8 it was RED

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Sobre "Los olvidados" e Buñuel

Os esquecidos (Los olvidados, 1950)

Direção: Luis Buñuel

Roteiro: Luis Alcoriza e Luis Buñuel





Nos três últimos dias tive uma overdose de Luis Buñuel, grande cineasta mexicano que tem seu nome associado às origens do cinema surrealista. Os filmes que assisti foram: Un Chien Andalou (1929), L’Age d’Or (1930), Los olvidados (1950) e Subida Al Cielo (1951). Minha maior expectativa era quanto ao primeiro; infelizmente, o curta metragem que tem Salvador Dali como roteirista não me agradou, assim como L’Age d’Or e Subida Al Cielo. Para comentar escolhi o que mais me agradou: Los olvidados, longa que rendeu a Buñuel o prêmio de melhor diretor no Festival de Cannes de 1951.






Logo na abertura o narrador anuncia o tom de denúncia da película, ao nos falar sobre a pobreza escondida nas grandes metrópoles, como a cidade do México, local onde é ambientada a história. Em um bairro pobre, nos é mostrado um grupo de garotos que conversa sobre “Jaibo”, jovem que tinha acabado de fugir do reformatório. O fugitivo se reúne com o grupo e, juntos, eles planejam assaltar um cego. Mais tarde, “Pedro” (um dos garotos) se junta a “Ojitos”, um menino que foi abandonado. Em certo momento, “Pedro” presencia um assassinato cometido por “Jaibo”, fato em torno do qual gira a obra.

O olhar pessismista e cruel de Buñuel me encantou com cenas como a do sonho de “Pedro” (para mim a melhor do filme), o assalto ao cego e várias outras que não direi para não estragar a surpresa. O longa revela a realidade da pobreza no México ao contrastar a população (“Pedro” em trabalho semi-escravo empurra um carrocel enquanto outra criança anda no brinquedo), mostrar a violência nas ruas e expor a covardia existente em cada um. Tecnicamente é possível notar um recurso que foi bastante utilizado em Los olvidados: algumas cenas as personagens vêm em direção à câmera e a atravessam (na parte em que as crianças brincam de toureiro, por exemplo - olhar o vídeo de 2:38 a 2:44).





Pretendo conhecer o resto da filmografia de Buñuel. Enquanto não a conheço, digo que o meu predileto do cineasta é Los olvidados. Durante 91 minutos me foi mostrado uma violenta sociedade onde ninguém é isento de culpa, fato que torna o filme realista. Excelente obra!

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Brokeback Mountain sobre rodas


Sem destino (Easy Rider, 1969)
Direção: Dennis Hopper
Roteiro: Peter Fonda, Dennis Hopper, Terry Southern





Foi isso o que pensei de “Easy rider”, clássico que resolvi assistir pela primeira vez nesse domingo. O filme começa com uma pequena trama sobre drogas, na qual os personagens principais, Billy e Wyatt, conseguem dinheiro revendendo cocaína. Com o capital em mãos, eles saem juntos em suas motocicletas e começam uma viagem pelos Estados Unidos, na qual encontram alguns personagens (um deles interpretado por Jack Nicholson, que atuou muito bem por sinal). O caminho percorrido pelo casal, digo, pela dupla, nos revela o preconceito de alguns estadosunidenses por jovens cabeludos e revoltos. Segundo o filme, esses jovens seriam uma representação da liberdadade. O preconceito, por sua vez, era estampado na cara de alguns caipiras repugnantes. Mais repugnante que os caipiras era esse maniqueismo tosco que se somava às motos “super radicais” pilotadas pelos protagonistas “maneiros”. O resultado disso foi transformar um grito de liberdade em uma propaganda de Nescau cereal.



Durante 94 minutos, Billy e Wyatt têm dialogos vazios e encaram uma realidade completamente mal representada. A amizade entre os motoqueiros é absurdamente idealizada, a ponto de ser irritante. Representando mais de metade do filme, as cenas em que eles andam de motocicleta através do país e apontam paisagens bonitinhas um para o outro eram mais irritante que a amizade deles. Porra, desde quando dois motoqueiros se comportam assim? Que viadagem (gostaria de frizar que não sou homofóbico, tanto que sou fã de Almodovar e C.R.A.Z.Y)!



