ser mais acentuados – parecem, pois em diversos filmes de todos os gêneros o universo estudantil ianque se revela extremamente perverso. O que nos é passado nas películas é real – utilizando de argumento que a arte é o reflexo da vida – ou é apenas uma hipérbole cinematográfica da problemática discente global?); no entanto, posso dizer que as relações mostradas pelo cineasta são, no mínimo, plausíveis. Os vários universos de uma high school são exibidos de forma muito humana na película de Van Sant.




A lente do cineasta abusa da delicadeza e enriquece a obra com uma sensibilidade magistral. Através de diferente tipos de jovens, observamos uma mesma realidade, mas sob perspectivas diferentes; é genial como as formas do ambiente transmutam sob cada novo olhar. O desenvolvimento de cada personagem mostrando seu cotidiano e problemas através de uma proximidade literal – a câmera mostra sempre as personagens com muita proximidade - e figurativa – a distância mostrada pela câmera cria uma atmosfera intimista e humana que, inevitavelmente, nos envolve – acaba servindo também para, além de nos mostrar a vida nos corredores de uma escola estado-unidense, tornar a tragédia ainda mais trágica, afinal, tomamos conhecimento de uma parcela das existências interrompidas (aliás, aí está o porquê do título do filme; trata-se de uma parábola budista sobre cegos avaliando um elefante; eles afirmam, equivocadamente, compreender totalmente o animal a tocar em apenas uma parcela dele. Gus Van Sant não quis mostrar o elefante existencial de cada estudante, mas sim apenas uma fração desse). Devido a isso, há quem considere Elephant um soco no estômago – Marcos Ribeiro, do blog Epipocando pediu para eu incluir essa excelente obra na série “soco no estômago”. No entanto, o que senti no filme não foi um flagelo agressivo da minha alma, mas sim uma enorme tristeza; é complicado rotular sentimentos, mas o que a película me passou quando a revi ontem à noite me impediu de inserí-la na série existencialmente masoquista.

A sétima arte encontra dificuldades para se mostrar como uma forma de expressão singular, e Gus Van Sant conseguiu superar essas. Elephant não funcionaria como outra manifestação artística. Um quadro não conseguiria tratar tão bem das relações humanas, enquanto que um livro não conseguiria descrever tão harmonicamente as cenas criadas pelo cineasta bifásico. Elephant é cinema.

sábado, 2 de janeiro de 2010

Avatar

Avatar (Avatar, 2009)
Direção: James Cameron
Roteiro: James Cameron


Minha primeira reação ao descobrir o novo filme de James Cameron foi: “Grande bosta, um filme caro”. Meu desdém foi parido da boca de milhões de seres que gritavam a tudo e a todos o mega-orçamento dessa super-produção (palavras engrandecedoras não faltam na descrição da obra). É insuportável ver indivíduos enaltecerem os gastos de uma película; não assisto a filmes porque são absurdamente caros ou baratos, mas porque estou interessado em uma boa história contada de uma boa maneira. O dinheiro que gasto no cinema não compra hiper-orçamentos; compra hiper-idéias (quando possível). Outra glorificação de gastos na sétima arte a qual presenciei ocorreu em Playtime (1967), de Jacques Tati. A sinopse contida no verso do DVD louvava o fato de que esse era o longa mais caro o qual o cineasta francês filmou. Quando li isso, imediatamente pensei: “e daí?”. Pelo jeito, o endeusamento dos mega-orçamentos não é uma exclusividade do mainstream cinematográfico.



James Cameron

No entanto, percebi que pessoas ao meu redor e vários blogs os quais conheço começaram a exaltar Avatar. Nesse momento, conscientizei-me de que era necessário assistir-lhe, já que ele poderia ser muito mais do que apenas um mega-super-hiper-cifrão. E foi o que fiz. Quando cheguei ao cinema, após ter - felizmente - adquirido as entradas pela internet, deparei-me com a maior fila para adentrar em uma sala de projeção da minha vida; já fazia idéia do sucesso da película, mas nunca cogitei tais dimensões. Assim, a obra de Cameron, acima de ser a produção cinematográfica mais cara já realizada, é um longa para render demasiado-pleonasticamente muito - afinal, todo e qualquer pleonasmo é útil para enfatizar os interesses lucrativos do filme.

