Direção: James Cameron
sábado, 2 de janeiro de 2010
Avatar
Direção: James Cameron
segunda-feira, 21 de dezembro de 2009
"Dorminhoco", Woody Allen e Chapolin
O que percebi em todas as fitas de Woody as quais contemplei até agora foi a presença marcante de um humor Chapolin. Todos os argumentos poderiam perfeitamente dar luz a episódios do herói mexicano. O dono das "Anteninhas de Vinil" poderia ser inserido em A Rosa Púrpura do Cairo (1985) e ajudar na captura do astro que fugiu das telas; também ajudaria Miles em Dorminhoco (1973); além disso, a personagem criada por Roberto Gómez Bolaños auxiliaria na busca pelo assassino em Scoop – o grande furo(2006). A única película que se distancia desse ponto é Vicky Cristina Barcelona(2009). El Chapulín Colorado surgiu em 1970, enquanto que o primeiro filme escrito por Allen, O que é que há, gatinha?, é de 1965. No entanto, o criador de Chaves escreve desde 1958. Não há como dizer se um influenciou o outro; se essa influência é inexistente, e as semelhanças são apenas interseções das obras dos dois; ou, ainda, afirmar que ambos bebem da mesma fonte de inspiração. Descartaria a primeira opção.
Para comentar, escolhi o filme que, por enquanto, considero obra-prima de Woody Allen.
Direção: Woody Allen
Dorminhoco é um tímido filme da filmografia de Woody Allen, o qual se esconde atrás de grandes nomes como A Rosa Púrpura do Cairo, Zelig e Noivo Neurótico, Noiva Nervosa(1977). A película de 1973 conta a história de Miles Monroe (o próprio Woody Allen), que acorda depois de 200 anos após um acidente de hospital. O protagonista descobre um futuro controlado por um governo opressor de direita conservadora. Como Monroe representa um perigo ao estável kitch ditatorial imposto pelas autoridades, o protagonista é perseguido pela polícia; a perseguição dá luz à diversas cenas carregadas com o humor chapolinesco, as quais, na minha opinião, empobrecem o filme.
Os cientistas responsáveis pelo descongelamento de Miles o levam a uma casa a fim de estudar o protagonista e fazer com que esse se recupere do longo estado de dormência. Nessa fração da película, Woody mostra inteligência ao colocar os instruídos nas ciências realizando uma série de perguntas a Monroe sobre “artefatos históricos” cujas datas variam entre 1950 a 2000, período o qual, não apenas a personagem principal, mas também os espectadores da película têm total conhecimento. São exibidas fotos, uma revista Playboy, um bate-dentes e uma televisão. Os cientistas acreditam que o tubo de raios catódicos era uma tortura a qual os governantes destinavam a alguns infratores; Miles, após pensar um pouco, confirma a visão dos estudiosos.
A polícia aparece pela primeira vez no longa na casa dos cientistas. Lá, ela consegue capturá-los; enquanto isso, Miles alcança sua escapada ao entrar em um caminhão de robôs os quais foram criados para realizar serviços domésticos. A solução encontrada pelo protagonista para uma fuga bem sucedida foi travestir-se de robô, camuflando-se, assim, no meio dos verdadeiros serviçais do futuro. O esconderijo encontrado por Monroe era um veículo de entregas, assim, ele é deixado frente a uma residência para ser o novo criado computadorizado de Luna (Diana Keaton), uma pseudo-intelectual satisfeita com o estilo de vida imposto pelo governo.

Em uma fuga da polícia, Miles acaba fugindo com Luna e revela sua verdadeira identidade a ela. A moça, como uma obediente marionete do governo, entrega o protagonista às autoridades. No entanto, além de querer apagar a mente de Monroe, os restauradores da ordem também pretendiam reprogamar o cérebro da pseudo-intelectual, pois sua convivência com o protagonista era uma ameaça à calmaria da alienação. A situação abre os olhos da moça e faz com que ela sofra um gradual processo de equerdização.
