Cinema e literatura são artes muito próximas; por isso, me agrada muito um filme que consegue separar um do outro, ou seja, transformar a sétima arte em uma experiência visual. Isso acontece em Império dos Sonhos, um dos meus filmes prediletos em geral e, com certeza, o melhor de David Lynch. Inland Empire é cinema de verdade.

Antes de realizar Império dos Sonhos, suas películas possuíam um elo com a razão. Nesse longa - que foi inteiramente filmado com câmera digital - isso não acontece; o diretor foi mais longe do que nunca, pois não há explicação para a obra. Apesar disso, há quem procure um sentido para ela, mas qualquer interpretação não passa de uma mera especulação; cada um cria a sua. Eu, sinceramente, me recuso a criar uma, pois isso tiraria todo o sentido do filme.
Inland Empire conta a história de Nick (Laura Dern), uma atriz que vai interpretar Susan Blue em uma refilmagem de uma produção polonesa cujos protagonistas morreram durante a gravação. Ela é casada com um homem poderoso que alerta Devon, ator sedutor que interpretará Billy Side e contracenará com Nick, para não se envolver com essa. Com o início das filmagens, ela começa a confundir sua vida com a da sua personagem, abrido portas para um confuso universo ilustrado por Lynch com corredores, jogos de luzes, coelhos em uma sala, cortinas vermelhas e outros objetos que, com o toque do cineasta, transformam o filme em uma experiência visual nunca vista antes.
Quem gosta e quem não gosta de Império dos Sonhos tem o mesmo argumento: “Mas isso não faz sentido! Três horas de uma coisa completamente irracional!”. O lado de quem aprecia: com essa proposta, Lynch abre portas para um cinema completamente diferente, no qual não podemos explicar tudo. Ficar racionalizando o que o cineasta faz é destruir completamente sua obra, porque Império dos Sonhos é um filme para se sentir: não há porquês. Aí está toda a magia da obra: abandonando o racional, ele deixa as sensações fluirem na tela.

Digo que Inland Empire é um longa que tem Lynch na sua melhor forma, pois, assistindo a obra, percebemos que diretor gozou de total liberdade para realiza-la, para por toda sua criatividade e ousadia na tela. Nunca a dramaticidade de sua luz foi tão intensa; nunca seu experimentalismo foi tão longe; nunca houve uma experiência visual tão enérgica quanto essa. Diria que nenhum filme, nem Un chien Andalou (Luis Buñuel, 1929) e Eraserhead (David Lynch, 1979), conseguiu tratar, com tamanha maestria, do universo surreal. Aliás, surreal é uma palavra que se encaixa prefeitamente a obra lynchiana. Império dos Sonhos é mais do que um simples filme: é uma experiência única.
PS: Sugiro que para quem não conhece o cineasta não começar por Império dos Sonhos, mas por um longa mais coerente.