Como já esperava, deparei-me com um roteiro completamente fraco e clichê. A obra mostra, no ano de 2154, a exploração realizada pelos humanos em Pandora, uma das luas de Polifermo, o qual orbita Alpha Centauri. Os habitantes de Pandora são os Na’vi, humanóides azuis de três metros. Os homens estão lá em busca de Unobtanium, um mineral muito valioso. Na corporativa da população terráquia estão: Parker Selfridge (Giovanni Ribisi), o estereótipo do Porco Capitalista; Dra. Grace Augustine (Sigourney Weaver), o estereótipo de um indivíduo que vive para a ciência; Norm Spellman (Joel David Moore), biológo que não é estereótipo de nada; Trudy Chacon (Michelle Rodriguez), o estereótipo da mulher-valentona; Jake Sully (Sam Worthington), personagem principal da película; e, finalmente, Coronel Miles Quaritch (Stephen Lang), o mais irritante dos estereótipos, o militar-machão-e-malvado. Os pesquisadores criaram o Programa Avatar, o qual permite um humano controlar o corpo de um híbrido Na’vi. Jake é um ex-fuzileiro paraplégico que aparece na Corporativa dos Estereótipos a fim de conseguir financiamento para uma operação que curasse sua limitação. O protagonista acaba sendo convocado para encarnar o Avatar de seu falecido irmão gêmeo, devido às suas semelhanças genéticas que contribuiriam para o sucesso da substituição. O mocinho, ao utilizar o seu Avatar e adentrar em Pandora, acaba se perdendo do seu grupo e conhecendo a Na’vi Neytiri (Zoë Saldaña), a mocinha do longa a qual leva Jake ao seu clã e lhe ensina os seus constumes.



É justificável a superficialidade das personagens, pois o objetivo do filme não é criar uma singular personalidade para cada uma delas, mas sim mostrar, sob a perspectiva de Jake, a incrível Pandora criada por James Cameron. Os efeitos especiais são realmente magníficos, é belíssima a estética do longa, sendo que o 3D funciona excelentemente bem e colabora muito para o enriquecimento dela. No entanto, toda a beleza contida em Avatar não foi suficiente para me conquistar. Isso ocorreu, pois toda a pateticidade do roteiro levantou um muro entre mim e a tela do cinema, assim, fui incapaz de me extasiar com o belo visual da obra. Um leitor atento e assíduo do it was RED poderia dizer que já afirmei que a sétima arte é uma experiência visual e me questionar o porquê do meu meu desgosto. Pois para esse leitor eu digo que, mesmo que o muro inexistisse, eu manteria a mesma opinião, já que, em algumas seqüências, a barreira desaparecia e eu conseguia manter minha atenção presa à estética da obra, mas - nessas frações da película – meu apreço era praticamente nulo. Por quê? Aqui vale a justificativa que utilizei em "soco no estômago 04".


Obras que perturbam e ferem minha alma, estão esmagando-me contra o solo. Ao ser comprimido, sinto-me vivo e é nesse ponto que reside minha paixão pelo cinema. Meus filmes prediletos são aqueles que, quando assisto, fazem jorrar da tela uma torrente de emoções a qual me envolve e acende em mim a luz de minha existência, tornando-me mais vivo naquele momento. Ao mesmo tempo em que esse pensamento explica meu fascínio por certas películas, ele ilustra meu desgosto por outras. Os longas que me provocam repulsa, em geral, são aqueles formados por uma natureza leve.