Ressucitar Miles foi um ato de oposição ao governo, devido à falta de alienação da personagem principal; se os cientistas e o protagonista fossem pegos, eles teriam seus cérebros reprogramados. Em resposta a esse governo, existe a Resistência - um grupo de rebeldes que pretende acabar com a opressão, fazendo uma revolução para derrubar o Grande Líder. Se em Alphaville, obra do célebre Jean-Luc Godard, o controlador do catastrófico futuro é o robô Alpha 60, em Dorminhoco, o responsável pelo caos maquiado é um nariz. Um nariz! A Resistência pretende acabar com uma autoridade administrativa guiada por um nariz!
No decorrer do filme, temia uma visão política maniqueísta da parte de Woody. Nos primeiros minutos do longa, já tomamos conhecimento das críticas à direita, mas o retrato da esquerda ainda estava oculto. Felizmente, Allen critica as duas perspectivas. As críticas são feitas através da pseudo-intelectual, que, revelando um fascínio infantil pelas palavras de Marx, encarna o estereótipo de novo-esquerdista-imaturo-deslumbrado-que-acha-que-sabe-tudo-e-que-pode-mudar-o-mundo. Ao não idealizar nenhum dos dois lados, o cineasta dá um inteligente destino a sua película.
Se de um lado vemos a esquerdização da pseudo-intelectual, do outro observamos a troca de lado imposta a Monroe. O protagonista nunca foi da esquerda, apenas fora colocado lá ao ser descongelado; do mesmo modo, ele também foi forçado a entrar no capitalismo ao ter sua mente reprogramada. Miles é passivo em sua visão política. Reprogramado e alienado, a personagem principal abraça o kitch e leva um estilo de vida completamente vazio: tem sua rotina insignificante, sua labuta insignificante, seu cachorro-robô insignificante e suas preocupações insiginificantes.
Imagine se, ao invés de Monroe, fosses tu, leitor, que despertasse após 200 anos congelado. O que pensarias? Como te encaixarias em uma sociedade completamente diferente da qual estavas habituado? Como seria saber que todos teus amigos e familiares morreram? Woody Allen prefere não dar atenção a essas questões existenciais individualistas. Ao invés disos, o cineasta foca sua lente em um plano mais amplo; à mostrar questões referentes a apenas um ser, Allen prefere exibir os problemas da sociedade: um grupo egoísta liderado por um nariz, o qual tem todas suas atenções desviadas pelos confortos dos robôs domésticos, máquinas produtoras de orgasmos e alucinógenos em forma de uma esfera metálica. Além de criticar a sociedade, Allen também mostra o destino de algumas questões pertinentes que vivenciamos no presente. Um exemplo disso é a utilização de fertilizantes na agricultara: no futuro criado pelo cineasta, haverá frutas e legumes de proporções gigantescas.
Considero Dorminhoco a obra-prima de Allen. O tom crítico do roteiro contrasta com o humor chapolinesco de inúmeras cenas. A película me conquistou na inteligência dos questionamentos, mas me desagradou com as seqüências pastéis. Woody Allen criou um futuro o qual é uma hipérbole do nosso presente, assim, não devemos esquecer que os cômicos rumos traçados por Allen são, na verdade, os caminhos que trilhamos hoje, porém em escala assombrosa. Maquiada pelo humor está uma excelente crítica a sociedade.
segunda-feira, 7 de dezembro de 2009
Atividade Paranormal + Selos
1- Quem mais gostas de abraçar, no presente: minha namorada Stephanie, pessoa importantíssima na minha vida.
2- Quem nunca abraçarias: clichês ambulantes.
3- A quem davas tudo para poder abraçar: cinéfilamente falando, David Lynch.
4- A quem davas o teu melhor abraço: minha namorada.
Respondida as perguntas, indicarei seis blogs para os três selos. Como de praxe, insisto na preocupação com a qualidade dos indicados, pois os selos devem ser um símbolo da qualidade do blog, e não apenas um mero enfeite.

Parabéns aos indicados!
