8 it was RED

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

soco no estômago 03: Lady Vingança (Chan-wook Park, Trilogia da Vingança e meus antagonismos)

Lady Vingança (Chinjeolhan geumjassi, 2005)
Direção: Chan-wook Park
Roteiro: Seo-Gyeong Jeong, Chan-wook Park

Chan-wook Park é o autor da Trilogia da Vingança, composta por Mr. Vingança (2002), Oldboy (2003) e Lady Vingança (2005). As três obras têm em comum, além do tema principal, o uso excessivo da violência. O estilo exagerado do diretor foi criticado por alguns no seu novo filme, Thirst (2009). Ao contrário dos que criticaram, sou seduzido pela falsidade presente na obra do cineasta.

O diretor me faz refletir sobre os possíveis antagonismos presentes no meu gosto pela sétima arte. Ora encanto-me com o realismo presente nas obras de Bergman, ora sou seduzido pelo universo onírico presente na obra de David Lynch; maravilho-me com os golpes que Gaspar Noé dá na minha alma, mas também amo a delicadeza das películas de Almodóvar; fico extasiado com a densidade dos filmes de Godard, porém, mesmo assim, adoro ver The Rocky Horror Picture Show (1975) e ficar cantarolando as músicas desse excelente musical. Mas seria isso um ato antagônico? Provavelmente sim. Entretanto, encaro essa contradição como um evento natural, pois, caso contrário, iria apenas desfrutar de uma parcela ínfima das obras cinematográficas; ficaria restrito à apenas um estilo; seria, culturalmente, o pior tipo de cego existente.

Chan-wook Park


Já li a respeito de uma semelhança entre Quentin Tarantino e Chan-wook Park, essa refletida principalmente na comparação entre Lady Vingança e Kill Bill. O estado-unidense e o sul-coreano têm em comum apenas o tema violência. As semelhanças acabam por aí, pois cada um trata de uma maneira essa ampla temática. Quentin dá uma intenção humorística aos seus filmes, enquanto que Park visa o lirismo, através da fotografia de extrema beleza e da trilha sonora igualmente formosa. Quanto a Lady Vingança e Kill Bill, ambos tratam sobre mulheres que buscam vingança. Naquele, temos o olhar de um diretor que vê a violência de forma poética; nesse, temos a visão do cineasta que olha a violência de forma divertida.

A Trilogia da Vingança traz algumas idéias em comum, como a dos dois tipos de seqüestro: o bom e o ruim. O que beneficia é aquele que mantém o refém intacto e o devolve à família em troca de uma quantia de dinheiro que não fará falta a ela; com o reecontro, familiares e seqüestrado se aproximam e o amor existente entre eles cresce. Além disso, os seqüestradores ganham o dinheiro. Assim, todos saem ganhando. O que prejudica é aquele que tem como final a morte do seqüestrado. Desse modo, a família tem a perda de um ente querido e os seqüestradores acabam presos.

Lady Vingança é o meu filme predileto da Trilogia da Vingança. Apesar de ter o roteiro um pouco menos engenhoso do que Oldboy e Mr. Vingança, a película é a que contém o tom mais poético. Dessa forma, é como se fossemos atingidos na alma por uma flor, mas uma flor que fere. É esse romper do falso paralelo violência/lirismo que me seduziu na película que encerra a trilogia.

O longa-metragem mostra a história de Geum-ja Lee (Yeong-ae Lee), que ficou presa durante treze anos devido à falsa acusação de homicídio de um garoto para ocultar o verdadeiro culpado, seu ex-namorado Baek. No presídio Geum-ja Lee arquiteta um plano para se vingar do ex-namorado e, com seu objetivo em mente, ela busca a simpatia de cada um através de favores para que, desse modo, todos possam colaborar com seu plano.

Quando Geum-ja Lee é libertada, ela pretende colocar em prática tudo o que arquitetou. A protagonista, que antes era uma moça recatada, tornou-se uma mulher ativa. Essa mudança ocorre também no modo como ela se veste, o que é mostrado diversas vezes durante o longa, como quando a personagem principal é indagada sobre sua maquiagem. “Geum-ja Lee, por que essa sombra vermelha?”. Vermelho: a cor do sangue. Acredito que a cor não fora escolhida por acaso.