No caso desse longa, repulsa é uma expressão demasiadamente forte, pois ele não é inteiramente ruim. Além dos belos efeitos, as cenas nas quais James Cameron, com uma proximidade maior da câmera, mostra as dificuldades de adaptação de Jake em uma nova sociedade trazem um pouco de sensibilidade e realismo à obra - uma antítese dos obstáculos didáticos enfrentados pelo protagonista são os percorridos por Harry Potter quando o bruxo facilmente aprende a voar no hipogrifo em Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban (Alfonso Cuarón, 2004). A Avatar as críticas ambientais, embora feitas de modo piegas, acrescentam certa cor. Entretanto, nem o ambientalismo, nem a beleza dos efeitos me conquistaram nessa película. A tão bem falada estética é, com toda certeza, absurdamente linda, até mais que a própria realidade, como afirmam alguns blogs. Mas essa harmonia que custou milhões praticamente não me atingiu; não senti minha alma ascender e acender; não senti minha existência mais real; não me senti extasiado com a formosura do filme.



Avatar é um longa válido de ser visto, no entanto, está longe de ser uma grande obra. A película revela o seu melhor nas cenas que esboçam certa sensibilidade. Infelizmente essas são apagadas pelos pontos comuns e pelas seqüências piegas. A harmonia visual é tal que revela uma beleza tão incrível quanto leve, logo, a chama de minha existência foi ignorada nesse filme. A obra mais cara da história do cinema tem como objetivo não a arte, mas o dinheiro. Em suma, Avatar é pipoca.
PS: Do dia 4 ao dia 11 de janeiro não poderei visitar nenhum blog, pois estarei viajando. Desejo a todos um feliz ano novo atrasado! Abraços!

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

"Dorminhoco", Woody Allen e Chapolin

Recentemente soube que no Rio de Janeiro ocorreu a mostra cinematográfica A Elegância de Woody Allen, a qual exibe a extensa filmografia do diretor novaiorquino. A notícia me lembrou da existência desse importante cineasta, instigando-me a explorar sua obra. Como moro em Porto Alegre, a solução para conhecer as películas de Allen foi passar em alguma locadora e pegar todos os seus filmes que vi nas prateleiras. Agora que estou em férias, a falta de tempo, único obstáculo entre minha cinefilia e minha rotina, é inexistente; logo, nessa sexta-feira aluguei, além de outros sete filmes, oito DVD’s do cineasta. Os longas selecionados foram: O que é que há, gatinha?(1965), Dorminhoco(1973), A Rosa Púrpura do Cairo(1985), Poderosa Afrodite(1995), Todos Dizem Eu Te Amo(1996), Celebridades(1998), Trapaceiros(2000) e Dirigindo no Escuro(2002). Até agora, assisti a dois dos filmes citados: A Rosa Púrpura do Cairo(1985) e Dorminhoco(1973). Antes de assistir a esses dois longas, já havia assistido a outros de Allen: Vicky Cristina Barcelona (2009), Scoop – o grande furo (2006) e Zelig(1983).

O que percebi em todas as fitas de Woody as quais contemplei até agora foi a presença marcante de um humor Chapolin. Todos os argumentos poderiam perfeitamente dar luz a episódios do herói mexicano. O dono das "Anteninhas de Vinil" poderia ser inserido em A Rosa Púrpura do Cairo (1985) e ajudar na captura do astro que fugiu das telas; também ajudaria Miles em Dorminhoco (1973); além disso, a personagem criada por Roberto Gómez Bolaños auxiliaria na busca pelo assassino em Scoop – o grande furo(2006). A única película que se distancia desse ponto é Vicky Cristina Barcelona(2009). El Chapulín Colorado surgiu em 1970, enquanto que o primeiro filme escrito por Allen, O que é que há, gatinha?, é de 1965. No entanto, o criador de Chaves escreve desde 1958. Não há como dizer se um influenciou o outro; se essa influência é inexistente, e as semelhanças são apenas interseções das obras dos dois; ou, ainda, afirmar que ambos bebem da mesma fonte de inspiração. Descartaria a primeira opção.

