
Chan-wook Park é o autor da Trilogia da Vingança, composta por Mr. Vingança (2002), Oldboy (2003) e Lady Vingança (2005). As três obras têm em comum, além do tema principal, o uso excessivo da violência. O estilo exagerado do diretor foi criticado por alguns no seu novo filme, Thirst (2009). Ao contrário dos que criticaram, sou seduzido pela falsidade presente na obra do cineasta.
O diretor me faz refletir sobre os possíveis antagonismos presentes no meu gosto pela sétima arte. Ora encanto-me com o realismo presente nas obras de Bergman, ora sou seduzido pelo universo onírico presente na obra de David Lynch; maravilho-me com os golpes que Gaspar Noé dá na minha alma, mas também amo a delicadeza das películas de Almodóvar; fico extasiado com a densidade dos filmes de Godard, porém, mesmo assim, adoro ver The Rocky Horror Picture Show (1975) e ficar cantarolando as músicas desse excelente musical. Mas seria isso um ato antagônico? Provavelmente sim. Entretanto, encaro essa contradição como um evento natural, pois, caso contrário, iria apenas desfrutar de uma parcela ínfima das obras cinematográficas; ficaria restrito à apenas um estilo; seria, culturalmente, o pior tipo de cego existente.

Já li a respeito de uma semelhança entre Quentin Tarantino e Chan-wook Park, essa refletida principalmente na comparação entre Lady Vingança e Kill Bill. O estado-unidense e o sul-coreano têm em comum apenas o tema violência. As semelhanças acabam por aí, pois cada um trata de uma maneira essa ampla temática. Quentin dá uma intenção humorística aos seus filmes, enquanto que Park visa o lirismo, através da fotografia de extrema beleza e da trilha sonora igualmente formosa. Quanto a Lady Vingança e Kill Bill, ambos tratam sobre mulheres que buscam vingança. Naquele, temos o olhar de um diretor que vê a violência de forma poética; nesse, temos a visão do cineasta que olha a violência de forma divertida.
A Trilogia da Vingança traz algumas idéias em comum, como a dos dois tipos de seqüestro: o bom e o ruim. O que beneficia é aquele que mantém o refém intacto e o devolve à família em troca de uma quantia de dinheiro que não fará falta a ela; com o reecontro, familiares e seqüestrado se aproximam e o amor existente entre eles cresce. Além disso, os seqüestradores ganham o dinheiro. Assim, todos saem ganhando. O que prejudica é aquele que tem como final a morte do seqüestrado. Desse modo, a família tem a perda de um ente querido e os seqüestradores acabam presos.
Lady Vingança é o meu filme predileto da Trilogia da Vingança. Apesar de ter o roteiro um pouco menos engenhoso do que Oldboy e Mr. Vingança, a película é a que contém o tom mais poético. Dessa forma, é como se fossemos atingidos na alma por uma flor, mas uma flor que fere. É esse romper do falso paralelo violência/lirismo que me seduziu na película que encerra a trilogia.
O longa-metragem mostra a história de Geum-ja Lee (Yeong-ae Lee), que ficou presa durante treze anos devido à falsa acusação de homicídio de um garoto para ocultar o verdadeiro culpado, seu ex-namorado Baek. No presídio Geum-ja Lee arquiteta um plano para se vingar do ex-namorado e, com seu objetivo em mente, ela busca a simpatia de cada um através de favores para que, desse modo, todos possam colaborar com seu plano.
Quando Geum-ja Lee é libertada, ela pretende colocar em prática tudo o que arquitetou. A protagonista, que antes era uma moça recatada, tornou-se uma mulher ativa. Essa mudança ocorre também no modo como ela se veste, o que é mostrado diversas vezes durante o longa, como quando a personagem principal é indagada sobre sua maquiagem. “Geum-ja Lee, por que essa sombra vermelha?”. Vermelho: a cor do sangue. Acredito que a cor não fora escolhida por acaso.

O maior choque que levamos é durante a vingança de Geum-ja Lee. (SPOILER)A protagonista consegue capturar seu ex-namorado e junta evidências de que quem matou o menino foi ele. As provas são filmes que o assassino gravava sempre antes de matar as crianças, além de objetos pessoais das vítimas os quais ele guardava. A personagem principal reúne os pais das crianças e o policial responsável pelo caso para mostrar a eles as fitas. É absurdamente chocante. O cineasta não deixa escapar nada: ele exibe sem piedade o assassinato das crianças e, ao mesmo tempo, revela a dor dos pais, tudo isso feito com muita criatividade. Após os pais terem assistido às filmagens, eles perguntam para que o seqüestrador queria o dinheiro. A resposta: para comprar um iate. Silêncio é a reação dos abalados pais. Então, a protagonista pergunta a eles e ao policial o que deveriam fazer com o assassino: deixar nas mãos da polícia e da justiça, ou permitir que eles realizassem sua vingança? O interessante é que Park tenta tornar a situação extremamente real. Cada um começa com uma opinião; há casais que já se separaram; existem os mais sedentos por vingança, mas também os mais cautelosos estão presentes. O mais instigante é a questão moral levantada. O que você faria? Eu não tenho filhos, mas imagino que não deve ser a melhor sensação do mundo assistir à execução de um. Ao dirigir a pergunta aos pais, Geum-ja Lee pede uma resposta a mim, a ti e a quem assiste ao filme. Após alguma discussão, é decidido que eles mesmos resolveriam o problema. Mas aí se encontra outra questão: quem será o primeiro a saciar sua sede por vingança? Com questionamentos como esses, Park aproxima arte da realidade. (FIM DO SPOILER).
Durante Lady Vingança, as personagens são postas frente a vários questionamentos morais. Será que a vingança resolve alguma coisa? Não seria apenas uma paixão que arde e que, após saciada, teria o seu lugar tomado por um imenso vazio? O que é moralmente correto? Chan-wook Park comunica-se com seu público ao pontuar seu filme com esses problemas.

Lady Vingança é um singular soco no estômago: poético, emocionante e dolorido. A película aparentemente se contradiz, pois, simultaneamente, mostra um universo exagerado e realista. No entanto, é esse antagonismo que me encanta. Lady Vingança é um filme antagônico, assim como nós.
PS: A série "soco no estômago" ainda não acabou, pois outras postagens com o mesmo tema virão. Gostaria que vocês sugerissem filmes para eu incluir na série, assim como fez Marcos Ribeiro, do blog Epipocando, que sugeriu Elephant - brilhante obra de Gus van Sant a qual brevemente será comentada aqui. Abraço a todos os leitores!




Gaspar Noé