O maior choque que levamos é durante a vingança de Geum-ja Lee. (SPOILER)A protagonista consegue capturar seu ex-namorado e junta evidências de que quem matou o menino foi ele. As provas são filmes que o assassino gravava sempre antes de matar as crianças, além de objetos pessoais das vítimas os quais ele guardava. A personagem principal reúne os pais das crianças e o policial responsável pelo caso para mostrar a eles as fitas. É absurdamente chocante. O cineasta não deixa escapar nada: ele exibe sem piedade o assassinato das crianças e, ao mesmo tempo, revela a dor dos pais, tudo isso feito com muita criatividade. Após os pais terem assistido às filmagens, eles perguntam para que o seqüestrador queria o dinheiro. A resposta: para comprar um iate. Silêncio é a reação dos abalados pais. Então, a protagonista pergunta a eles e ao policial o que deveriam fazer com o assassino: deixar nas mãos da polícia e da justiça, ou permitir que eles realizassem sua vingança? O interessante é que Park tenta tornar a situação extremamente real. Cada um começa com uma opinião; há casais que já se separaram; existem os mais sedentos por vingança, mas também os mais cautelosos estão presentes. O mais instigante é a questão moral levantada. O que você faria? Eu não tenho filhos, mas imagino que não deve ser a melhor sensação do mundo assistir à execução de um. Ao dirigir a pergunta aos pais, Geum-ja Lee pede uma resposta a mim, a ti e a quem assiste ao filme. Após alguma discussão, é decidido que eles mesmos resolveriam o problema. Mas aí se encontra outra questão: quem será o primeiro a saciar sua sede por vingança? Com questionamentos como esses, Park aproxima arte da realidade. (FIM DO SPOILER).

Durante Lady Vingança, as personagens são postas frente a vários questionamentos morais. Será que a vingança resolve alguma coisa? Não seria apenas uma paixão que arde e que, após saciada, teria o seu lugar tomado por um imenso vazio? O que é moralmente correto? Chan-wook Park comunica-se com seu público ao pontuar seu filme com esses problemas.



Lady Vingança é um singular soco no estômago: poético, emocionante e dolorido. A película aparentemente se contradiz, pois, simultaneamente, mostra um universo exagerado e realista. No entanto, é esse antagonismo que me encanta. Lady Vingança é um filme antagônico, assim como nós.


PS: A série "soco no estômago" ainda não acabou, pois outras postagens com o mesmo tema virão. Gostaria que vocês sugerissem filmes para eu incluir na série, assim como fez Marcos Ribeiro, do blog Epipocando, que sugeriu Elephant - brilhante obra de Gus van Sant a qual brevemente será comentada aqui. Abraço a todos os leitores!

terça-feira, 10 de novembro de 2009

soco no estômago 02: Anticristo

Anticristo (Antichrist, 2009)
Direção: Lars von Trier
Roteiro: Lars von Trier



Antichrist é a última e controversa obra do nada humilde Lars von Trier, dinamarquês que se considera o melhor diretor do mundo. O cineasta foi responsável por Dogville (2003) – um filme que, apesar de aclamado pela crítica e público, pouco me agradou -, O Grande Chefe (2006) – uma película interessante -, além de ser um dos idealizadores do movimento cinematográfico internacional Dogma 95.

Lars von Trier


A película em questão conta a história do casal anônimo protagonizado por Willem Dafoe e Charlotte Gainsbourg que, durante uma calorosa transa, não percebe que o filho deles sai do berço em direção à janela e se joga dela. A cena é de uma beleza singular, contrastando com seu horror semântico e com o resto do filme: a explícita exibição da sexualidade existente entre os dois ocorre em slow motion, preto e branco, com o casal de baixo de um chuveiro; a água cai lentamente, a câmera foca o prazer no rosto das personagens, além de estabelecer semelhanças corporais entre a queda da criança e a transa do casal. A fração inical de Antichrist mostra detalhadamente a penetração durante a relação do casal, incomodando os mais puritanos. Esses não sabiam o que os esperavam.


A mulher é quem mais sofre com a perda da criança, e é esse sofrimento que Lars quer mostrar para nós. O homem, que é psicólogo, tenta tratar a mulher do modo o qual ele acha que é certo, mesmo que para isso seja necessário contrariar os outros médicos. Pronto. As personagens foram construídas e Lars preparado para, não nos fazer mergulhar em um mundo sombrio, mas nos afogar nele. É nesse universo que está o maior trunfo, mas também o maior prejuízo do filme.