Fui assistir à película sabendo apenas do famosíssimo fato do orçamento; não vi nenhum trailer e nem li nenhuma resenha antes de entrar no cinema. O que eu esperava na fração inicial da obra era que, como em qualquer longa de terror, “surpreendentemente” (hoje isso já ficou tão clichê que já não causa surpresa nenhuma), aparecesse algum espírito e me assustasse, quebrando o agradável clima residencial que pairava até então, e assim surgisse um tosco letreiro escrito Atividade Paranormal. Entretanto, isso felizmente não ocorreu. Passam-se vários minutos e continuamos sendo envolvidos pela fraternal verossimilhança do filme. O casal janta, conversa, brinca, namora e leva sua vida normal. Vamos sendo inteirados dos problemas de Katie aos poucos através das conversas entre as personagens. Micah, a fim de registrar os bizarros acontecimentos, coloca a câmera sobre um tripé para filmar a noite de sono do casal. É no quarto que ocorrem sutilmente todos os eventos sobrenaturais.
A originalidade de Atividade Paranormal é fruto de sua sutileza. A trama nos envolve gradativamente, não apenas ao nos informar aos poucos os problemas de Katie, mas também ao nos revelar os pequenos eventos sobrenaturais que cada vez perturbam mais o casal. Não vemos nenhum monstro, demônio ou fantasma; o que vemos são cenas que parecem extremamente possíveis de acontecer na realidade: uma porta batendo, passos na escada, sombras aparecendo, etc. Ao não dar uma face ao demônio que persegue a personagem feminina, o filme demonstra sagacidade, pois está mexendo com nossa imaginação, a qual é capaz de nos assustar mais do que qualquer monstro cinematograficamente físico. Essa ferramenta já foi utilizada em outros longas, como em Bebê de Rosemary; nessa película, Polansky não dá um rosto ao filho do diabo, o que fertiliza nossa mente e nos perturba mais do que uma aberração concreta. Outro trunfo de Atividade Paranormal é quebrar com os clichês do terror. Durante vários momentos, após algum manifesto fantasmagórico, a câmera procura evidências em lugares como atrás da cortina, e tubulações de ar. Em outras ocasiões, durante cenas mais enérgicas, a câmera passa rapidamente por espelhos. Seqüências como essas são um prato cheio para ornar o filme com habituais sustos; no entanto, a película prefere não o fazer, escolha que a torna muito mais realista. Além disso, ao escolher esse caminho, a fita brinca com nossa mente, pois ela conhece todos os pontos comuns de uma obra de terror. Assim, somos induzidos a pensar que há algum ser atrás da cortina ou dentro da tubulação de ar e, conseqüentemente, assustamo-nos.
Atividade Paranormal vai nos assustando de forma gradativa. No decorrer do filme, envolvemo-nos com a trama e nos perturbamos com sua direção. O longa acaba de forma brusca, sendo que não há os habituais créditos que nos lembram que tudo aquilo é apenas uma película. Sendo assim, vamos para nossas casas ainda sob a mórbida atmosfera da obra. Ao chegarmos em nossas residências é quando a obra tem maior impacto; é como se estivéssemos dentro dela. Quem que assistiu à fita e não teve medo de ter seu pé puxado por alguma força estranha? Confesso que tive. Ontem minha namorada se levantou para buscar água. No longa, Katie se ergue da cama e fica em pé olhando estaticamente Micah durante horas. Tenho que admitir que as semelhanças me incomodaram um pouco (obviamente minha namorada não ficou estática observando-me, mas mesmo assim aquilo me assustou). O quarto ao qual estamos tão acostumados toma formas sombrias após Atividade Paranormal, e é essa a maior qualidade da película.
Atividade Paranormal é um dos melhores filmes de terror a que já assisti. O longa inteligentemente mexe com nosso imaginário, sabendo que esse é mais poderoso que qualquer recurso estético cinematográfico. Além disso, a verossimilhança presente nos permite construir pontes que conectam a película à realidade, o que pode nos perturbar durante noites.
PS: A série “soco no estômago” não acabou; ela terá sempre sua presença garantida aqui no it was RED.
sábado, 28 de novembro de 2009
soco no estômago 04: Laranja Mecânica, o peso e a leveza, a evolução de minha cinefilia
Direção: Stanley Kubrick
Roteiro: Stanley Kubrick, Anthony Burgess
“Mas será mesmo atroz o peso e bela a leveza?