Não posso dizer que o longa foi inteiramente ruim, pois a cena em que os motoqueiros e algumas prostitutas estão completamente chapados em um cemitério é muito boa. Além disso, a trilha sonora é ótima. No entanto, em frente ao mar de defeitos, esses detalhes acabam não salvando a infeliz obra dirigida por Dennis Hopper e escrita por Peter Fonda (o irritante Wyatt ), Dennis Hopper (o insuportável Billy) e Terry Southern (não sei quem é o infeliz, mas colaborou a escrever os dialogos imbecis).




Muito além de “Rosebud”


Cidadão Kane (Citizen Kane, 1941)
Direção: Orson Welles
Roteiro: Herman J. Mankiewicz e Orson Welles




Para estrear esse blog, nada melhor do que comentar o filme que é considerado por muitos o melhor já feito. “Cidadão Kane” teve como co-roteirista, produtor, ator e diretor o precoce Orson Welles. Com 24 anos ele foi para Hollywood filmar o longa. Apesar de nunca ter filmado nada antes, o estúdio deu muita liberdade para ele realizar sua obra, uma vez que era considerado um gênio. Para escrevê-lo, Orson baseou-se na vida de William Randolph Hearst, um milionário que além de ser proprietário de 28 jornais, possuía revistas e cadeias de rádio, assim como uma produtora de cinema. Hearst era dono de uma mansão que ele chamava de “The Ranch”, na qual ele realizava festas em que iam todas as estrelas de Hollywood e cartolas dos grandes estúdios: ele controlava a mídia através de seu poder. O protagonista da película Charles Foster Kane era, assim como Hearst, milionário, dono de um jornal, dono de uma excêntrica mansão e, acima de tudo, formador de opinião. “Cidadão Kane” quase não foi lançado: Hearst tentou comprar todas as cópias para tirá-las de divulgação. Obviamente ele não conseguiu (hoje a obra encontra-se em qualquer locadora decente). Orson Welles demostrou muita coragem ao fazer o filme.


A minha primeira impressão de “Cidadão Kane” foi ruim. Ele começa com Charles Foster Kane dizendo sua última palavra antes de morrer: “Rosebud” (a cena da morte dele é linda, uma das mais belas da obra, mas não foi esse o porquê do meu desgosto inicial). Um grupo de jornalistas que fazia um documentário sobre a vida de Kane resolve pesquisar o significado da palavra. Quando vi isso me decepcionei, pensei que o filme inteiro seria apenas a busca por uma palavra. No final eu ficaria sabendo qual seria o significado de “Rosebud”. Esperaria 2 horas apenas para descobrir qual é o maldito significado de “Rosebud”.


Felizmente eu estava errado. Ao nos mostrar essa busca, “Cidadão Kane”, nos revela a vida de Charles Foster Kane, um magnata excêntrico dono de um jornal. Através de sua história, o filme trata de assuntos interessantíssimos (essa palavra soa sarcástica, mas não a estou empregando com essa intenção), como o poder que a mídia exerce sobre o povo e o egoísmo presente nos sentimentos de cada um. Aliás, foi esse último assunto que me conquistou no primeiro longa de Orson Welles, pois mudou minha maneira de ver o mundo.


“Cidadão Kane” é genial, trata de assuntos interessantíssimos (novamente não estou sendo sarcástico) e mexeu comigo, por isso ele vai para a lista dos melhores filmes que já vi. Gostei muito dele, no entanto, não o consideraria O melhor já feito por simplesmente um motivo: acredito que nenhuma obra seja merecedora desse título. Posso até dizer quais eu acho que são as melhores das melhores, mas não conseguiria dizer qual é A melhor. Não há como comparar algumas coisas. É como responder “O que é melhor: suco de laranja ou cappuccino?” ou “Dos dois, qual tu gostas mais: Led Zeppelin ou Tom Jobim?”. Apesar de não considerá-lo o melhor, não há dúvidas de que é um excelente filme.