SEMPRE que alguém fala sobre Antichrist eu escuto a mesma coisa: “E aquela cena em que ele faz isso? E naquela que ela faz aquilo? E na outra que acontece isso?”. A obra ficou conhecida pela grande maioria apenas por suas cenas fortes. A fama das perturbadoras seqüências é tão grande que se sobrepõe a da própria película. O que vejo em vários espectadores é que eles fecharam os olhos para a grandiosidade da obra, tornando essa apenas uma pausa entre uma cena chocante e outra. Não estou dizendo que as cenas perturbadoras são ruins; pelo contrário, as acho geniais. Mas é uma grande perda ignorar o resto da obra.

Uma das cenas que chocou as platéias foi a da raposa falando com a personagem de Dafoe. Antes de assistir a película eu já tinha conhecimento dessa seqüência e esperava que ela fosse um desastre. Como uma fala proferida por uma raposa poderia ser assustadora? Imaginava algo completamente computadorizado, de uma falsidade que, ao invés de me assustar, me faria rir. Surpreendemente a cena que vi foi muito aterrorizante e natural. As palavras ditas pela raposa (“Chaos reigns”) acompanham um movimento que seria verossímil na boca do animal.

Mas mais do que as cenas chocantes, Antichrist perturba pelo seu clima pesado. A obra é muito escura e, nas cenas que são rodadas dentro do apartamento do casal, conseguimos sentir perfeitamente a atmosfera do local. Diria que é possível até sentir aquele cheiro de ambiente fechado com um clima de tristeza. Além da atmosfera, o drama psicológico enfrentado pela personagem de Charlotte Gainsbourg atingiu-me em cheio. Que significado teria tua sexualidade após teres perdido teu único filho durante uma transa? Trier responde a essa pergunta com maestria. Não é por acaso que o cineasta escreveu o roteiro durante uma crise de depressão. Antichrist é, acima de um excelente soco no estômago, a melhor obra que assisti de Lars von Trier.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

soco no estômago 01: Seul contre tous (x Irréversible)

Sozinho contra todos (Seul contre tous, 1998)
Direção: Gaspar Noé
Roteiro: Gaspar Noé



Para que vemos filmes? Para que apreciamos a arte? Ora, eu o faço procurando que as mais diversas emoções sejam despertadas em minha alma: tristeza, felicidade, ansiedade, perturbação... Pretendo nos próximos 3 posts (ou mais) dar uma atenção especial às obras cinematográficas que provoquem a última emoção citada. Sou um apreciador do cinema-perturbador, pois, como disse Chan-wook Park, se tu queres te sentir bem não vá ver um filme, mas vá a um SPA. Entretanto, as películas não devem abalar o espírito apenas por abalar; deve haver um objetivo com isso, mesmo que esse seja abstrato, afinal, cinema é arte. Digo isso, pois há inúmeros filmes que se valem de imagens fortes que buscam apenas atrair o espectador para, assim, encher os bolsos das produtoras.

O primeiro selecionado é Seul contre tous, obra-prima de Gaspar Noé. O diretor, que é um adepto do cinema-escroto, tem Irréversible (2002) como seu filme de maior sucesso. Essa película choca pelas imagens fortes (vide as famosas cenas do extintor e do estupro). Entretanto, por mais pertubador que seja assistir uma mulher sendo violentada durante quase 10 minutos, por mais horrível que seja olhar um homem ter sua cabeça esmagada por um extintor, esse desconforto é momentâneo. Já em Seul contre tous, temos nosso espírito ferido de um modo diferente.


A primeira película de Noé começa declarando que deveriam ser feitos filmes sobre homens comuns. O diretor franco-argentino resolve esse problema ao selecionar um açougueiro sem nome (Philippe Nahon) para protagonizar seu longa. O homem de meia-idade é aparentemente um sujeito comum, porém, isso é apenas uma ilusão. Ele é um indivíduo completamente perturbado, e é esse lado que é exibido para o expectador em Seul contre tous.

