Direção: Stanley Kubrick
Roteiro: Stanley Kubrick, Anthony Burgess

“Mas será mesmo atroz o peso e bela a leveza?
“O mais pesado dos fardos nos esmaga, verga-nos, comprime-nos contra o chão. Na poesia amorosa de todos os séculos, porém, a mulher deseja receber o fardo do corpo masculino. O mais pesado dos fardos é, portanto, ao mesmo tempo a imagem de realização vital mais intensa. Quanto mais pesado é o fardo, mais próxima da terra está nossa vida, e mais real e verdadeira ela é.
“Em compensação, a ausência total de fardo leva o ser humano a se tornar mais leve do que o ar, leva-o a voar, a se distanciar da terra, do ser terrestre, a se tornar semi-real, e leva seus movimentos a ser tão livres como insignificantes.
“O que escolher, então? O peso ou a leveza?”.
“... Só uma coisa é certa. A contradição pesado/leve é a mais misteriosa e a mais ambígua de todas as contradições.”.
É exatamente assim que me sinto em relação à sétima arte. Obras que perturbam e ferem minha alma, estão esmagando-me contra o solo. Ao ser comprimido, sinto-me vivo e é nesse ponto que reside minha paixão pelo cinema. Meus filmes prediletos são aqueles que, quando assisto, fazem jorrar da tela uma torrente de emoções a qual me envolve e acende em mim a luz de minha existência, tornando-me mais vivo naquele momento. Ao mesmo tempo em que esse pensamento explica meu fascínio por certas películas, ele ilustra meu desgosto por outras. Os longas que me provocam repulsa, em geral, são aqueles formados por uma natureza leve. Infelizmente, a cena mainstream cinematográfica é constituída de um vazio imensurável; o fantasma da ignorância está assombrando a maioria das salas de projeção do mundo todo (se Porto Alegre for culturalmente uma pequena amostragem do que ocorre no resto do globo). As fitas que se formam dessa leveza não me tocam em nada (minto, elas me provocam desprezo). A falta de apreço nasce da total ausência de peso que elas trazem, pois quando às assisto, sinto minha existência se aproximar à de uma folha de papel. Enfim, o bom cinema é aquele que me faz viver.
O peso das obras da sétima arte não vem, necessariamente, em forma de flagelos ao espírito. Essa é apenas uma das faces que estou abordando, devido ao tema da série a qual pertence esse texto. Há facetas as quais são outros sentimentos aparentemente ruins: tristeza, confusão, náusea, etc. Parece estranho, mas um filme que faz alguém chorar é normalmente considerado por esse alguém uma excelente obra; isso ocorre porque esse alguém apenas sentiu sua existência mais real.
Obviamente, meu gosto cinematográfico não se limita apenas a filmes pesados. Como disse em “soco no estômago 03”, minha preferência cinéfila é pseudo-antagônica (quem quiser entender, leia o texto – é só clicar no título que citei anteriormente). Obras mais leves - como The Rocky Horror Picture Show (1975), por exemplo - também me agradam. Por quê? Não sei explicar ao certo. Como Milan Kundera disse: “... Só uma coisa é certa. A contradição pesado/leve é a mais misteriosa e a mais ambígua de todas as contradições.”.
Terminado meu devaneio, vamos ao filme. Laranja Mecânica é uma polêmica película de Stanley Kubrick que foi baseada no livro homônimo de Anthony Burgess. A obra, que se passa no futuro, mostra o rumo da mente de Alex, o protagonista da película. Inicialmente ele é um vândalo. Em um de seus atos, a personagem principal é presa e, na cadeia, é escolhida para um novo tratamento que promete recuperar os delinqüentes. O novo método é uma espécie de lavagem cerebral, a qual varrerá toda a violência contida na mente dos prisioneiros.
Aí está o ponto principal do filme, ao analisar os aspectos da manipulação da mente humana. A história é muito bem explorada, ao mostrar as várias conseqüências do controle sobre o intelecto humano. O que pensariam os religiosos, os políticos, os policiais e os intelectuais? A trama consegue percorrer pelos caóticos caminhos resultantes da intervenção no livre-arbitrio. O roteiro também é enriquecido pela inserção de neologismos nas falas das personagens.
Essa história extremamente bem elaborada foi ilustrada com maestria por Kubrick. Laranja Mecânica é um filme visualmente incrível! O caótico futuro descrito no roteiro torna-se ainda mais desordenado nas mãos do diretor: as cores jorram na tela, os figurinos são bizarríssimos - como a peruca da mãe de Alex -, o cenário é incrível, e a câmera capta todas as ações com destreza. Outro ponto forte da película é a magnífica atuação de Alex, além da excelente trilha sonora, que conta com composições de Beethoven. Além disso, o filme possui um rítmo incrível: a obra, em momento algum, perde sua fluidez, pois estamos, a todo o momento, sendo flagelados por sua original extravagância estética e por seu turbulento roteiro.