“O mais pesado dos fardos nos esmaga, verga-nos, comprime-nos contra o chão. Na poesia amorosa de todos os séculos, porém, a mulher deseja receber o fardo do corpo masculino. O mais pesado dos fardos é, portanto, ao mesmo tempo a imagem de realização vital mais intensa. Quanto mais pesado é o fardo, mais próxima da terra está nossa vida, e mais real e verdadeira ela é.
“Em compensação, a ausência total de fardo leva o ser humano a se tornar mais leve do que o ar, leva-o a voar, a se distanciar da terra, do ser terrestre, a se tornar semi-real, e leva seus movimentos a ser tão livres como insignificantes.
“O que escolher, então? O peso ou a leveza?”.
“... Só uma coisa é certa. A contradição pesado/leve é a mais misteriosa e a mais ambígua de todas as contradições.”.
É exatamente assim que me sinto em relação à sétima arte. Obras que perturbam e ferem minha alma, estão esmagando-me contra o solo. Ao ser comprimido, sinto-me vivo e é nesse ponto que reside minha paixão pelo cinema. Meus filmes prediletos são aqueles que, quando assisto, fazem jorrar da tela uma torrente de emoções a qual me envolve e acende em mim a luz de minha existência, tornando-me mais vivo naquele momento. Ao mesmo tempo em que esse pensamento explica meu fascínio por certas películas, ele ilustra meu desgosto por outras. Os longas que me provocam repulsa, em geral, são aqueles formados por uma natureza leve. Infelizmente, a cena mainstream cinematográfica é constituída de um vazio imensurável; o fantasma da ignorância está assombrando a maioria das salas de projeção do mundo todo (se Porto Alegre for culturalmente uma pequena amostragem do que ocorre no resto do globo). As fitas que se formam dessa leveza não me tocam em nada (minto, elas me provocam desprezo). A falta de apreço nasce da total ausência de peso que elas trazem, pois quando às assisto, sinto minha existência se aproximar à de uma folha de papel. Enfim, o bom cinema é aquele que me faz viver.
O peso das obras da sétima arte não vem, necessariamente, em forma de flagelos ao espírito. Essa é apenas uma das faces que estou abordando, devido ao tema da série a qual pertence esse texto. Há facetas as quais são outros sentimentos aparentemente ruins: tristeza, confusão, náusea, etc. Parece estranho, mas um filme que faz alguém chorar é normalmente considerado por esse alguém uma excelente obra; isso ocorre porque esse alguém apenas sentiu sua existência mais real.
Obviamente, meu gosto cinematográfico não se limita apenas a filmes pesados. Como disse em “soco no estômago 03”, minha preferência cinéfila é pseudo-antagônica (quem quiser entender, leia o texto – é só clicar no título que citei anteriormente). Obras mais leves - como The Rocky Horror Picture Show (1975), por exemplo - também me agradam. Por quê? Não sei explicar ao certo. Como Milan Kundera disse: “... Só uma coisa é certa. A contradição pesado/leve é a mais misteriosa e a mais ambígua de todas as contradições.”.
Terminado meu devaneio, vamos ao filme. Laranja Mecânica é uma polêmica película de Stanley Kubrick que foi baseada no livro homônimo de Anthony Burgess. A obra, que se passa no futuro, mostra o rumo da mente de Alex, o protagonista da película. Inicialmente ele é um vândalo. Em um de seus atos, a personagem principal é presa e, na cadeia, é escolhida para um novo tratamento que promete recuperar os delinqüentes. O novo método é uma espécie de lavagem cerebral, a qual varrerá toda a violência contida na mente dos prisioneiros.
Aí está o ponto principal do filme, ao analisar os aspectos da manipulação da mente humana. A história é muito bem explorada, ao mostrar as várias conseqüências do controle sobre o intelecto humano. O que pensariam os religiosos, os políticos, os policiais e os intelectuais? A trama consegue percorrer pelos caóticos caminhos resultantes da intervenção no livre-arbitrio. O roteiro também é enriquecido pela inserção de neologismos nas falas das personagens.