Gaspar Noé
Em poucos minutos, Gaspar nos informa a biografia do homem de 50 anos, orfão cuja mãe o abandonou e o pai morreu na 2ª Guerra Mundial. O protagonista teve sua virgindade consumida ao ter sido estuprado por um docente em nome de Jesus. Após aprender o ofício de açougueiro e abrir seu próprio negócio, ele conhece uma jovem trabalhadora têxtil e tira-lhe a virgindade em um hotel localizado em frente da fábrica onde ela trabalhava. Esse acontecimento resultaria em uma filha, Cynthia. A mãe não quer saber da criança, deixando-a para o pai cuidar. O indivíduo é atraído sexualmente pela menina ao ver as transformações que ela sofre durante a puberdade. Após achar que ela foi violentada por um pedreiro, ele assassina quem ele supõe que abusou de sua garota, mas tira a vida da pessoa errada. A personagem principal é presa e a filha vai para um conservatório. Após libertado o pai solteiro vai trabalhar em um café, onde ele começa a se relacionar com a dona do estabelecimento. A mulher engravida, vende a instalação e hospeda o açougueiro em sua casa. Lá ele vive com sua sogra e sua mulher.
Noé, em poucos minutos, nos conta toda a trajetória do açougueiro, a qual renderia um filme inteiro. Mas por que, ao invés de filmar a parte mais agitada da vida desse homem, Gaspar decide mostrar um momento de sua existência aparentemente menos turbulento? Digo que o cineasta tenta mostrar a parte normal de um homem normal. No entanto, a aparência pacata é apenas uma maquiagem que cobre um ser repleto de uma filosofia completamente negativista. Durante o longa, somos metralhados com idéias perturbadoras, que abrem feridas em nossos espíritos. Essas, ao contrário de em Irréversible, continuam sangrando após o término do filme.

Philippe Nahon interpretou excelentemente o açougueiro perturbado. Somos presenteados com sua brilhante atuação durante todo o longa, pois o que assistimos é praticamente um monólogo. Philippe encarna de maneira esplêndida um homem que é ao mesmo tempo aparentemente comum e psicologicamente perturbado, com raiva de tudo e de todos: homossexuais, negros, imigrantes, empresários, etc.

Sou obrigado a comentar o final de Seul contre tous, parcela a qual é responsável pela maior ferida que abre o filme abre. O próprio diretor nos adverte do perigo que corremos ao assistir o desfecho ao mostrar na tela: “Você tem 30 segundos para abandonar a sala de projeção”. Assim começa a contagem regressiva para o maior soco no estômago cinematográfico que levaria na minha vida. (SPOILER). O açougueiro resolve buscar sua filha no reformatório e levá-la para o mesmo quarto de hotel em que desvirginou sua mulher. Lá ele resolve violentar sua filha e depois matá-la. Ele dispara um tiro em seu pescoço. A garota agoniza no chão. O pai está desesperado, não sabe o que fazer. Vendo o desespero da filha o homem dá outro tiro nela, acabando com seu sofrimento. O homem resolve se matar. Pestaneja, não sabe o que fazer. Batem na porta do quarto para saber o que está acontecento. O homem começa a se assustar. Somos bombardeados com vários pensamentos da personagem, uma espécie de síntese de todo negativismo contido na película. O açougueiro decide se matar. Bum!

(SPOILER) Entretanto, tudo não passou de uma alucinação. A personagem interpretada por Philippe Nahon tinha apenas imaginado como seria matar a filha e se matar depois. O açougueiro se arrepende de ter pensado nesse possível futuro. Ele abraça sua filha, diz que a ama mais do que tudo. Inicialmente achamos que estamos diante de um amor paterno, mas o abraço começa a se prolongar e beijos começam a ser dados. Percebemos que não estamos mais diante de uma relação normal entre pai e filha. Nos é mostrado o açougueiro acariciando as coxas de Cynthia, exatamente como fizera com sua mãe. O filme acaba com um discurso do protagonista, defendendo a relação entre ele e sua menina, justificando que, se o tipo de amor entre eles é proibido, é porque é grande demais para as pessoas aceitarem. Fim. Tudo acaba como se fosse normal. Noé deixa uma sensação de que tudo é pacato ao filmar, durante a exposição do raciocínio do açougueiro, uma sucessão de eventos banais: uma estrada com crianças brincando e carros passando. No entanto, o amor entre Cynthia e seu pai não tem nada de regular! Está aí a maior ferida de todas! Gaspar, ao intencionalmente banalizar a bizarra relação entre o protagonista e sua filha, parece querer encaixar uma peça errada em um quebra-cabeça, e isso incomoda. E muito!(FIM DO SPOILER)

Seul contre tous é muito perturbador. Após vê-lo fiquei dois dias com seu clima mórbido. Essa genial obra deveria ser assistida por todos!