Stanley Kubrick
Considerei o filme perturbador, devido à violência explícita que ocorre principalmente no início do longa, como na cena em que o grupo de Alex invade uma residência para praticar um pouco da velha ultra-violence. Tudo é feito com muita crueldade, porém de forma natural. Lá eles estupram uma mulher e espancam seu marido enquanto cantam alegremente “Singing in the rain” - uma canção que, na película homônima, é uma clara demonstração de alegria. Em Laranja Mecânica a canção tem a mesma função: mostrar a felicidade. Mas agora, essa não é mais fruto do amor por uma mulher, mas sim do prazer de prejudicar o próximo. Além dessa, há outras cenas que devem ter perturbado muito a alguns espectadores. Um exemplo é uma seqüência na qual Alex ouve Beethoven no seu quarto, e lá há uma escultura com vários Jesuses dançando com a habitual feição de sofrimento. É uma passagem discreta, mas deve ter mexido com muitos.
(SPOILER) Um dos grandes momentos do filme é quando Alex - após ter sua mente lavada, sua liberdade adquirida e seu corpo surrado - vaga perdido pelas ruas e procura abrigo, acidentalmente, na mesma casa onde havia estuprado uma mulher e espancado seu marido. Para sua sorte, ele estava mascarado na data do ataque, assim, o propriétario da casa - que agora está em uma cadeira de rodas, devido aos golpes que levara naquele trágico dia – não o reconheceu e o ajudou. Alex vai a uma banheira para se recuperar, e lá, tomado por uma incontrolável alegria, começa a cantarolar novamente “Singing in the rain”. O senhor, reconhecendo a voz do cantor, sofre uma espécia de ataque nervoso. A cena é genial, devido ao modo com o qual ela lentamente toma forma. A situação vai gradualmente agravando-se, ao mesmo tempo em que a cantoria de Alex aumenta de volume; no fim, tudo culmina na brilhantemente filmada (pseudo)convulsão do pobre senhor.
Laranja Mecânica critica a tudo e a todos: vândalos, políticos, religiosos, intelectuais que defendem os vândalos, e conservadores que os acusam. Essa película é uma das melhores que já vi, no entanto, não consigo dizer que ela é a obra-prima de Kubrick, pois fico entre essa e a visualmente extasiante 2001: A Space Odyssey.
Acima de um excelente trabalho, considero Laranja Mecânica uma obra importantíssima na minha vida, pois ela me ensinou algumas lições sobre cinema. A primeira vez que assisti ao longa, há dois anos atrás, odiei-o. Aquilo era apenas um filme comprido, chato, que ia do nada ao lugar nenhum. Isso havia ocorrido por simplesmente um motivo: eu não havia compreendido a obra. Na época, estava começando a me interessar por cinema e resolvi alugar o filme. Errei ao escolher essa película para compor o início de minha cinefilia, pois Laranja Mecânica é um filme de difícil acesso: é uma obra violenta, crua, excêntrica, esteticamente vibrante (o que é estranho para alguém que não está acostumado) e com um anti-herói como protagonista. Imaginem isso para alguém que está apenas engatinhando no mundo do cinema, para alguém que era fã de Adam Sandler (Sim! Eu era fã do Adam Sandler!), Rob Schneider e qualquer outro ator que aparecesse em comédias pastéis. Minha namorada, Stephanie, é testemunha do meu péssimo gosto da época, além da minha completa incapacidade de assistir a algo mais sério do que aquilo. Um simples filme policial já era o suficiente para me deixar completamente entediado, fazendo com que eu me distanciasse da tela. Há dois anos atrás, a indirença quanto à maioria dos filmes não era devido ao vazio desses, mas sim a minha falta de percepção.
Há vezes em que não gosto de um filme devido ao vazio desse, mas há outras nas quais meu desgosto é apenas uma conseqüência da minha incompreensão daquilo que deveria ser compreendido. Essa última afirmativa (“incompreensão daquilo que deveria ser compreendido”) pode parecer redundande, mas não é. Há casos em que o cineasta intencionalmente confunde o espectador ao não expressar uma interpretação irrefutável – como nas obras de David Lynch, realizador do qual sou fã -, mas também há vezes em que simplesmente não conseguimos absorver a riqueza das obras de interpretação aproximadamente linear (quando assisti pela primeira vez a Laranja Mecânica, por exemplo). Além desses dois acontecimentos, há um terceiro, o qual nasce da falta de capacidade de não assimilar a existência de idéias que não eram para ser necessariamente compreendidas (como quem, ao ver algum filme de Lynch, não compreende a inexistência de uma verdade semântica absoluta).
Laranja Mecânica me ensinou a escutar meu bom senso, a saber o porquê de minha indiferença quanto a algumas obras. O período de dois anos pode parecer pequeno, mas para mim não foi. Nesse tempo pesquisei longas e cineastas, procurei na internet listas e listas de importantes obras, fui a locadoras com uma listagem dessas fitas na mão e perguntava filme por filme aos atendentes (era uma lista de 5 páginas; alías, ainda é, pois ainda não assisti a todas as películas que nela estão); fui cada vez me apaixonando mais por cinema, e assim o it was RED nasceu. Ao invés de engatinhar, começo a esboçar os primeiros passos de minha cinefilia, no entanto, estou longe de conseguir caminhar com total desenvoltura, de correr pelo mundo da sétima-arte. Espero um dia chegar lá.