Essa história extremamente bem elaborada foi ilustrada com maestria por Kubrick. Laranja Mecânica é um filme visualmente incrível! O caótico futuro descrito no roteiro torna-se ainda mais desordenado nas mãos do diretor: as cores jorram na tela, os figurinos são bizarríssimos - como a peruca da mãe de Alex -, o cenário é incrível, e a câmera capta todas as ações com destreza. Outro ponto forte da película é a magnífica atuação de Alex, além da excelente trilha sonora, que conta com composições de Beethoven. Além disso, o filme possui um rítmo incrível: a obra, em momento algum, perde sua fluidez, pois estamos, a todo o momento, sendo flagelados por sua original extravagância estética e por seu turbulento roteiro.
Stanley Kubrick
Considerei o filme perturbador, devido à violência explícita que ocorre principalmente no início do longa, como na cena em que o grupo de Alex invade uma residência para praticar um pouco da velha ultra-violence. Tudo é feito com muita crueldade, porém de forma natural. Lá eles estupram uma mulher e espancam seu marido enquanto cantam alegremente “Singing in the rain” - uma canção que, na película homônima, é uma clara demonstração de alegria. Em Laranja Mecânica a canção tem a mesma função: mostrar a felicidade. Mas agora, essa não é mais fruto do amor por uma mulher, mas sim do prazer de prejudicar o próximo. Além dessa, há outras cenas que devem ter perturbado muito a alguns espectadores. Um exemplo é uma seqüência na qual Alex ouve Beethoven no seu quarto, e lá há uma escultura com vários Jesuses dançando com a habitual feição de sofrimento. É uma passagem discreta, mas deve ter mexido com muitos.
(SPOILER) Um dos grandes momentos do filme é quando Alex - após ter sua mente lavada, sua liberdade adquirida e seu corpo surrado - vaga perdido pelas ruas e procura abrigo, acidentalmente, na mesma casa onde havia estuprado uma mulher e espancado seu marido. Para sua sorte, ele estava mascarado na data do ataque, assim, o propriétario da casa - que agora está em uma cadeira de rodas, devido aos golpes que levara naquele trágico dia – não o reconheceu e o ajudou. Alex vai a uma banheira para se recuperar, e lá, tomado por uma incontrolável alegria, começa a cantarolar novamente “Singing in the rain”. O senhor, reconhecendo a voz do cantor, sofre uma espécia de ataque nervoso. A cena é genial, devido ao modo com o qual ela lentamente toma forma. A situação vai gradualmente agravando-se, ao mesmo tempo em que a cantoria de Alex aumenta de volume; no fim, tudo culmina na brilhantemente filmada (pseudo)convulsão do pobre senhor.
Laranja Mecânica critica a tudo e a todos: vândalos, políticos, religiosos, intelectuais que defendem os vândalos, e conservadores que os acusam. Essa película é uma das melhores que já vi, no entanto, não consigo dizer que ela é a obra-prima de Kubrick, pois fico entre essa e a visualmente extasiante 2001: A Space Odyssey.
Acima de um excelente trabalho, considero Laranja Mecânica uma obra importantíssima na minha vida, pois ela me ensinou algumas lições sobre cinema. A primeira vez que assisti ao longa, há dois anos atrás, odiei-o. Aquilo era apenas um filme comprido, chato, que ia do nada ao lugar nenhum. Isso havia ocorrido por simplesmente um motivo: eu não havia compreendido a obra. Na época, estava começando a me interessar por cinema e resolvi alugar o filme. Errei ao escolher essa película para compor o início de minha cinefilia, pois Laranja Mecânica é um filme de difícil acesso: é uma obra violenta, crua, excêntrica, esteticamente vibrante (o que é estranho para alguém que não está acostumado) e com um anti-herói como protagonista. Imaginem isso para alguém que está apenas engatinhando no mundo do cinema, para alguém que era fã de Adam Sandler (Sim! Eu era fã do Adam Sandler!), Rob Schneider e qualquer outro ator que aparecesse em comédias pastéis. Minha namorada, Stephanie, é testemunha do meu péssimo gosto da época, além da minha completa incapacidade de assistir a algo mais sério do que aquilo. Um simples filme policial já era o suficiente para me deixar completamente entediado, fazendo com que eu me distanciasse da tela. Há dois anos atrás, a indirença quanto à maioria dos filmes não era devido ao vazio desses, mas sim a minha falta de percepção.