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Inglourious Basterds e Tarantino

Bastardos Inglórios (Inglourious Basterds, 2009)

Direção: Quentin Tarantino

Roteiro: Quentin Tarantino





Um músico amigo meu certa vez disse que um grande compositor é aquele que consegue agradar desde o mais erudito fã de música até o indivíduo que não tem nenhum conhecimento musical. Como exemplo ele citou Tom Jobim, falando que praticamente todos conhecem e apreciam suas composições. Uma prova disso é que, durante uma tarde em que estudava, meu amigo ouviu sua empregada cantando distraidamente “Garota de Ipanema”.


Se Tom Jobim conseguiu isso na música, Quentin Tarantino o fez no cinema. Uma prova desse fato é Inglourious Basterds: o cineasta conseguiu agradar desde o mais “erudito” cinéfilo, até o mais simples acompanhante da cena mainstream da sétima arte.


Tarantino faz parte dos "Cineastas do VCR”, uma geração de cineastas que não frequentou faculdades e que teve como escola a cinefilia. Outro profissional do cinema que faz parte desse grupo é Paul Thomas Anderson, amigo do diretor. Quentin afirmou que, se Inglourious Basterds foi um grande filme, em parte, é por culpa de There will be blood – último filme de p.t.a -, pois a qualidade dessa obra é um insentivo para ele realizar uma película à altura.


No entanto, assim como há quem não goste de Tom Jobim – não por falta de conhecimento, mas apenas por uma questão de gosto –, há quem não goste de Tarantino. Minha relação com o diretor beira o antagonismo. Ora amo seus filmes, ora eles não me agradam. Não diria que desgosto dele, pois sou fã de Pulp Fiction, me apaixonei por Inglourious Basterds e gostei muito de Reservoir Dogs. Apesar disso, não diria que ele é um dos meus diretores prediletos, pois Kill Bill e Jackie Brown não me agradaram.


O novo filme do diretor é uma singular releitura da Segunda Guerra Mundial na qual ele colocou todos os elementos característicos presentes em sua filmografia: o rítmo ágil do filme manifesta-se em várias cenas, como na cena da taverna – uma seqüência genial, na qual, em poucos segundos (literalmente), o rumo da cena é totalmente deslocado; os diálogos ousados e elaborados nos divertem e nos atraem em takes que, apesar de longos, não nos cansam em momento algum; e as referências a cultura pop aproximam o espectador do conflito reinventado por Quentin.



Duas atuações em Inglourious Basterds são dignas de destaque. Brad Pitt está muito bom no papel de Aldo Raine, entretanto, ele é ofuscado por Christoph Waltz, ganhador do prêmio de melhor ator no Festival de Cannes. Christoph está genial no papel de Hans Landa, o coronel que é conhecido pelo apelido “The Jew Hunter” (o caçador de judeus). O educado e excêntrico poliglota é responsável por cenas inesquecíveis.


Outra qualidade de Inglourious Basterds é o modo com o qual a obra transforma pequenas ações em atos imponentes, como na cena em que Shosanna (Mélanie Laurent) prepara o projetor para sabotar a grande estréia do filme "Orgulho da nação". Tarantino fez cada simples movimento realizado pela atriz parecer grandioso. Alguém poderia dizer que isso ocorre apenas devido ao encadeamento de idéias, pois aqueles feitos seriam cruciais para o destino da guerra; no entanto, o que torna a cena tensa é muito mais do que o contexto, é a maneira com a qual a cena foi feita e filmada. Quentin consegue deixar o espectador completamente tenso com um simples puxar de alavanca.