Para comentar, escolhi o filme que, por enquanto, considero obra-prima de Woody Allen.
Dorminhoco (Sleeper, 1973)
Direção: Woody Allen
Roteiro: Woody Allen, Marshall Brickman

Dorminhoco é um tímido filme da filmografia de Woody Allen, o qual se esconde atrás de grandes nomes como A Rosa Púrpura do Cairo, Zelig e Noivo Neurótico, Noiva Nervosa(1977). A película de 1973 conta a história de Miles Monroe (o próprio Woody Allen), que acorda depois de 200 anos após um acidente de hospital. O protagonista descobre um futuro controlado por um governo opressor de direita conservadora. Como Monroe representa um perigo ao estável kitch ditatorial imposto pelas autoridades, o protagonista é perseguido pela polícia; a perseguição dá luz à diversas cenas carregadas com o humor chapolinesco, as quais, na minha opinião, empobrecem o filme.

Os cientistas responsáveis pelo descongelamento de Miles o levam a uma casa a fim de estudar o protagonista e fazer com que esse se recupere do longo estado de dormência. Nessa fração da película, Woody mostra inteligência ao colocar os instruídos nas ciências realizando uma série de perguntas a Monroe sobre “artefatos históricos” cujas datas variam entre 1950 a 2000, período o qual, não apenas a personagem principal, mas também os espectadores da película têm total conhecimento. São exibidas fotos, uma revista Playboy, um bate-dentes e uma televisão. Os cientistas acreditam que o tubo de raios catódicos era uma tortura a qual os governantes destinavam a alguns infratores; Miles, após pensar um pouco, confirma a visão dos estudiosos.

A polícia aparece pela primeira vez no longa na casa dos cientistas. Lá, ela consegue capturá-los; enquanto isso, Miles alcança sua escapada ao entrar em um caminhão de robôs os quais foram criados para realizar serviços domésticos. A solução encontrada pelo protagonista para uma fuga bem sucedida foi travestir-se de robô, camuflando-se, assim, no meio dos verdadeiros serviçais do futuro. O esconderijo encontrado por Monroe era um veículo de entregas, assim, ele é deixado frente a uma residência para ser o novo criado computadorizado de Luna (Diana Keaton), uma pseudo-intelectual satisfeita com o estilo de vida imposto pelo governo.

Em uma fuga da polícia, Miles acaba fugindo com Luna e revela sua verdadeira identidade a ela. A moça, como uma obediente marionete do governo, entrega o protagonista às autoridades. No entanto, além de querer apagar a mente de Monroe, os restauradores da ordem também pretendiam reprogamar o cérebro da pseudo-intelectual, pois sua convivência com o protagonista era uma ameaça à calmaria da alienação. A situação abre os olhos da moça e faz com que ela sofra um gradual processo de equerdização.

Ressucitar Miles foi um ato de oposição ao governo, devido à falta de alienação da personagem principal; se os cientistas e o protagonista fossem pegos, eles teriam seus cérebros reprogramados. Em resposta a esse governo, existe a Resistência - um grupo de rebeldes que pretende acabar com a opressão, fazendo uma revolução para derrubar o Grande Líder. Se em Alphaville, obra do célebre Jean-Luc Godard, o controlador do catastrófico futuro é o robô Alpha 60, em Dorminhoco, o responsável pelo caos maquiado é um nariz. Um nariz! A Resistência pretende acabar com uma autoridade administrativa guiada por um nariz!

No decorrer do filme, temia uma visão política maniqueísta da parte de Woody. Nos primeiros minutos do longa, já tomamos conhecimento das críticas à direita, mas o retrato da esquerda ainda estava oculto. Felizmente, Allen critica as duas perspectivas. As críticas são feitas através da pseudo-intelectual, que, revelando um fascínio infantil pelas palavras de Marx, encarna o estereótipo de novo-esquerdista-imaturo-deslumbrado-que-acha-que-sabe-tudo-e-que-pode-mudar-o-mundo. Ao não idealizar nenhum dos dois lados, o cineasta dá um inteligente destino a sua película.

Se de um lado vemos a esquerdização da pseudo-intelectual, do outro observamos a troca de lado imposta a Monroe. O protagonista nunca foi da esquerda, apenas fora colocado lá ao ser descongelado; do mesmo modo, ele também foi forçado a entrar no capitalismo ao ter sua mente reprogramada. Miles é passivo em sua visão política. Reprogramado e alienado, a personagem principal abraça o kitch e leva um estilo de vida completamente vazio: tem sua rotina insignificante, sua labuta insignificante, seu cachorro-robô insignificante e suas preocupações insiginificantes.