Há vezes em que não gosto de um filme devido ao vazio desse, mas há outras nas quais meu desgosto é apenas uma conseqüência da minha incompreensão daquilo que deveria ser compreendido. Essa última afirmativa (“incompreensão daquilo que deveria ser compreendido”) pode parecer redundande, mas não é. Há casos em que o cineasta intencionalmente confunde o espectador ao não expressar uma interpretação irrefutável – como nas obras de David Lynch, realizador do qual sou fã -, mas também há vezes em que simplesmente não conseguimos absorver a riqueza das obras de interpretação aproximadamente linear (quando assisti pela primeira vez a Laranja Mecânica, por exemplo). Além desses dois acontecimentos, há um terceiro, o qual nasce da falta de capacidade de não assimilar a existência de idéias que não eram para ser necessariamente compreendidas (como quem, ao ver algum filme de Lynch, não compreende a inexistência de uma verdade semântica absoluta).
Laranja Mecânica me ensinou a escutar meu bom senso, a saber o porquê de minha indiferença quanto a algumas obras. O período de dois anos pode parecer pequeno, mas para mim não foi. Nesse tempo pesquisei longas e cineastas, procurei na internet listas e listas de importantes obras, fui a locadoras com uma listagem dessas fitas na mão e perguntava filme por filme aos atendentes (era uma lista de 5 páginas; alías, ainda é, pois ainda não assisti a todas as películas que nela estão); fui cada vez me apaixonando mais por cinema, e assim o it was RED nasceu. Ao invés de engatinhar, começo a esboçar os primeiros passos de minha cinefilia, no entanto, estou longe de conseguir caminhar com total desenvoltura, de correr pelo mundo da sétima-arte. Espero um dia chegar lá.
segunda-feira, 23 de novembro de 2009
Selo
- Cinema e Eu
- Museu do Cinema
- Diz que fui eu aí...
- Cinecabeça
- Plano-Sequência
- Um olhar além da tela
- TUDO [é] Crítica
- Cinema sem tempo
- Cenas de Cinema
- Cinema

Os escolhidos devem repassar o selo para outros 10 blogs. Abraço e parabéns a todos!
quinta-feira, 19 de novembro de 2009
soco no estômago 03: Lady Vingança (Chan-wook Park, Trilogia da Vingança e meus antagonismos)
Chan-wook Park é o autor da Trilogia da Vingança, composta por Mr. Vingança (2002), Oldboy (2003) e Lady Vingança (2005). As três obras têm em comum, além do tema principal, o uso excessivo da violência. O estilo exagerado do diretor foi criticado por alguns no seu novo filme, Thirst (2009). Ao contrário dos que criticaram, sou seduzido pela falsidade presente na obra do cineasta.
O diretor me faz refletir sobre os possíveis antagonismos presentes no meu gosto pela sétima arte. Ora encanto-me com o realismo presente nas obras de Bergman, ora sou seduzido pelo universo onírico presente na obra de David Lynch; maravilho-me com os golpes que Gaspar Noé dá na minha alma, mas também amo a delicadeza das películas de Almodóvar; fico extasiado com a densidade dos filmes de Godard, porém, mesmo assim, adoro ver The Rocky Horror Picture Show (1975) e ficar cantarolando as músicas desse excelente musical. Mas seria isso um ato antagônico? Provavelmente sim. Entretanto, encaro essa contradição como um evento natural, pois, caso contrário, iria apenas desfrutar de uma parcela ínfima das obras cinematográficas; ficaria restrito à apenas um estilo; seria, culturalmente, o pior tipo de cego existente.
Já li a respeito de uma semelhança entre Quentin Tarantino e Chan-wook Park, essa refletida principalmente na comparação entre Lady Vingança e Kill Bill. O estado-unidense e o sul-coreano têm em comum apenas o tema violência. As semelhanças acabam por aí, pois cada um trata de uma maneira essa ampla temática. Quentin dá uma intenção humorística aos seus filmes, enquanto que Park visa o lirismo, através da fotografia de extrema beleza e da trilha sonora igualmente formosa. Quanto a Lady Vingança e Kill Bill, ambos tratam sobre mulheres que buscam vingança. Naquele, temos o olhar de um diretor que vê a violência de forma poética; nesse, temos a visão do cineasta que olha a violência de forma divertida.