Tarantino se redimiu com Inglourious Basterds, pois, desde Pulp Fiction, o cineasta não realizava nada REALMENTE bom. O seu último longa é excelente e muito divertido. Essa é a obra-prima de Quentin, como o diretor dá a entender na cena final com a fala de Brad Pitt “I think this is my masterpiece”. Não lembro de ter me empolgado tanto com a película de 1994.

domingo, 11 de outubro de 2009

Giulietta, Fellini e Noites de Cabíria

Noites de Cabíria (Le notti di Cabiria, 1957)

Direção: Federico Fellini



Roteiro: Federico Fellini
Ennio Flaiano
Tullio Pinelli
Pier Paolo Pasolini
Maria Molinari




Quem foi o maior diretor de todos os tempos? Embora eu acredite que essa questão não tenha uma solução, a essa pergunta muitos dariam a mesma resposta: Federico Fellini. Esse importantíssimo cineasta foi o responsável por Noites de Cabíria, uma das minhas películas prediletas. A obra mostra as andanças de Cabíria, brilhantemente interpretada por Giulietta Masina – uma das minhas atrizes prediletas, se não A predileta – pelas ruas de Roma. O diretor casou-se com a atriz em 1942, permanecendo com ela até 1993, ano em que o mundo se despediu do mestre do cinema.

Como em todas as obras de Fellini que assisti até agora (81/2, La Strada, La dolce vita e I clowns), Le Notti di Cabiria possui um ar circense o qual é evidenciado ao longo do filme através de alguns elementos, como o show de ilusionismo, os músicos da cena final, a trilha sonora que remete a temas circenses e o show em um bar.


A parceria Giullieta–Federico teve sua estréia no cinema em La Strada. Fellini adorou a atuação de Masina, mas os produtores estavam preocupados com a aparência da atriz, a qual não possuía os atributos físicos esperados de uma protagonista da época. Com a insistência do diretor, Masina conseguiu o papel.

Federico Fellini e Giulietta Masina

Em Le Notti di Cabiria, Masina se identificou muito com a personagem principal e talvez esse seja o motivo de uma atuação tão magistral. Le Notti di Cabiria é o melhor trabalho de Fellini que já vi. O grande diferencial do filme é sua protagonista. Cabíria, apesar de ser uma prostituta, carrega um ar de menina consigo. Quando ela insulta, parece uma criança emburrada; quando está feliz, não consegue esconder sua satisfação; quando está triste, é incapaz de segurar as lágrimas . Masina encarnou perfeitamente essa fantástica personagem; foi uma das melhores atuações que já tive a oportunidade de ver.


A inocência de Cabíria nos é exibida durante todo o longa. Sua ingenuidade aparece na primeira cena da película. A protagonista é apresentada como uma garota que acaba de ser roubada e abandonada por seu namorado, e é nesse momento que conhecemos a relação entre a personagem principal e o amo: essa acredita na existência desse na sua mais perfeita forma.


Há uma cena em que Cabíria encontra um ator famoso o qual , após uma briga com sua companheira, resolve sair com a protagonista. É lindo quando ela demonstra seu fascínio infantil diante da situação ao se deslumbrar com o glamour do mundo dos artistas e sair gritando para todos que está com uma celebridade; quando seus olhos brilham como os de uma criança ao perceber que está dentro da mansão de um astro do cinema; quando ela observa todo luxo contido naquela residência e compara inocentemente com sua humilde casinha.


Na cena em que ela vai a um show de ilusionismo, é magnífico como ela se deixa convencer a subir no palco, como ela cai nos encantos do ilusionista e se irrita com a platéia que ri da sua situação. Essa cena se revela uma das mais belas da obra. Cabíria sobe ao palco e é hipnotizada. O ilusionista a faz acreditar que ela está em um belo parque na companhia de um homem. Cabíria fica muito feliz, seu rosto esboça um sorriso sincero e puro; ela está tranqüila, tudo está bem; tudo está como deveria estar. O ilusionista, vendo que mexeu com o lado sensível de uma garota que está procurando um companheiro, a faz acordar. Quando ela desperta, percebe que tudo não passou de uma ilusão e enxerga todos rindo dela. A cena é brilhantemente construída; o tempo todo nos é mostrado apenas o local onde ocorre o espetáculo, no entanto, conseguimos ver e sentir o que Cabíria vê e sente. Fellini é genial ao transmitir de maneira perfeita os sentimentos que a protagonista experimenta.