Imagine se, ao invés de Monroe, fosses tu, leitor, que despertasse após 200 anos congelado. O que pensarias? Como te encaixarias em uma sociedade completamente diferente da qual estavas habituado? Como seria saber que todos teus amigos e familiares morreram? Woody Allen prefere não dar atenção a essas questões existenciais individualistas. Ao invés disos, o cineasta foca sua lente em um plano mais amplo; à mostrar questões referentes a apenas um ser, Allen prefere exibir os problemas da sociedade: um grupo egoísta liderado por um nariz, o qual tem todas suas atenções desviadas pelos confortos dos robôs domésticos, máquinas produtoras de orgasmos e alucinógenos em forma de uma esfera metálica. Além de criticar a sociedade, Allen também mostra o destino de algumas questões pertinentes que vivenciamos no presente. Um exemplo disso é a utilização de fertilizantes na agricultara: no futuro criado pelo cineasta, haverá frutas e legumes de proporções gigantescas.
Orb, a esfera metálica alucinógena

Considero Dorminhoco a obra-prima de Allen. O tom crítico do roteiro contrasta com o humor chapolinesco de inúmeras cenas. A película me conquistou na inteligência dos questionamentos, mas me desagradou com as seqüências pastéis. Woody Allen criou um futuro o qual é uma hipérbole do nosso presente, assim, não devemos esquecer que os cômicos rumos traçados por Allen são, na verdade, os caminhos que trilhamos hoje, porém em escala assombrosa. Maquiada pelo humor está uma excelente crítica a sociedade.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Atividade Paranormal + Selos

Ganhei três selos dos blogs Cine Europeu - o qual recentemente tive o prazer de descobrir – e Fotograma Digital – que tenho a felicidade de acompanhar há uma boa fração da minha vida de blogueiro. Muito obrigado aos dois! Um dos selos (“Este blog dá vontade de abraçar”) tem como regra responder a três perguntas:
1- Quem mais gostas de abraçar, no presente: minha namorada Stephanie, pessoa importantíssima na minha vida.
2- Quem nunca abraçarias: clichês ambulantes.
3- A quem davas tudo para poder abraçar: cinéfilamente falando, David Lynch.
4- A quem davas o teu melhor abraço: minha namorada.

Respondida as perguntas, indicarei seis blogs para os três selos. Como de praxe, insisto na preocupação com a qualidade dos indicados, pois os selos devem ser um símbolo da qualidade do blog, e não apenas um mero enfeite.

Parabéns aos indicados!


Atividade Paranormal (Paranormal Activity, 2007)
Direção: Oren Peli
Roteiro: Oren Peli




Em uma era repleta de filmes de terror megalomaníacos, nos quais os monstros abusam dos efeitos especiais e as mortes das personagens ocorrem a todo instante como se fosse algo comum, Atividade paranormal surge como uma obra dissonante ao exagerado gênero. A película, que ficou famosa por seu baixíssimo orçamento e por sua altíssima rentabilidade, mostra a história do casal Micah (Micah Sloat) e Katie (Katie Featherston). A personagem feminina presencia, desde sua infância, inexplicáveis eventos sobrenaturais causados por um demônio que a persegue. Micah compra uma câmera para filmar as atividades paranormais que ocorrem, e é essa única câmera que nos guiará durante todo o longa.



Oren Peli



O filme inicia com uma atmosfera acolhedoramente caseira ao mostrar Micah filmando sua namorada enquanto os dois brincam como um casal comum. O clima acolhedor reside não somente na normal relação dos dois, mas também na fotografia responsável pela câmera digital, pois, se em minhas órbitas, ao invés de olhos eu possuísse câmeras, essas câmeras seriam digitais. Além da câmera, a iluminação natural deixa a verossimilhança fluir na sala de projeção.