A Trilogia da Vingança traz algumas idéias em comum, como a dos dois tipos de seqüestro: o bom e o ruim. O que beneficia é aquele que mantém o refém intacto e o devolve à família em troca de uma quantia de dinheiro que não fará falta a ela; com o reecontro, familiares e seqüestrado se aproximam e o amor existente entre eles cresce. Além disso, os seqüestradores ganham o dinheiro. Assim, todos saem ganhando. O que prejudica é aquele que tem como final a morte do seqüestrado. Desse modo, a família tem a perda de um ente querido e os seqüestradores acabam presos.
Lady Vingança é o meu filme predileto da Trilogia da Vingança. Apesar de ter o roteiro um pouco menos engenhoso do que Oldboy e Mr. Vingança, a película é a que contém o tom mais poético. Dessa forma, é como se fossemos atingidos na alma por uma flor, mas uma flor que fere. É esse romper do falso paralelo violência/lirismo que me seduziu na película que encerra a trilogia.
O longa-metragem mostra a história de Geum-ja Lee (Yeong-ae Lee), que ficou presa durante treze anos devido à falsa acusação de homicídio de um garoto para ocultar o verdadeiro culpado, seu ex-namorado Baek. No presídio Geum-ja Lee arquiteta um plano para se vingar do ex-namorado e, com seu objetivo em mente, ela busca a simpatia de cada um através de favores para que, desse modo, todos possam colaborar com seu plano.
Quando Geum-ja Lee é libertada, ela pretende colocar em prática tudo o que arquitetou. A protagonista, que antes era uma moça recatada, tornou-se uma mulher ativa. Essa mudança ocorre também no modo como ela se veste, o que é mostrado diversas vezes durante o longa, como quando a personagem principal é indagada sobre sua maquiagem. “Geum-ja Lee, por que essa sombra vermelha?”. Vermelho: a cor do sangue. Acredito que a cor não fora escolhida por acaso.
O maior choque que levamos é durante a vingança de Geum-ja Lee. (SPOILER)A protagonista consegue capturar seu ex-namorado e junta evidências de que quem matou o menino foi ele. As provas são filmes que o assassino gravava sempre antes de matar as crianças, além de objetos pessoais das vítimas os quais ele guardava. A personagem principal reúne os pais das crianças e o policial responsável pelo caso para mostrar a eles as fitas. É absurdamente chocante. O cineasta não deixa escapar nada: ele exibe sem piedade o assassinato das crianças e, ao mesmo tempo, revela a dor dos pais, tudo isso feito com muita criatividade. Após os pais terem assistido às filmagens, eles perguntam para que o seqüestrador queria o dinheiro. A resposta: para comprar um iate. Silêncio é a reação dos abalados pais. Então, a protagonista pergunta a eles e ao policial o que deveriam fazer com o assassino: deixar nas mãos da polícia e da justiça, ou permitir que eles realizassem sua vingança? O interessante é que Park tenta tornar a situação extremamente real. Cada um começa com uma opinião; há casais que já se separaram; existem os mais sedentos por vingança, mas também os mais cautelosos estão presentes. O mais instigante é a questão moral levantada. O que você faria? Eu não tenho filhos, mas imagino que não deve ser a melhor sensação do mundo assistir à execução de um. Ao dirigir a pergunta aos pais, Geum-ja Lee pede uma resposta a mim, a ti e a quem assiste ao filme. Após alguma discussão, é decidido que eles mesmos resolveriam o problema. Mas aí se encontra outra questão: quem será o primeiro a saciar sua sede por vingança? Com questionamentos como esses, Park aproxima arte da realidade. (FIM DO SPOILER).
Durante Lady Vingança, as personagens são postas frente a vários questionamentos morais. Será que a vingança resolve alguma coisa? Não seria apenas uma paixão que arde e que, após saciada, teria o seu lugar tomado por um imenso vazio? O que é moralmente correto? Chan-wook Park comunica-se com seu público ao pontuar seu filme com esses problemas.