Cabíria sendo hipnotizada

Há uma cena de caráter crítico/reflexivo que é mais discreta, mas me chamou muito a atenção. Após uma prossição em louvor à Virgem Maria na qual todos fizeram promessas, acenderam velas, gritaram e rezaram calorosamente em nome da santa, Cabíria e seus amigos se reúnem ao lado de fora da igreja. Cabíria, com a inocência de uma criança, exclama indignadamente que todos continuaram iguais. Após rezarem, gritarem, chorarem, se amontoarem e esmagarem uns aos outros dentro da igreja, tudo continuou igual; ninguém mudou. Uma cena discreta, mas que faz uma bela crítica à relação entre seres humanos e religião.


Le Notti di Cabiria é um filme genial. Masina consegue interpretar perfeitamente a contradição de uma criança em corpo de mulher que, devido ao acaso ou à miséria, virou uma prostituta; a relação desse paradoxo ambulante com o amor e as pessoas, além da sua inserção em uma sociedade torta e tumultuada. Genial.

sábado, 26 de setembro de 2009

Um selo e um pedido de desculpas

Primeiramente gostaria de me desculpar pela minha ausência; essa semana foi bastante puxada na faculdade. Em breve estarei postando novamente.

Sobre o selo: recentemente ganhei um do blog Fotograma Digital (valeu, Alexandre!). Então, o repassarei para 10 blogs; alguns deles descobri recentemente. Me preocupei bastante com a qualidade dos selecionados, portanto, parabéns a todos!








quinta-feira, 24 de setembro de 2009

The Rocky Horror Picture Show - Horrivelmente sexy

The Rocky Horror Picture Show (1975)
Direção: Jim Sharman
Roteiro: Richard O'Brien e Jim Sharman




Hoje escolhi para comentar um dos meus filmes prediletos (preferência evidenciada no canto superior esquerdo desse blog) : The Rocky Horror Picture Show. A obra, baseada na peça homônima de Richard O'Brien, é um musical rock que satiriza os gêneros terror e ficção científica. O longa é composto por canções excelentes; a cada vez que o assisto, gosto mais dele.


O filme conta a história de um típico casal estadosunidense, Brad (Barry Bostwick) e Janet (Susan Sarandon). Completamente esterotipados, a mulher está toda hora a gemer “Oh Brad!” com sua comunzíssima voz de donzela norte-americana de filme hollywodiano; enquanto isso, o homem, que também atua de forma canastrona, é o típico macho que acha que sempre tem o controle da situação.

De cara já nos é revelado o tom sátirico-músical da obra; logo após a abertura da 20th Century Fox, escutamos a canção “Science fiction/ Double Feature”, enquanto é exibido na tela o nome dos responsáveis pela obra em letras cujas fontes remetem a filmes B de terror - filmes B eram a segunda metade de sessões duplas (Double Feature) de cinema; assim, a música nos revela que iremos assistir segunda metade de uma sessão dupla de ficção científica -. Após isso há o casamento entre Brad e Janet, que nos é mostrado enquanto os dois cantam calorosamente a música “Dammit, Janet”, contrastando com a inexpressividade dos camponeses ao redor. A próxima cena nos apresenta o narrador criminologista do longa (Charles Gray), um ser bizarro que nos revela, em um tom toscamente aterrorizante, que o casal sairia para visitar um amigo, o Dr. Everett Von Scott (Jonathan Adams).

Mostrando novamente Brad e Janet, os vemos furarem um pneu do carro durante a viagem em um intenso temporal, assim eles são obrigados a parar. Em busca de ajuda, os dois acabam encontrando o esteriótipo de um castelo mal-assombrado. Enquanto se aproximam do quintal, o casal canta alegremente “There is a light over at the Frankenstein place” (Há uma luz na casa de Frankenstein), achando que a sorte havia sorrido para eles ao encontrar uma ajuda, mas estavam enganados. A música simboliza esse equívoco, ao contrapor luz – um claro símbolo de esperança, alegria – e casa de Frankenstein – algo assustador, sombrio -.