Fui assistir à película sabendo apenas do famosíssimo fato do orçamento; não vi nenhum trailer e nem li nenhuma resenha antes de entrar no cinema. O que eu esperava na fração inicial da obra era que, como em qualquer longa de terror, “surpreendentemente” (hoje isso já ficou tão clichê que já não causa surpresa nenhuma), aparecesse algum espírito e me assustasse, quebrando o agradável clima residencial que pairava até então, e assim surgisse um tosco letreiro escrito Atividade Paranormal. Entretanto, isso felizmente não ocorreu. Passam-se vários minutos e continuamos sendo envolvidos pela fraternal verossimilhança do filme. O casal janta, conversa, brinca, namora e leva sua vida normal. Vamos sendo inteirados dos problemas de Katie aos poucos através das conversas entre as personagens. Micah, a fim de registrar os bizarros acontecimentos, coloca a câmera sobre um tripé para filmar a noite de sono do casal. É no quarto que ocorrem sutilmente todos os eventos sobrenaturais.

A originalidade de Atividade Paranormal é fruto de sua sutileza. A trama nos envolve gradativamente, não apenas ao nos informar aos poucos os problemas de Katie, mas também ao nos revelar os pequenos eventos sobrenaturais que cada vez perturbam mais o casal. Não vemos nenhum monstro, demônio ou fantasma; o que vemos são cenas que parecem extremamente possíveis de acontecer na realidade: uma porta batendo, passos na escada, sombras aparecendo, etc. Ao não dar uma face ao demônio que persegue a personagem feminina, o filme demonstra sagacidade, pois está mexendo com nossa imaginação, a qual é capaz de nos assustar mais do que qualquer monstro cinematograficamente físico. Essa ferramenta já foi utilizada em outros longas, como em Bebê de Rosemary; nessa película, Polansky não dá um rosto ao filho do diabo, o que fertiliza nossa mente e nos perturba mais do que uma aberração concreta. Outro trunfo de Atividade Paranormal é quebrar com os clichês do terror. Durante vários momentos, após algum manifesto fantasmagórico, a câmera procura evidências em lugares como atrás da cortina, e tubulações de ar. Em outras ocasiões, durante cenas mais enérgicas, a câmera passa rapidamente por espelhos. Seqüências como essas são um prato cheio para ornar o filme com habituais sustos; no entanto, a película prefere não o fazer, escolha que a torna muito mais realista. Além disso, ao escolher esse caminho, a fita brinca com nossa mente, pois ela conhece todos os pontos comuns de uma obra de terror. Assim, somos induzidos a pensar que há algum ser atrás da cortina ou dentro da tubulação de ar e, conseqüentemente, assustamo-nos.

Atividade Paranormal vai nos assustando de forma gradativa. No decorrer do filme, envolvemo-nos com a trama e nos perturbamos com sua direção. O longa acaba de forma brusca, sendo que não há os habituais créditos que nos lembram que tudo aquilo é apenas uma película. Sendo assim, vamos para nossas casas ainda sob a mórbida atmosfera da obra. Ao chegarmos em nossas residências é quando a obra tem maior impacto; é como se estivéssemos dentro dela. Quem que assistiu à fita e não teve medo de ter seu pé puxado por alguma força estranha? Confesso que tive. Ontem minha namorada se levantou para buscar água. No longa, Katie se ergue da cama e fica em pé olhando estaticamente Micah durante horas. Tenho que admitir que as semelhanças me incomodaram um pouco (obviamente minha namorada não ficou estática observando-me, mas mesmo assim aquilo me assustou). O quarto ao qual estamos tão acostumados toma formas sombrias após Atividade Paranormal, e é essa a maior qualidade da película.

Atividade Paranormal é um dos melhores filmes de terror a que já assisti. O longa inteligentemente mexe com nosso imaginário, sabendo que esse é mais poderoso que qualquer recurso estético cinematográfico. Além disso, a verossimilhança presente nos permite construir pontes que conectam a película à realidade, o que pode nos perturbar durante noites.

PS: A série “soco no estômago” não acabou; ela terá sempre sua presença garantida aqui no it was RED.