Lady Vingança é um singular soco no estômago: poético, emocionante e dolorido. A película aparentemente se contradiz, pois, simultaneamente, mostra um universo exagerado e realista. No entanto, é esse antagonismo que me encanta. Lady Vingança é um filme antagônico, assim como nós.
PS: A série "soco no estômago" ainda não acabou, pois outras postagens com o mesmo tema virão. Gostaria que vocês sugerissem filmes para eu incluir na série, assim como fez Marcos Ribeiro, do blog Epipocando, que sugeriu Elephant - brilhante obra de Gus van Sant a qual brevemente será comentada aqui. Abraço a todos os leitores!
terça-feira, 10 de novembro de 2009
soco no estômago 02: Anticristo
Antichrist é a última e controversa obra do nada humilde Lars von Trier, dinamarquês que se considera o melhor diretor do mundo. O cineasta foi responsável por Dogville (2003) – um filme que, apesar de aclamado pela crítica e público, pouco me agradou -, O Grande Chefe (2006) – uma película interessante -, além de ser um dos idealizadores do movimento cinematográfico internacional Dogma 95.
Lars von Trier
A película em questão conta a história do casal anônimo protagonizado por Willem Dafoe e Charlotte Gainsbourg que, durante uma calorosa transa, não percebe que o filho deles sai do berço em direção à janela e se joga dela. A cena é de uma beleza singular, contrastando com seu horror semântico e com o resto do filme: a explícita exibição da sexualidade existente entre os dois ocorre em slow motion, preto e branco, com o casal de baixo de um chuveiro; a água cai lentamente, a câmera foca o prazer no rosto das personagens, além de estabelecer semelhanças corporais entre a queda da criança e a transa do casal. A fração inical de Antichrist mostra detalhadamente a penetração durante a relação do casal, incomodando os mais puritanos. Esses não sabiam o que os esperavam.
A mulher é quem mais sofre com a perda da criança, e é esse sofrimento que Lars quer mostrar para nós. O homem, que é psicólogo, tenta tratar a mulher do modo o qual ele acha que é certo, mesmo que para isso seja necessário contrariar os outros médicos. Pronto. As personagens foram construídas e Lars preparado para, não nos fazer mergulhar em um mundo sombrio, mas nos afogar nele. É nesse universo que está o maior trunfo, mas também o maior prejuízo do filme.
SEMPRE que alguém fala sobre Antichrist eu escuto a mesma coisa: “E aquela cena em que ele faz isso? E naquela que ela faz aquilo? E na outra que acontece isso?”. A obra ficou conhecida pela grande maioria apenas por suas cenas fortes. A fama das perturbadoras seqüências é tão grande que se sobrepõe a da própria película. O que vejo em vários espectadores é que eles fecharam os olhos para a grandiosidade da obra, tornando essa apenas uma pausa entre uma cena chocante e outra. Não estou dizendo que as cenas perturbadoras são ruins; pelo contrário, as acho geniais. Mas é uma grande perda ignorar o resto da obra.
Uma das cenas que chocou as platéias foi a da raposa falando com a personagem de Dafoe. Antes de assistir a película eu já tinha conhecimento dessa seqüência e esperava que ela fosse um desastre. Como uma fala proferida por uma raposa poderia ser assustadora? Imaginava algo completamente computadorizado, de uma falsidade que, ao invés de me assustar, me faria rir. Surpreendemente a cena que vi foi muito aterrorizante e natural. As palavras ditas pela raposa (“Chaos reigns”) acompanham um movimento que seria verossímil na boca do animal.
Mas mais do que as cenas chocantes, Antichrist perturba pelo seu clima pesado. A obra é muito escura e, nas cenas que são rodadas dentro do apartamento do casal, conseguimos sentir perfeitamente a atmosfera do local. Diria que é possível até sentir aquele cheiro de ambiente fechado com um clima de tristeza. Além da atmosfera, o drama psicológico enfrentado pela personagem de Charlotte Gainsbourg atingiu-me em cheio. Que significado teria tua sexualidade após teres perdido teu único filho durante uma transa? Trier responde a essa pergunta com maestria. Não é por acaso que o cineasta escreveu o roteiro durante uma crise de depressão. Antichrist é, acima de um excelente soco no estômago, a melhor obra que assisti de Lars von Trier.