Ao entrarem no castelo é que The Rocky Horror Picture Show realmente começa. O casal é recebido pelo bizarríssimo Riff Raff (Richard O'Brien), o mórbido corcunda empregado do castelo. O criado abre a porta para o casal, que escuta barulhos, como os de uma festa. Magenta (Patricia Quinn), outra criada, surge do nada e, com isso, Riff Raff começa a cantar uma das melhores músicas da obra: “Time Warp”. Enquanto o excêntrico corcunda canta e caminha pelo castelo, nos é exibido o cenário composto por esqueletos, cortinas escuras e empoeiradas, teias de aranha e animais empalhados. Na hora do refrão, Riff Raff abre uma porta e nos deparamos com a Convenção Anual dos Transilvanians.







Transilvanians: os figurantes dançando e cantando "Time Warp"

Preciso de um parágrafo só para os figurantes que interpretam os transilvanians; eles merecem, pois são de importância fundamental para o tom tosco de The Rocky Horror Picture Show. Onde é que encontraram pessoas tão bizarras? Na minha vida, nunca vi um grupo de indivíduos tão estranho. Há um anão, um homem/ mulher (não sei o que aquele ser é) que parece o Joey Ramone, velhas absurdamente esquisitas, além de outras espécies singulares. Não há como descrever toda a extravagância contida naqueles sujeitos. Se já não bastasse serem bizarros por natureza, eles trajam um figurino completamente tosco, barato, de má qualidade; as vestes são formadas por chapéus de festa, um chapéu de pirata (aquele com a caveira), chapéus pequeníssimos e mega-coloridos, além de excêntricos óculos escuros . Os mesmos figurantes que aparecem nessa cena (e em outras partes do filme que acontecem dentro do castelo) foram utilizados no início do filme (pelo menos alguns deles), na seqüência do casamento.

Durante a mesma cena ocorre outra repetição de atores, dessa vez com Richard O'Brien – que interpreta Riff Raff -, o qual atua como um dos inexpressivos camponeses. No entanto, essa repetição aparenta ser intencional, já que, dentro do castelo, instantes antes da música “Time Warp” começar a ser cantada, observamos um quadro no qual está pintado Riff Raff e uma mulher, ambos trajados como camponeses.


Em “Time Warp” temos a aparição de Columbia, outra criada, que faz um solo de sapateado completamente malfeito. Além disso, há a participação do narrador criminologista nessa canção, o qual canta e nos mostra didaticamente a dança. Assustada com o clima exótico, Janet pretende fugir, mas Brad não, pois achava que tinha o controle da situação. Enquanto discutem, os dois encontram a genial personagem interpretada por Tim Curry: Dr. Frank-N-Furter.





Sem Dr. Frank-N-Furter, The Rocky Horror Picture Show não seria nada. Ele é a alma do filme, a qual traz o tom sexual da obra. Tim Curry fez uma das melhores interpretações que eu já vi na minha vida. Mick Jagger queria interpretar o papel, mas felizmente não conseguiu. Ao entrar em cena, a personagem, enquanto rebola, canta “Sweet transvestite”, revelando que é um travesti que veio do planeta Transexual, da galáxia Transilvânia. Porra! Genial! Ele é um extraterrestre gay! Como se isso não bastasse, ele também está construindo um “monstro” (que, na verdade, se trata de Rocky, um bonitão criado para fins sexuais), como Frankstein (o que já havia sido ilustrado anteriormente na canção “Over at the Frankenstein place”).

O filme se desenrola de uma maneira surpreendentemente trash, com seus figurinos toscos, atuações canastronas, cenários mal feitos, referências a Capela Sistina, David de Michelangelo e tantas outras obras, os aparatos tecnológicos (como o oscilador sônico, por exemplo) e suas brilhantes canções que não saem da cabeça. Um dos exemplos da trashice da obra é quando Dr. Frank-N-Furter mergulha em uma piscina e, após sair, tem sua tatuagem muito borrada, ficando assim por um bom tempo. O estilo trash revela-se também nas constantes as passagens de cenas feitas de maneira completamente tosca, como na qual a nova seqüência escorre como sangue pela tela.

The Rocky Horror Picture Show é um filme para se assistir milhares de vezes. Sua simplicidade, sensualidade, excêntricidade e qualidade musical me conquistaram e fizeram essa obra entrar para a minha lista.

OBS: No site do fã clube, há uma notícia de que a MTV planeja fazer um remake de The Rocky Horror Picture Show. Como fã do filme, acho impossível que a nova versão se iguale à original.